antropólogo, produtor e músico que só quer canções – Observador



Não foi preciso dar uma explicação exaustiva a Benjamim no momento do convite para fazer a banda sonora de Os Segredos da Seita do Yogao novo Podcast Plus do Observador que conta a história de dezenas de portuguesas que se tornaram seguidoras de um guru manipulador que acabou acusado de exploração sexual e tráfico humano. Ouvinte fiel desde O Sargento na Cela 7 (que inaugurou esta série do Observador), sabia perfeitamente o que tinha de fazer. “Ouvi-os a todos e tenho amigos, como Noiserv, que já tinham feito bandas sonoras anteriores. Portanto, estava familiarizado com a estrutura. O guião está tão bem escrito que, quando o li, consegui ouvir a narradora [Daniela Ruah] na minha cabeça e os sons de que a história precisava”, conta ao Observador.

Ajudou também o facto de ter estado na Índia um ano antes, em lua de mel. Em Jaipur comprou instrumentos de percussão que vieram mesmo a calhar para este projeto e em Goa fez ioga pela primeira vez. “Foi uma experiência bastante profunda, sobretudo como ideia de exercício físico. Depois fico ansioso com a parte em que temos de estar a relaxar”, admite.

[o trailer de “Os Segredos da Seita do Yoga”:]

Sabia que, para a música funcionar, tinha de seguir algumas regras. “Fiz uma coisa que tem imensas camadas e instrumentos, que é uma música que vai do início ao fim com inúmeros momentos. E desses momentos vão tirando [na sonoplastia] uma parte, vão desdobrando para servir certas partes da história.”

Para Benjamim, é libertador quando não tem de pensar em letras, para ele a parte mais difícil do processo criativo. No entanto, sempre que sai do estúdio que ocupa em Benfica, está constantemente a criar. “Coloco os fones, ouço o que estive a gravar e deixo notas no telefone. No carro também vou a ouvir o que gravei. Estou sempre num modo um bocado obsessivo.”

Em casa força-se a desligar, mas nem sempre foi assim. “Quando vivia sozinho, chegava a casa e a primeira coisa que fazia era pegar na guitarra. Ficava horas naquilo.” A bem da sanidade mental — e do casamento — desmontou o estúdio que tinha em casa, mas mantém um “sistema muito simples” à mão, não vá dar-se a urgência de precisar de gravar uma ideia.

Luís Nunes nasceu em Lisboa a 24 de maio de 1986 e cresceu em Carnide, de onde guarda memórias vívidas. “Era uma zona de novas famílias, havia um jardim enorme onde brincávamos e aos cinco anos ia sozinho comprar pão.”

Estudou na Escola Alemã. Tem um irmão mais velho que lhe mostrou Nirvana, Oasis e Smashing Pumpkins. Da mãe herdou a paixão pelos Beach Boys, uma das suas grandes inspirações, e por Bob Dylan. Aos cinco anos pediu-lhe para ir aprender violino. “Na televisão fascinava-me ver como é que um arco que quase não tocava na corda dava som.”

Foi para a Fundação Musical dos Amigos das Crianças, mas rapidamente percebeu que o violino era o instrumento errado para ele. Porém, com o investimento feito, não quis desistir e foi mantendo as aulas. Quando finalmente quis sair, a mãe marcou-lhe, às escondidas, uma aula de piano. “Eu sabia que era aquilo que devia fazer, mas com 14 anos queres é estar com os teus amigos.”

Ainda assim, convencido pela mãe, foi à audição e conseguiu a vaga. O piano deu-lhe as bases para depois aprender a tocar guitarra sozinho. Para um miúdo que gostava de música, o caminho natural era ter uma banda. Requiem foi o nome escolhido por um grupo de três amigos que se juntaram no quinto ano. Já escreviam e compunham temas originais, tocavam muito poucos covers. “Eu era o baterista. Não sabia tocar bateria, mas queria tocar bateria, e isso foi um dado importante para ter desistido do violino. Eu queria tocar rock, não queria tocar música de orquestra.”

A sonoridade evoluiu depois para o heavy metal e muitos dos ensaios fizeram-se na Escola Alemã. “Tínhamos uma sala de ensaios e davam-nos a chave. Éramos putos, tínhamos dez anos, mas entrávamos, tirávamos os amplificadores, tocávamos, embora não soubéssemos tocar, fazíamos uma barulheira, depois arrumávamos e íamos embora.”





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