Quinze minutos, ida e volta: sete euros | Opinião


O leitor pode estranhar o título do artigo. Pense apenas que, para poder circular e chegar de forma recorrente, diária, ao local de trabalho, ao centro desportivo ou recreativo em que faz uma atividade, ou mesmo para ir ao médico ou ao tribunal, tem de pagar 3,50 euros* (ida, ao que acresce outro tanto para voltar) para 15 minutos de percurso. Pense o leitor, por exemplo, residente em Oeiras ou Matosinhos, que para se deslocar para Lisboa ou para o Porto, usando a autoestrada, tem de pagar sete euros (ida e volta) e não, como acontece na ligação pela A5 (Oeiras-Lisboa-Oeiras), pouco mais de um euro ida e volta, tendo outras alternativas.

É precisamente isto que está a acontecer com algumas das organizações empresariais e desportivas do distrito de Leiria, em particular algumas organizações da sociedade civil, que desenvolvem atividades com os mais jovens e menos jovens, que, perante a destruição da tempestade Kristin, estão a utilizar de forma recorrente instalações noutros concelhos, usando, entre outras, inevitavelmente, a autoestrada A8.

Um dos clubes mais relevantes da Marinha Grande, que viu ficar destruídas parte importante das suas infraestruturas, que movimenta mais de 250 atletas, transporta por via rodoviária (não há alternativa) todas as suas equipas, dos diversos escalões, para Leiria, Nazaré, Alcobaça, entre outros concelhos. As alternativas à utilização da autoestrada não existem, ajustando os recursos que têm, considerando que por exemplo a N242 (Marinha Grande-Leiria) se encontra em muitas circunstâncias com um tráfego intenso, para além do evidente mau estado do piso.

Foi dito ao Governo – o PS defendeu – que esta situação de devastação, com impacto muito violento em Leiria, na Marinha Grande, em Pombal, entre outros concelhos, gerou alterações severas à vida das pessoas e das organizações, e que os sobrecustos de mobilidade, em particular durante o período de reconstrução, deviam levar à suspensão, ainda que temporária, das portagens na A8, A17 e A19, com especial foco nos residentes (como aliás acontecerá, por proposta do PS em sede orçamental, no Alentejo a partir de 1 de abril). Não se trata de qualquer favor: é a mais elementar justiça perante os custos da reconstrução e o necessário apoio para que estas populações possam regressar à sua vida do dia a dia. Mas nem isto foi possível.

Ao fim de mais de 50 dias, as pessoas e as empresas continuam sem ver os apoios chegar; sobram as autarquias, que, num esforço único, procuram levar ajuda às situações de maior emergência. Com recursos limitados, sem ajuda e sem apoios financeiros da administração central e com um Governo que, perante a demonstrada insensibilidade e incompetência, não resiste em atirar para os municípios aquilo que não sabe e não consegue resolver, numa reiterada falta de solidariedade institucional, que teve no ministro da Defesa a mais evidente “queda” para a “politiquice” e no ministro da Economia a mais despudorada falta de sentido de Estado.

Para o distrito de Leiria só pedimos justiça e que os habitantes do distrito não sejam tratados como portugueses de segunda. Porque nos últimos 50 dias só a ajuda voluntária e solidária de muitos portugueses – cidadãos e empresas de todo o país – foi capaz de, lado a lado com os autarcas de todos os partidos políticos, mitigar a enorme angústia e dor que Leiria continua a sentir (só telhados serão, numa estimativa prudente, mais de 13 mil).

Nada pior em política do que prometer e fazer de conta que se cumpriu: os cidadãos sabem que não é verdade. E não perdoarão.

*valor da portagem para um autocarro

​Ambos os deputados são eleitos pelo círculo eleitoral de Leiria

Os autores escrevem segundo o acordo ortográfico de 1990 ​



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