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A guerra no Oriente Médio, que está longe de uma trégua, tem levado brasileiros que vivem em Portugal a apertar os cintos das finanças. Se, de início, a perspectiva era de que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã teriam vida curta, agora, passadas quase três semanas, o mundo se debate diante da disparada dos preços dos combustíveis, da energia elétrica e mesmo dos alimentos. “Já sentimos o impacto da guerra no nosso bolso”, diz a atriz piauiense Janaína Alves.
Segundo ela, que viveu 16 anos em Cabo Verde e há três mora com a família em Portugal, os efeitos dos conflitos no Oriente Médio em território luso já são constatados nos preços dos combustíveis, que impactam diretamente na vida da população, especialmente para quem precisa usar o carro para trabalhar ou se deslocar em outras atividades. O reajuste dos combustíveis, no entanto, tem efeito multiplicador e acaba contaminando toda a economia, sobretudo, por meio dos fretes das mercadorias.
Arquivo pessoal
Não à toa, acrescenta Janaína, os preços nos supermercados mudaram nos últimos dias para cima. Um exemplo é a cesta básica, que, nesta semana, atingiu o recorde de 254,32 euros, valor 17 euros acima do observado um ano antes. “Por isso, as pessoas estão indo às compras com mais atenção e tentando controla melhor os gastos”, ressalta. Ela reconhece a necessidade de maior cautela com as despesas.
“Há uma consciência de que essas situações internacionais acabam por se refletir no custo de vida. No fundo, o quotidiano continua relativamente normal, mas já com sinais de preocupação e pequenos ajustes, sobretudo ligados aos combustíveis e às compras do dia a dia”, afirma a brasileira.
No colo do consumidor
No caso da motorista de aplicativos Patrícia Pilar, que vive em Portugal há 23 anos, os reflexos da guerra nos preços dos combustíveis são sentidos de uma maneira mais intensa, já que envolve diretamente o trabalho dela. Patrícia, inclusive, montou uma estratégia para consumir o menos possível de gasolina nas corridas, evitando as rotas de trânsito intenso e as horas de pico.
Arquivo pessoal
Em outra frente, Patrícia tenta minimizar os efeitos da guerra sobre uma conta que julga ser a mais impactada neste momento de alta de preços: a do supermercado. “Tudo tem subido e, como tenho um filho desportista de 15 anos, preciso de quantidade e variedade na mesa”, diz. Isso, fora os produtos de limpeza, que também costumam pesar na conta.
Como recebe semanalmente, ela faz as compras no supermercado para durar sete dias e fica atenta às ofertas. “Fico de olho em promoções de produtos que uso bastante, como leite, arroz ou sabão de roupa e amaciante, e faço estoque”, diz.
Para Patrícia, o brasileiro tem um jeitinho especial de lidar com o aperto financeiro, já que o Brasil passou por muita instabilidade financeira e um longo período de hiperinflação. “A gente vai ajustando como dá para que não falte nada em casa. Uma hora é seca, outra, cheias. Veio a Guerra da Ucrânia e, agora, essa. Tudo estoura sempre no colo do consumidor final. Então, temos que nos adaptar”, frisa.
Mudança de hábito
Já temendo a alta dos combustíveis, a consultora de gestão de empresas Suzana Leonardi, que vive há oito anos em Portugal, encheu o tanque do seu veículo. “Abasteci o carro antes do aumento nas bombas e deixei parado. A última vez que eu o usei foi na última terça-feira”, diz a consultora, que mora em Almada.
Ela também acaba de fazer um levantamento entre noves empresas de fornecimento de gás e luz para escolher aquela que tem as menores tarifas. “A nossa conta vai baixar bastante com a mudança que fizemos”, acredita.
No quesito lazer, Suzana fez algumas mudanças de hábito. “Trocamos restaurantes mais caros pelas tascas, que têm ótimo custo benefício. São pitorescas, acessíveis e proporcionam uma boa experiência”. Outra saída encontrada por Suzana para economizar é fazer um belo jantar em casa. “Compramos um bom vinho, e está feito”, afirma.
Arquivo pessoal
Para se divertir, a opção tem sido aproveitar a programação gratuita de museus e afins. “A Casa Fernando Pessoa é incrível e a Gulbenkian no domingo também é uma boa. Lisboa tem uma boa oferta de programas sem custo”, recomenda, lembrando que, para quem transfere dinheiro do Brasil para Portugal, há uma boa notícia decorrente da guerra: o euro perdeu valor em relação ao real, a moeda brasileira.
Mais insegurança
Além da alta dos preços, decorrente do desdobramentos da guerra, um outro fator fala alto quando se trata do conflito: o risco de insegurança na Europa, segundo a publicitária e empresária carioca Thatiana Aquino, que vive em Braga, no Norte de Portugal.
Diz ela: “No dia a dia, o impacto mais imediato é, sem dúvida, o financeiro, pois a inflação silenciosa nos obriga a recalcular rotas, seja ponderando o uso do carro diante da instabilidade dos preços dos combustíveis, seja selecionando melhor os momentos de lazer e idas a restaurantes. Mas não pesa apenas o que sai da carteira. Há uma carga emocional que passamos a carregar. Existe um sentimento latente de insegurança pairando sobre a Europa, uma sensação de que a estabilidade que tanto valorizamos se tornou um castelo de cartas”.
E esse sentimento, complementa Thatiana, transforma muitas coisas, em especial as ações do cotidiano. “Essa percepção de fragilidade muda a nossa forma de encarar o futuro próximo, transformando o que antes era uma rotina tranquila em um exercício diário de resiliência e vigilância”, frisa.
Juros no radar
Para o professor de finanças pessoais Ricardo Rocha, do Insper, a guerra ainda vai se estender por várias semanas, ampliando o impacto negativo na cadeia dos combustíveis, ou seja, mais alta de preços. “E quando os combustíveis ficam mais caros, tudo sobe”, enfatiza. Ele destaca, porém, que parte da população ainda não se deu conta dos problemas criados pela guerra no Oriente Médio, a começar pela alta da inflação.
Ele chama ainda a atenção para a cautela dos Bancos Centrais pelo mundo, que não estão dispostos a reduzir juros neste momento — no Brasil, a taxa básica (Selic) caiu apenas 0,25 ponto percentual na última quarta-feira (18/03), depois de um longo período estabilizada em 15% ao ano. “Isso mostra que o BC brasileiro está muito atento à questão geopolítica”, frisa.
Do lado dos governos, neste momento, a preocupação tem sido a de subsidiar os preços dos combustíveis, contudo, no entender do professor, há limites para isso. “Então, é preciso ficar atento aos desdobramentos da guerra. O Brasil é um exemplo de país que quebrou em 1973 quando houve um choque do petróleo”, lembra. Ninguém, portanto, está imune a uma crise mundial provocada pelos preços dos combustíveis e da energia.

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