
Há pouco mais de um ano, no programa “Primeira Pessoa”, Nuno Morais Sarmento explicava a Fátima Campos Ferreira o fascínio que tinha pelo mar, sobretudo pelas profundezas onde a Natureza se mantém intacta e onde o homem não manda. “Não temos sempre de mandar na vida, até porque não mandamos”, diz. Estar sozinho no mar, a mergulhar como gostava, “levado pela barbatana de um tubarão-baleia”, é o melhor que lhe pode acontecer, confessa. É fazer parte da criação divina. É deixar-se ir.
Aplaudido pela sua inteligência fulgurante, admirado por levantar congressos do Partido Social-Democrata, Nuno Morais Sarmento apresentava um lado de si mesmo que, na verdade, era um exemplo da sua coerência. Ninguém muito inteligente deixou alguma vez de fazer nem de dizer o que bem queria, mergulhar com tubarões ou restruturar a RTP. Morreu a 7 de março, em Lisboa, vítima de cancro no pâncreas.
Nuno Albuquerque de Morais Sarmento nasceu a 31 de janeiro de 1961, em São Sebastião da Pedreira, em Lisboa. O terceiro de sete irmãos, a família vivia em frente ao Pavilhão dos Desportos, onde se realizariam grandes comícios. Após o 25 de abril, a família passou por momentos difíceis e a sua vida mudou. No Liceu Camões integra a primeira Associação de Estudantes legalizada e começa a despertar para a política. Em 1975, publica cartas no jornal “Templário”. E um dia dirige-se à sede do PSD.
Aluno brilhante de Direito, conclui os estudos na Universidade Católica. Integra a Sociedade de Advogados PLMJ, como advogado e sócio. Faz parte da JSD, mas sempre com a função de contrariar a maioria, sem se tornar realmente parte do que acreditava correr o risco de se tornar “uma engrenagem”, algo que não beneficiava o partido. Na sua vida política, como militante do PSD, está presente em grandes combates, desde a ascensão de Durão Barroso até chegar à liderança do partido, passando pelo apoio a Marcelo Rebelo de Sousa em 1995. Ainda nas lutas partidárias, apoiou Manuela Ferreira Leite contra Pedro Passos Coelho na liderança do partido e depois Paulo Rangel. Mais tarde apoiaria Rui Rio para depois se distanciar por divergir na estratégia.
José Luís Arnaut, antigo ministro-adjunto do primeiro-ministro, que acompanhou Morais Sarmento na maior parte das lutas políticas e partidárias, e que com ele conviveu nos governos de Durão Barroso e Santana Lopes, diz sobre o seu grande amigo que “teve o que quis e não foi mais longe porque não quis”. Não ter ido mais longe, assumindo por exemplo o desafio de se candidatar à liderança do partido, não era um problema para Morais Sarmento que preferia a liberdade, a frontalidade, o confronto de ideias à vaidade.
Depois de ser ministro da Presidência, com Durão Barroso, no XV Governo Constitucional (2002-2004), e ministro de Estado e da Presidência, com Santana Lopes, no XVI Governo Constitucional (2004-2005), conta José Luís Arnaut que Morais Sarmento decidiu viajar num barco cargueiro durante uns meses e voltou maravilhado com o bem que lhe tinha feito aquele “banho de humildade”. Vivera momentos intensos nos governos, desde logo quando poucos meses depois de tomar posse, decidiu dar uma entrevista franca e honesta a Maria João Avillez, na SIC, onde admitiu a sua adição pelas drogas durante a juventude. Com essa verdade prestou um serviço ao país. Duarte Marques, antigo deputado, trabalhou de perto com Morais Sarmento e conta que muitos pais queriam falar com ele para poderem ajudar os filhos toxicodependentes. “Falava sempre com toda a gente e ajudava”, diz.
A restruturação da RTP iria trazer-lhe manifestações à porta da 5 de outubro e muitas críticas, mas não vacilou na sua convicção de reformar o que parecia irreformável e de manter um serviço público de televisão aberto à sociedade civil, nomeadamente com um canal 2 dedicado à cultura. A mudança de instalações ajudou no processo. Recentemente defendeu que a publicidade não deveria sair da RTP.
Duarte Marques diz que “o seu maior trunfo era a liberdade de pensamento. As conversas com ele nunca eram superficiais. Odiava conversa fiada”. Conta com emoção que Morais Sarmento foi aplaudido de pé no Carnegie Hall na celebração dos 40 anos da FLAD, fundação à qual presidiu em 2024, até ao momento em que se demitiu. A doença instalava-se de uma forma violenta, com 12 cirurgias num curto espaço de tempo.
Devoto de Nossa Senhora da Nazaré dizia com aquela convicção serena de quem é crente: “não acaba aqui”, mostrando estar em paz.

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