O pavilhão da África do Sul na Bienal de Veneza manter-se-á vazio, depois de, em Janeiro, o Governo sul-africano ter cancelado a instalação vídeo escolhida por um comité independente para representar o país e declinado encontrar substituto. Porém, isso não impedirá os visitantes da bienal de ver Elegy, a excluída instalação de Gabrielle Goliath. A partir de 4 de Maio, e durante três meses, a peça criada como lamento fúnebre pelas mulheres mortas em contexto de violência racial ou sexual estará patente na Chiesa di Sant’Antonin, em Veneza, fora do espaço expositivo da bienal, mas nas suas proximidades.
A apresentação em Veneza, à margem da bienal, resulta de contribuições de “uma ampla rede de colaboradores e apoiantes, [tendo sido] viabilizada pelo generoso apoio da Fundação Bertha [sul-africana, de apoio a activistas pelos direitos humanos] e concretizada em parceria com o [centro de artes] Ibraaz”, que acolherá Elegy em Londres, em Outubro, anunciaram os representantes da artista em comunicado, esta quarta-feira.
A abrupta suspensão, em Janeiro, da participação de Gabrielle Goliath, que fora seleccionada por um comité independente, surgiu na sequência das reservas manifestadas, numa carta de Dezembro citada no New York Times, pelo ministro dos Desportos, Artes e Cultura da África do Sul, Gayton McKenzie, que considerou a instalação “extremamente divisiva por natureza e associada a um conflito internacional em curso que é amplamente polarizador”. Fundador da Aliança Patriótica, formação à direita no espectro partidário sul-africano e que integra o governo em coligação com o histórico ANC, entre outras forças políticas, Gayton McKenzie é um apoiante das acções de Israel. Foi do anterior governo sul-africano que partiu no final de 2023 o processo judicial, em curso no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, em que o Estado israelita é acusado de cometer genocídio em Gaza. McKenzie manifestou publicamente a sua discordância.
Em declarações ao PÚBLICO quando foi conhecida o cancelamento da participação de Goliath, a artista portuguesa Ângela Ferreira, que representou Portugal em 2007 na Bienal de Veneza e que também tem nacionalidade sul-africana, considerou a posição do ministro da Cultura “absolutamente ofensiva, inaceitável e contra a Constituição sul-africana, que defende a liberdade de expressão dos artistas”. Não teve dúvidas em classificar a actuação de Gayton McKenzie: “O que o ministro está a fazer é censurar um projecto artístico, ultrapassando o seu papel.”
Para Gabrielle Goliath, que em Fevereiro perdeu um processo judicial contra o ministro da Cultura, em que pedia a anulação da decisão de cancelar a sua presença na bienal, a apresentação de Elegy em Veneza reveste-se de uma importância extrema, dado o “perigoso precedente” que se abriu com o cancelamento. “Deveu-se apenas ao facto de o ministro da Cultura se opor a determinados aspectos da obra e à minha recusa em alterá-la”, declarou ao Guardian.
Nascida como homenagem à estudante universitária Ipeleng Christine Moholane, violada, torturada e assassinada em 2015, Elegy foi-se desenvolvendo ao longo dos anos. Na instalação vídeo que estará em Veneza, os ecrãs mostram sete cantoras que se revezam, sustendo, por tempo prolongado, uma nota apenas, entre o grito e a prece. Elegy atravessa os tempos, projectando-se como alerta e homenagem: as vozes que ouvimos evocam as mulheres dos povos Herero e Nama, habitantes autóctones da Namíbia, da África do Sul e do Botswana, alvo de genocídio por parte da Alemanha colonial, no início do século XX; as mulheres vítimas de violência sexual na África do Sul contemporânea; e Hiba Abu Nada, poeta palestiniana assassinada aos 32 anos, em Khan Younis, num raide aéreo israelita – a instalação inclui um ghazal, forma poética árabe cuja origem remonta ao século VII, em rima com um poema escrito por Hiba Abu Nada dez dias antes da sua morte, intitulado Refúgio.
“Esta exposição convoca um espaço de encontro, uma câmara sagrada onde ressoa uma obra reparadora de amor e saudade”, descreve Gabrielle Goliath no comunicado emitido esta quarta-feira. “Mantemos uma nota — um coro de mulheres negras — e, perante o cancelamento, a ameaça e as perdas incomensuráveis, ousamos pensar e sonhar o mundo de forma diferente.”
A 61.ª Bienal de Veneza será inaugurada a 9 de Maio e prolonga-se até 22 de Novembro. Portugal será representado por Alexandre Estrela. O artista é um dos 183 signatários de uma carta aberta, divulgada na semana passada e promovida pela Aliança Arte Não Genocídio, em que artistas, curadores e trabalhadores da bienal pedem a exclusão de Israel. Os signatários defendem na carta que “a cumplicidade da Bienal de Veneza com a tentativa de destruição da vida palestiniana tem de acabar”.

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