Eu gosto muito de me rir; é bom e libertador fazer uma piada. É diferente embrulhar na piada a vontade de ferir um amigo. Há sempre pessoas que gostam de o fazer. Até na piada mordaz tem de haver honestidade. Ou vai inteira e corajosa ou não é de amigo.
Não há nada de mais irritante e imaturo (e doloroso?) do que um amigo que nos faz um reparo que nos fere, para logo em seguida dizer: “estava a brincar”. As pessoas que insistem nessa brincadeira, normalmente, levam-na muito a sério.
A maturidade acompanha a amizade. É natural que assim seja: se éramos por vezes imbecis com as pessoas de quem gostamos, e acabámos também nós feridos com outras fintas que a vida nos pregou, possivelmente fomo-nos tornando melhores pessoas e há ali uma altura em que a expressão “não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti” acaba a fazer todo o sentido.
Não há moralismos nestas crónicas, mas deve ser a isto que se chama… aprender.
É por isso comum que todos já tenhamos estado nesse lugar do amigo que inflige dor ao outro e, com a experiência, que tenhamos passado a ter cuidado com isso.
Arrisco dizer, e é um grande risco, que se não ficámos mais sintonizados com as dores dos outros até aos 40, dificilmente lá vamos chegar. Mas, às vezes, a vida guarda surpresas de que ninguém estava à espera.
Por isso, quando vejo algumas pessoas, aparentemente maduras, usar essa táctica baixa do “estava a brincar” fico apreensiva. E olhem que a brincadeira não costuma ser comigo. A minha fama de ser muito verdadeira com os amigos sempre me livra de alguns desconfortos. Também gostava aqui de explicar esta minha relação com a sinceridade: temos, de facto, laços fortes, eu e a sinceridade, mas também se aprende a refrear o que antigamente saía como uma lança da (minha) boca.
Há uns tempos um amigo contou-me que tinha reencontrado alguém, com quem já não se dava agora, e que essa pessoa lhe tinha falado num reparo que eu tinha feito há dez anos? Quinze? Foi há muito tempo. Era uma festa ou um jantar bem-disposto. No meio da algazarra, em que todos tentamos ter mais graça do que aquele que está ao nosso lado, deve-me ter escapado uma piada, provavelmente sem graça, sobre um casaco que essa pessoa tinha levado. Eu não estava a brincar, o gracejo saiu sincero, num ambiente em que a piada era como se fosse uma canção em contínuo. A pessoa ficou magoada. Era uma mulher. A piada veio de outra mulher. Eu. Talvez fosse indiferente de quem vinha. Mas foi há mais de dez anos e essa mulher não a esqueceu.
É mesmo muito provável que, hoje em dia, tivesse mais cuidado ou, tentando-me com a piada porque não resisto ao humor (mesmo que se revele depois sem graça), logo a seguir diria qualquer coisa de muito pior em relação a mim própria. Hoje, rio-me bastante das minhas incapacidades, das matérias em que sou uma nulidade, até – porque costuma doer-nos bastante mais a nós mulheres – me rio das minhas rugas que apareceram sem avisar e do peso que criou uma relação de grande proximidade comigo e não me larga. Tenho de me rir. Temos todos de nos rir.
Eu não me lembro da piada que fiz há dez ou quinze anos – não me lembro mesmo. Muito menos do casaco. E dificilmente me lembraria da cara dessa pessoa, se a reencontrasse hoje. Mas era a amiga do meu amigo e eu devia ter sido mais respeitosa. Até posso pensar que afinal era só um casaco, mas esse casaco nessa noite nem sequer a abrigou da dor que ela sentiu.
A mulher, quando reencontrou o meu amigo, que também não a via há algum tempo, fez alusão à piada, que ficou alojada no coração ou na memória dela.
Fiz programas de humor na televisão que jamais repetiria. Eu também me magoei, magoando os outros.
Os amigos podem contar com a minha sinceridade há muito refreada. Há casacos que não volto a vestir, mas uma piada, uma ‘boca’, quando é atirada sobre os outros, deve ir honesta, sem cinismo. Até quando é impiedosamente honesta. Se alguém, depois, remata dizendo “estava a brincar”, então essa pessoa não é um amigo.
O coração ainda bate.

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