A rápida subida dos preços das casas fez com que a prestação mediana aos bancos, pela compra de uma casa (de área também mediana), tenha aumentado em Lisboa de cerca de 900 euros em 2019 para mais de 1.800 em 2023. No Porto, o aumento foi ainda maior, com o valor mediano das prestações a aumentar de 550 euros para 1.339 euros no mesmo período.
Os cálculos são do Banco de Portugal e estão no Boletim Económico trimestral divulgado nesta quarta-feira, um documento extenso no qual o supervisor financeiro, agora liderado por Álvaro Santos Pereira, inclui várias “caixas” com a análise mais aprofundada feita pelo departamento de estudos económicos de certos aspetos da economia portuguesa, como a imigração e o acesso à habitação.
A conclusão do supervisor é que é cada vez mais difícil o acesso à habitação (via crédito bancário) para a família de rendimento mediano, porque os rendimentos têm subido mas o aumento dos preços das casas subiu de forma muito mais rápida, sobretudo nos maiores centros urbanos.
O estudo parte da verificação de que o índice de preços na habitação teve “um aumento significativo na última década (cerca de 140% entre 2016 e 2025)”, o que “veio acentuar a preocupação com a acessibilidade à habitação”, um indicador medido pelo “esforço financeiro de uma família de rendimento mediano pagar a prestação de um empréstimo para a compra de uma casa de dimensão mediana a um preço mediano”.
O indicador calculado pelo Banco de Portugal é uma percentagem que, quando mais baixa, simboliza um acesso mais fácil. “Entre 2009 e 2021, o indicador manteve-se em níveis inferiores a 30%, o que significa que “a prestação de um empréstimo contraído nesse período para a aquisição de uma casa mediana era inferior a 30% do rendimento mediano”.
Porém, “a partir de 2022, observa-se uma deterioração rápida da acessibilidade, com o indicador a atingir 53% no último trimestre de 2023″, salienta o Banco de Portugal. Nos últimos tempos baixou para 48%, mas, ainda assim, como diz o supervisor financeiro, qualquer indicador acima de 40% já corresponde a uma “sobrecarga para uma família de rendimento mediano”.
Quanto mais alto o indicador, mais difícil é o acesso à habitação via crédito. FONTE: Banco de Portugal
O Banco de Portugal, enquadrando, também, elementos como a evolução das taxas de juro e dos rendimentos, nota que “entre o início de 2019 e o final de 2023, o rácio prestação/rendimento duplicou“. “A prestação mensal aumentou de 350 euros para 855 euros, refletindo o aumento do montante do empréstimo – de cerca de 96.800 euros para cerca de 146.400 euros, associado às pressões sobre os preços”.
Porém, o supervisor salienta que “as dificuldades de acesso à habitação não estão distribuídas uniformemente no país”. “Enquanto em 2019 o indicador só ultrapassava o limiar de 40% em 9 municípios, em 2023 encontravam-se nesta situação 104 municípios (num total de 294 para os quais existe informação para o cálculo do indicador)”.
O Banco de Portugal acrescenta que “os municípios do litoral destacam-se pela menor acessibilidade”, sobretudo, “entre os municípios mais populosos, Lisboa e Porto”.
“No primeiro caso [ou seja, em Lisboa], a prestação mensal para comprar uma casa de área mediana aumentou de 907 euros em 2019 para 1.811 euros em 2023, representando uma taxa de esforço teórica de 102% para uma família de rendimento mediano”, salienta o Banco de Portugal.
Já no caso do Porto, “a prestação mensal aumentou de 550 euros em 2019 para 1.339 euros em 2023, correspondendo a 84% do rendimento mediano dos agregados familiares desse município”.
Nestes dois municípios, “apenas os agregados familiares com rendimento acima do percentil 90 e 80, respetivamente, conseguiriam adquirir uma casa mediana a preços medianos mantendo uma prestação inferior a 40% do rendimento”. Ou seja, só aqueles que estão entre os 10% que têm salários mais elevados em Lisboa e 20% no Porto é que conseguiriam comprar casa a crédito.
Refira-se que nalguns municípios do Algarve, tendo em conta a distribuição de rendimentos, a quase totalidade dos agregados familiares residentes não seriam elegíveis para um empréstimo para compra de casa mediana”, acrescenta o Banco de Portugal.
Este é um quadro que, conclui o supervisor, é marcado por uma prevalência de preços demasiado elevados para os rendimentos das famílias locais, implicando que a compra só é acessível para famílias com poupança acumulada ou não residentes no município com rendimentos mais elevados“.
“As famílias têm a opção de arrendar em vez de comprar, mas a evidência aponta para um difícil acesso à habitação também por esta via”, remata o Banco de Portugal.
Álvaro Santos Pereira, na apresentação do estudo, defendeu “fortes investimentos” do Estado e das autarquias” no aumento da habitação pública em Portugal, que é apenas 2% do parque habitacional (onde noutros países é 15%, 20% ou até 30%, referiu). E “é fundamental agilizar os licenciamentos, continuam a aumentar de forma muito lenta“, rematou.

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