Uma longa saga começa a aproximar-se do fim. Esta sexta-feira, França finalmente devolveu à Costa do Marfim, numa cerimónia formal, o histórico djidji ayôkwé (o nome vernacular significará algo como “pantera-leão”), instrumento sagrado do povo ebrié que, em 1916, foi confiscado em Abidjan pela administração colonial francesa. Este tambor-falante esculpido em madeira era um de 148 bens cuja devolução a Costa do Marfim exigia a França desde 2019. A repatriação fora aprovada por unanimidade na Assembleia francesa em Julho último.
Com três metros de comprimento e 430 quilos, este monumental instrumento era utilizado para transmitir mensagens rituais, que conseguiam percorrer mais de 20 quilómetros, e para alertar os aldeões, por exemplo, para a ocorrência de operações de alistamento militar forçado levadas a cabo pelos colonos franceses. No final de 2022, o tambor-falante foi restaurado num laboratório especializado em Aubervilliers, na periferia de Paris, sob supervisão das equipas do Museu do Quai Branly — em cujas colecções fora integrado em 2006, mas onde nunca esteve exposto. Em 2021, na cimeira África-França realizada em Montpellier, Emmanuel Macron comprometera-se a restituir o djidji ayôkwé à Costa do Marfim.
“Toda a Costa do Marfim está pronta para o receber”, afirmou, na cerimónia realizada esta sexta-feira em Paris, a ministra marfinense da Cultura e da Francofonia, Françoise Remarck, que se disse “extremamente tocada” com o ansiado regresso a casa do instrumento sagrado. A ministra da Cultura francesa, Rachida Dati, falou numa “parceria exemplar” entre as duas nações durante o longo processo de devolução. Este momento representa “um triunfo do diálogo sobre o silêncio”, enfatizou Remarck.
À imagem daquilo que sucedeu no momento do restauro, o transporte do tambor-falante requererá uma cerimónia de dessacralização, que está marcada para segunda-feira, segundo escreve o Le Monde. O djidji ayôkwé será integrado nas colecções do Museu das Civilizações da Costa do Marfim. Realizada a cerimónia formal, resta ainda esperar pelo anúncio de uma data concreta para a devolução efectiva, material, mas Françoise Remarck assegurou que o museu marfinense “está pronto para receber o tambor-falante, tecnicamente, cientificamente e simbolicamente”.
O Senado francês aprovou por unanimidade, no mês passado, um projecto de lei para a lei-quadro que Emmanuel Macron promete desde 2017 e que visa facilitar as restituições de bens culturais roubados às antigas colónias. Devido ao princípio da inalienabilidade dos bens incorporados nas colecções públicas francesas, ainda em vigor, as devoluções têm vindo a acontecer lentamente, um caso de cada vez, sendo sempre preciso, para cada instância, aprovar uma legislação específica no Parlamento.

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