Médio Oriente: Palestinianos de Gaza iniciam Ramadão com sentimentos contraditórios

Os palestinianos de Gaza começaram esta quarta (18) a festejar, com alegria contida e sentimentos contraditórios, o primeiro Ramadão desde o início do cessar-fogo de 10 de outubro passado, entre Israel e o grupo islamita Hamas.

Perto da mesquita de Omari, na Cidade de Gaza, onde muitos fiéis se reuniram de manhã para rezar, vários lamentaram que os bombardeamentos continuem.

“Viemos, apesar da ocupação, da destruição de mesquitas e de escolas, da demolição das nossas casas perto da linha amarela”, a fronteira militar definida pelo cessar-fogo, onde os soldados israelitas permanecem estacionados, disse Abu Adam, residente nesta grande cidade do norte do território, citado pela agência de notícias francesa AFP.

“Esta madrugada, quando a área foi atingida, decidimos vir rezar a Deus”, acrescentou.

Segundo adiantou à AFP uma fonte de segurança, a zona leste da Cidade de Gaza e um campo de refugiados na região central do território foram alvo de disparos de artilharia esta quarta-feira.

Ataques continuam, a meio de acusações mútuas de violação do cessar-fogo

Após mais de quatro meses de cessar-fogo, os bombardeamentos e ataques aéreos continuam diariamente na Faixa de Gaza, onde ambos os lados se acusam mutuamente de violar a trégua.

A situação adia ainda mais a muito esperada reconstrução de Gaza, onde os mais de dois milhões de habitantes, a maioria dos quais foi deslocada várias vezes durante a guerra, também enfrentam o bloqueio imposto por Israel desde o início do conflito, desencadeado pelo ataque do Hamas em solo israelita a 7 de outubro de 2023.

Também em al-Mawasi, um vasto campo de deslocados no sul de Gaza, o Ramadão deste ano é recebido com tímidos festejos e muita apreensão.

Nivin Ahmed, um palestiniano de 50 anos que vive numa tenda naquele campo sublinha que este é o “primeiro Ramadão sem guerra em três anos”, o que provoca “sentimentos contraditórios”.

“A nossa alegria é contida. Sentimos a falta daqueles que foram mortos, daqueles que estão desaparecidos, detidos ou mesmo daqueles que partiram”, admitiu.

Embora algumas bancadas do mercado se mostrem cheias, como é costume na preparação para o Ramadão, muitos habitantes de Gaza lamentam que os preços continuem demasiado elevados.

“A mesa do Ramadão costumava ser farta, com os pratos mais deliciosos, e reunia todos os nossos entes queridos. Hoje, mal tenho dinheiro suficiente para preparar um prato principal e um acompanhamento. Tudo é caro”, comentou Nivin Ahmed.

Festividades mantêm-se

Em algumas tendas, no entanto, a atmosfera é festiva, com grinaldas acesas para receber o mês mais sagrado para os muçulmanos, que assinala a revelação do Alcorão ao profeta Maomé.

“Nas ruas ouvem-se cantos e as decorações iluminam as tendas. A alegria dos meus filhos é indescritível”, avançou Khitam Ayada, uma mulher de 30 anos que vive com a sua família numa tenda em Deir el-Balah, na região central da Faixa de Gaza.

“Quando acendemos as luzes, [as crianças] não conseguiam tirar os olhos delas e não paravam de sorrir. A minha filha disse-me: ‘Mamã, a nossa tenda tornou-se a mais bonita’”, descreveu a jovem que foi deslocada de Beit Lahia, no norte.

“Este ano é diferente dos anteriores. Desta vez, o Ramadão é um tempo de felicidade, com o fim da guerra”, considerou.

Também Mohammed al-Madhoun, um pai de 43 anos que vive numa tenda a oeste da Cidade de Gaza, espera que o Ramadão seja o início de um futuro melhor.

“Espero que este Ramadão seja o último que passemos em tendas. Sinto-me mal perante os meus filhos quando me pedem para comprar grinaldas e sonham com uma mesa farta dos seus alimentos preferidos”, confessou, admitindo que, apesar de tudo, tenta encontrar alegria.

A esperança foi também o mote de uma mensagem gigante, esculpida na praia de Deir el-Balah pelo artista palestiniano de 31 anos, Yazeed Abu Jard. Em letras garrafais desenhadas na areia proclama: “Bem-vindos ao Ramadão”.

O Ramadão, que decorre até ao dia 19 de março, implica um jejum obrigatório de comida, bebida, tabaco e relações sexuais desde a alvorada (Fajr) até ao pôr-do-sol (Maghrib).

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