Analistas antecipam um grande impacto do novo portátil da marca, que é o primeiro Mac de baixo custo em mais de dez anos. Já pode ser comprado em Portugal, a partir de 699 euros.
A Apple prepara-se para virar ao contrário o vasto mercado de computadores a preço acessível, que até agora lhe estava vedado. O novo MacBook Neo, que chegou às prateleiras a 11 de março, é o primeiro portátil de baixo custo da marca em mais de uma década e surge num momento de forte pressão para o segmento. Custa 699 euros em Portugal e 599 dólares nos Estados Unidos, com desconto de 100 euros para estudantes e professores universitários.
A novidade foi recebida de forma positiva por analistas que acompanham o mercado tecnológico e atraiu a atenção dos consumidores: o vídeo de apresentação do MacBook Neo acumulou 26 milhões de visualizações em menos de uma semana.
“Acredito que isto expande o mercado endereçável geral da Apple, que procura atingir um novo segmento de mercado”, disse ao Expresso Neil Shah, cofundador e vice-presidente de pesquisa da consultora Counterpoint Research. “Pode canibalizar algumas vendas de iPad, mas deverá sobretudo impactar o mercado de PC com Windows e Chromebooks abaixo dos mil dólares de forma mais significativa.” Passa a ser o computador mais barato capaz de correr Apple Intelligence de forma nativa.
Shah considera que o lançamento é “uma bomba” que permite à marca ir atrás de metade do mercado de PC, que até agora não estava ao seu alcance. “Há um potencial de crescimento significativo para a Apple”, salientou. “Se a Apple conquistar 10% deste mercado, isso poderá empurrá-la para a terceira posição este ano, ultrapassando a Dell no segmento dos portáteis.”
O momento do lançamento é importante, porque o mercado enfrenta problemas na cadeia de abastecimento de chips e componentes e aumentos significativos de preços, ao mesmo tempo que a procura arrefece. A consultora IDC projeta uma quebra global nas vendas de 11,3% em 2026, depois de um crescimento de 8,1% no ano passado, em que o ranking de fabricantes foi liderado pela chinesa Lenovo (24,9% de quota). Seguiu-se a HP com 20,2% e a Dell Technologies em terceiro, com 14,4%. A Apple ficou em quarto, alcançando 9% de um total de 284,7 milhões de unidades vendidas. Se a estratégia do Neo for bem-sucedida, esta fatia da Apple no mercado pode crescer de forma substancial.
“A empresa realmente quer ganhar quota de mercado ao lançar um preço tão atrativo”, explicou ao Expresso Francisco Jerónimo, vice-presidente associado da divisão de dispositivos da IDC EMEA. O analista lembrou que a Apple sempre posicionou o MacBook como um produto premium e que os preços mais acessíveis até agora rondavam os mil euros. Por isso, considera que o Neo tem potencial para ter um grande impacto numa altura em que os computadores poderão aumentar de preço de forma generalizada.
“Este é um dos anúncios mais importantes da Apple na linha de produto Mac e representa uma mudança na história do Mac”, sublinhou o especialista. Jerónimo frisou que a marca pretende aumentar a sua quota de mercado de forma agressiva e assim expandir o ecossistema. “Ao baixar a barreira de entrada para o Mac, a Apple pode trazer mais utilizadores para o seu ecossistema de serviços e dispositivos, particularmente estudantes e pessoas que compram um Mac pela primeira vez.”
Expectativa e entusiasmo
Uma análise da GlobalData desde o anúncio do Neo mostra que o sentimento online é sobretudo de expectativa e entusiasmo. “Os influenciadores veem o MacBook Neo como uma jogada estratégica de mestre, prevendo um sucesso estrondoso que poderá revolucionar o mercado de portáteis de baixo custo ao oferecer uma experiência macOS premium a um preço sem precedentes”, explica a analista de redes sociais Shreyasee Majumder. “No entanto, alguns expressam preocupação significativa com a limitação de 8GB de RAM do modelo básico”, ressalvou.
Um dos elementos que permitiram à Apple reduzir o preço deste portátil foi a integração do chip A18 Pro, usado no iPhone 16 Pro, em vez dos chips M que alimentam os Macs mais caros.
Meredith Eitt, analista sénior de tecnologia da GlobalData, realça que a Apple é tradicionalmente a marca de portáteis mais cara do mercado, com preços médios entre 1.000 e 3.000 dólares. Ao entrar no segmento abaixo dos 600 dólares, “o MacBook Neo da Apple será um concorrente formidável, dado o preço tentador aliado à forte reputação da Apple e à base de utilizadores fiéis.”
O co-CEO da Asus, S.Y. Hsu, admitiu isso mesmo no rescaldo da apresentação de resultados do ano fiscal, descrevendo o Neo como “um choque para toda a indústria” que obrigará os fabricantes de PC a reagir.
Ainda com poucos dados, já é possível ver que algumas versões do computador esgotaram as pré-reservas de entrega imediata nos Estados Unidos e a previsão passou para o final de março ou início de abril. É o caso da opção com 512GB e sensor Touch ID nas cores Rosado, Cítrico e Índigo, que está a vender melhor do que as versões de 256GB sem Touch ID. O mesmo pode ser verificado em Portugal, onde as versões mais baratas têm data de entrega mais rápida independentemente da cor. Francisco Jerónimo acredita que a Apple vai trabalhar para ter unidades disponíveis para entrega nas próximas semanas e não acredita que a empresa tenha disponibilizado poucas unidades à partida para criar ‘hype’. “Se eventualmente esgotar, dever-se-á à popularidade do produto.”
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