Árvores caídas podem tornar as florestas mais resilientes | Opinião


Em 2023, durante a discussão da Lei Europeia de Restauro da Natureza, escrevi aqui no PÚBLICO sobre o papel que a madeira morta por exemplo, de árvores caídas pode ter no restauro da natureza em Portugal, essencial para termos territórios mais resilientes a longo prazo.

A discussão centrou-se no argumento dos incêndios: a ideia de que o aumento indiscriminado de matéria vegetal seria um problema a curto prazo. Nas últimas semanas, após as tempestades que atingiram o país, voltámos a ouvir o mesmo discurso.

Uma das confusões mais frequentes neste debate é tratar todos os “combustíveis florestais” como iguais. O principal problema não são os troncos caídos no chão, mas os materiais finos, como ramos e folhas, que secam rapidamente e potenciam a ignição e propagação dos incêndios juntamente com o crescimento acelerado de matos.

Mas poderão os troncos no chão ser aliados no controlo dos incêndios, que sabemos que vão voltar?

Em Julho de 2023, um relatório da Comissão Europeia resumiu como os incêndios se comportam em florestas primárias cheias de madeira morta. Mais recentemente, novos estudos alicerçam os mesmos resultados: a madeira morta pode ser aliada na gestão e controlo de incêndios.

Troncos caídos ou árvores mortas, sobretudo com diâmetros superiores a dez centímetros, retêm não só mais humidade no solo, como também durante mais tempo. Esta madeira arde, claro, após a passagem da frente de fogos que se originam noutros locais e que ali chegam, alimentados, principalmente, por combustíveis finos.

Pensemos numa fogueira: começamos com ramos finos e secos para iniciar o lume. Só depois colocamos troncos maiores. Se a madeira estiver húmida, dificilmente arde. O mesmo acontece no início dos incêndios florestais.

Entre as principais conclusões destes estudos destacam-se: florestas estruturalmente complexas, com árvores de diferentes idades e madeira morta, são mais resilientes a incêndios e pragas; madeira morta de grande dimensão tem baixa probabilidade de ignição; quanto maior o diâmetro e maior o contacto com o solo, maior a retenção de humidade; materiais lenhosos finos secam mais rapidamente e facilitam a propagação do fogo.

Apesar de tudo, o papel da madeira morta nos incêndios depende do contexto. Em períodos prolongados de seca pode perder a humidade e contribuir para aumentar a energia libertada após a passagem do fogo.

E que outros papéis tem a madeira morta nos nossos ecossistemas e na nossa saúde?

A madeira morta é essencial para cerca de 20–30% das espécies florestais mundiais
Daniel Rocha

A madeira morta é essencial para cerca de 20-30% das espécies florestais mundiais e pode suportar mais de dois terços da biodiversidade das florestas temperadas europeias. Serve de habitat e alimento para aves, morcegos, insetos, fungos e líquenes. Na Europa, cerca de 18% dos escaravelhos associados à madeira morta estão em risco de extinção, sobretudo devido às limpezas florestais.

A madeira morta e sua biodiversidade podem ainda aumentar a produtividade florestal e os benefícios que retiramos da natureza provenientes destes habitats, como a estabilização e resiliência das florestas, a regulação do clima (armazenam cerca de 8% do carbono florestal mundial) e a estabilização dos solos, algo particularmente importante após grandes períodos de muita chuva.

Estudos indicam que florestas resilientes necessitam de pelo menos 10 m3/ha, com valores ótimos entre 20 e 50 m3/ha. As florestas europeias têm em média 11,5 m3 de madeira morta por hectare. Portugal tem apenas 2,3 m3/ha.

O que fazer perante este cenário?

Exigimos frequentemente que proprietários privados limpem os seus terrenos em nome do bem comum. Mas estará a sociedade disposta a compensar esse esforço? O investimento público não deveria alinhar-se com objetivos de longo prazo, em vez de apenas aplicar soluções rápidas?

Remover apenas os materiais finos seria desejável, mas muitas vezes economicamente inviável. A retirada conjunta de madeira fina e grossa permite pagar a intervenção, mas levanta outra questão: se o Governo financia limpezas em terrenos privados, não deveria garantir também benefícios para a sociedade como ecossistemas mais resilientes aos incêndios, que sabemos que voltarão?

As minhas partilhas sobre esta temática: direcionar o investimento público para aumentar a resiliência do território. Para o alcançar, pode e deve testar e implementar projetos baseados nas Soluções de Base Natural, em que o restauro de natureza ajuda na redução de riscos a longo prazo.

Por exemplo: manter áreas com pelo menos 10 m3/ha de madeira morta de grande dimensão afastadas de populações e infraestruturas. Poderá ser concedida uma compensação financeira aos proprietários para intervirem desta forma, em detrimento de se pagar a empresas para retirarem a madeira dos locais.

Há outras soluções. Triturar os materiais finos e espalhar o substrato resultante no local, favorecendo ciclos naturais e regeneração dos solos. Evitar cortes rasos extensivos, que frequentemente aumentam a acumulação de combustíveis finos ao longo do tempo, sobretudo pelo crescimento descontrolado de matos após a intervenção. Manter sombra na floresta é uma das formas mais eficazes de limitar essa vegetação e reduzir o risco de incêndios.

Caso se remova o material lenhoso caído, deve pelo menos proteger-se as árvores que permanecem saudáveis, tanto nas áreas afetadas como no restante território. Reduzir o abate em zonas não atingidas ajuda a equilibrar o mercado da madeira e a manter o setor florestal sustentável após o aumento súbito de oferta provocado por estas tempestades.

Como escrevi em 2023, o problema continua a ser a falta de compreensão sobre o funcionamento dos sistemas naturais. A gestão do risco de incêndio depende sobretudo da estrutura da paisagem, da diversidade de usos do solo e da redução da continuidade do combustível — não da remoção indiscriminada de madeira morta e restante material vegetal dos solos, como se tudo fosse o mesmo. Sem políticas baseadas na ciência e numa visão de longo prazo estaremos condenados a repetir os mesmos erros.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990



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