“O PS não tem um lugar cativo no Tribunal Constitucional” – Observador



Que avaliação faz dos dois anos de mandato de Luís Montenegro? Tem estado à altura das expectativas?
É um governo de minoria. Não tem condições para fazer reformas. Mas esperava um pouco mais. Não tem confrontado a oposição tanto quanto esperaria com a necessidade de reformas. Claro que no primeiro mandato havia problemas relacionados com o próprio primeiro-ministro e houve instabilidade causada por isso. Neste segundo mandato, em que a votação do PSD foi reforçada, parece-me difícil de justificar ou compreender isso. Quando o primeiro-ministro diz que está a transformar Portugal, com toda a franqueza… Enfim, acredito que seja a sua intenção, é essa a vocação do PSD. Mas é preciso fazer mais.

A forma como caiu o primeiro governo, a moção de confiança, o caso Spinumviva, os inquéritos do Ministério Público… Luís Montenegro tem um problema de credibilidade política?
Não queria pronunciar-me sobre esses casos. Devemos basear-nos nos dados, nas informações que resultam da Procuradoria… Não sei se pode dizer que a credibilidade política dele está afetada. O que me parece é que o PS não reagiu bem a esses casos.  Quis extrair precipitadamente consequências e o resultado foi o que se viu. Mas talvez se possa dizer que há alguma interrogação sobre o primeiro-ministro. Isso existe, não foi totalmente dissipada, isso é evidente. Pôr em causa a credibilidade política talvez seja forte demais.

Pedro Passos Coelho fez muitas críticas àquilo que disse ser a falta de reformismo deste Governo. Concorda com o antigo primeiro-ministro?
Concordo com a diretriz geral de que não é por causa de o Governo não ter maioria que está dispensado de apresentar reformas e de confrontar a oposição com as suas responsabilidades. Existe o risco sério de as pessoas acharem que se está a seguir uma prática que é de gerir o dia a dia, de ocupar o poder, que no fundo foi a prática que foi seguida por António Costa.

Passos falava na gestão do eleitor-contribuinte.
Várias vezes confrontei com António Costa sobre isso. Governar não é simplesmente ocupar o poder e gerir o dia a dia. Mais: tendo a entender que o eleitorado do PSD é menos tolerante ainda a isso do que o eleitorado do PS. A ideia de que se são necessárias reformas estruturais é uma ideia que está bastante presente no eleitorado do PSD.

Acha que Passos pode estar a ler bem uma eventual impaciência do eleitorado AD.
O governo não está dispensado de apresentar essas reformas. Agora, não sei se isso é uma questão de tática política, se está a ler alguma impaciência, não sei sequer se já há essa impaciência. Mas é bom que passe à prática a tentativa de transformar Portugal, apresentando reformas.

Mesmo que implique acordos com o Chega nessas reformas?
O PSD não deve estar enfeudado ou limitado, seja à esquerda, seja à direita. Pode haver uma geometria variável nesses acordos. Acho que o PSD não deve fazer nenhuma decoração de princípio de que não acorda nada com este ou com aquele. Nunca. As questões devem ser vistas caso a caso. Se o fizer, estará a reforçar indiretamente a reforçar o Chega. Não pode dar-se ao luxo disso. Haverá matérias que podem ser acordadas com o PS e outras com o Chega.

Luís Montenegro esteve bem em desafiar, implicitamente, Pedro Passos Coelho a ir votos em diretas?
Não compreendi bem as razões da antecipação do Congresso e das eleições. Pareceu-me seguir um objetivo sobretudo interno e tático. Não é isso que o país espera neste momento. Poderá dizer-se que denota alguma intranquilidade. Luís Montenegro é bastante hábil taticamente.

Enquanto membro da direção de Rui Rio, sentiu na pele essa habilidade.
Não sei se os militantes apreciaram a conduta dos opositores internos [a Rui Rio]. Como se viu. Mas é consensual que, nesse plano da tática política, Luís Montenegro é muito hábil.  Admito que tenha, por essa razão, achado que era melhor antecipar as eleições internas. Penso que não é isso que o país espera. Ele é primeiro-ministro e é preciso fazer mais alguma coisa.

Acredita o regresso de Pedro Passos Coelho pode mesmo acontecer? Era desejável?
Não sei se quer regressar, não faço antecipações. O país tem um primeiro-ministro e o PSD tem um presidente.

Quer, tal como Pedro Passos Coelho, que Montenegro se concentre em trabalhar.
Acho que isso é o que os portugueses querem. O Governo é minoritário, tem limitações, mas acrescentar a essas limitações uma espécie de diminuição, isso é que não. Não podemos deixar que se crie essa ideia. O PSD não pode deixar que se crie essa ideia. E ela está criada.





Source link

Sobre O Autor

Deixe uma Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress