A AIMA lançou uma nova funcionalidade: o portal passou a incluir uma opção específica chamada “autorização de residência com visto consular (altamente qualificado)”, permitindo que os requerentes preencham seus dados pessoais e anexem cópias digitalizadas de passaporte e visto para iniciar o processo de agendamento.

Trata-se de uma tentativa de organizar um fluxo migratório agora prioritário, criando um canal formal para este grupo. No entanto, a medida não resolve de imediato os atrasos nem garante agendamentos rápidos, já que a estrutura de atendimento do órgão continua limitada.

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Acesso à nova funcionalidade é feito pelo site da AIMA

Os profissionais podem acessar essa novidade pelo Formulário de Contato do portal oficial da Agência para Integração, Migração e Asilo (AIMA), onde foi aberto o novo modelo de agendamento exclusivo para esse grupo. É por lá que o imigrante faz o pedido inicial para marcar o atendimento, envia os dados necessários e acompanha o processo.

Esse canal digital é, por enquanto, o único meio disponibilizado para quem chega a Portugal com visto de altamente qualificado e precisa avançar para a etapa de autorização de residência.

O documento faz parte da “plataforma eletrônica em implementação”, segundo a agência, destinada a titulares deste tipo de visto de residência, segundo o regime legal, com a finalidade de tornar o processo mais claro e previsível para esses profissionais e para as empresas que os empregam.

Lista de ocupações altamente qualificadas ainda não foi divulgada

Apesar da novidade implementada pela AIMA, Portugal ainda não publicou uma lista oficial com as profissões consideradas “altamente qualificadas”. Com isso, informações contraditórias entre autoridades têm deixado dúvidas sobre quem se qualifica.

Em declarações recentes, o secretário de Estado Adjunto do Trabalho, Adriano Rafael Moreira, afirmou que essa classificação não se restringe a pessoas com ensino superior ou perfis típicos das chamadas carreiras acadêmicas.

“Eu posso ser serralheiro, soldador, empregado de mesa, seja qual for a minha função, o que estamos a tentar procurar é que essa pessoa se aprofunde em termos de técnica, em termos de conhecimentos para o desenvolvimento dessa função. E daí que eu posso ser um soldador altamente qualificado, eu posso ser um empregado de mesa altamente qualificado”

O secretário acrescentou:

“O que nós precisamos é de cidadãos que venham ensinar-nos funções que desempenham na sua terra e que, por vezes, nós não conhecemos ou que venha desempenhar funções que nós já conhecemos, todos juntos, com um único objetivo que é desenvolver o país, ombro a ombro com os portugueses”

Critérios aplicados ainda favorecem candidatos com diploma superior

A fala do secretário reforça a orientação central de adotar uma definição mais ampla do que é considerado “alta qualificação”. Com isso, o critério deixaria de depender exclusivamente de diplomas formais e passaria a abranger competências práticas, domínio técnico e graus de especialização que possam ser comprovados.

Entretanto, segundo os relatos, os consulados e a AIMA seguem aplicando critérios mais rígidos, focados em educação superior e experiência certificada.

Do ponto de vista jurídico, a Lei de Estrangeiros define “atividade altamente qualificada” de forma ampla, como aquela que exige competências técnicas especiais ou qualificações adequadas, sem listar profissões específicas para vistos de residência.

Por outro lado, regras recentes, como a portaria sobre incentivos fiscais à investigação e inovação, podem indicar uma lista de profissões “altamente qualificadas” usando códigos da Classificação Portuguesa de Profissões (CPP), oferecendo um referencial técnico para a administração mesmo antes da publicação da portaria de imigração.

Emissão de vistos para profissionais qualificados segue suspensa

Mesmo com a criação de um novo formulário online e de uma parte dedicada à gestão de agendamentos, a emissão de vistos para profissionais altamente qualificados em Portugal continua suspensa.

A medida está ligada à Lei dos Estrangeiros (Lei n.º 61/2025), que busca restringir a entrada de trabalhadores não especializados e direcionar o processo a candidatos com competências técnicas específicas.

Formulário da AIMA
Lançamento do formulário promete agilidade, mas ainda gera dúvidas. Foto: site da AIMA

A suspensão decorre da ausência de regulamentação detalhada: ainda não foi publicada a portaria que definirá quais profissões, qualificações e critérios técnicos serão exigidos para se enquadrar como profissional altamente qualificado.

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Sem previsão: portaria e emissão de vistos continuam em espera

Na prática, isso pode manter candidatos e empresas em incerteza, já que mesmo profissionais com experiência ou formação avançada não têm garantia de que serão aceitos nos futuros critérios e não há previsão oficial para a retomada da emissão desses novos vistos.

A AIMA tem reiterado publicamente que pretende eliminar ou reduzir de forma significativa os processos pendentes de regularização até o final de 2025.

Para isso, a agência prevê medidas como o reforço do quadro de pessoal, a digitalização de procedimentos e a realização de mutirões de atendimento, buscando acelerar a tramitação dos pedidos e reduzir o acúmulo de casos em espera.

Relatos e análises mostram desafios desafios na implementação das regras em relação ao objetivo do governo de atrair talentos estratégicos.

Portugal ajusta filtro dos vistos para equilibrar balança entre vagas e profissionais

Portugal decidiu restringir o visto para profissionais altamente qualificados como parte de uma estratégia declarada de alinhamento entre oferta e demanda no mercado de trabalho.

A medida visa concentrar os recursos de imigração em ocupações em que o país enfrenta escassez real de competências, garantindo que os vistos concedidos contribuam efetivamente para o crescimento econômico e para a competitividade de setores estratégicos.

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Nova linha de ação foca em seletividade nas aprovações

Segundo autoridades, a nova abordagem pretende evitar concessões indiscriminadas, que historicamente atraíram trabalhadores fora das áreas prioritárias e direcionar os imigrantes para profissões que realmente preencham lacunas críticas no mercado.

Setores como tecnologia da informação, engenharia, saúde, investigação científica e criatividade cultural são mencionados constantemente como exemplos de áreas com potencial de contribuição significativa.

O contexto político e operacional mostra que Portugal está mudando de um modelo aberto de imigração para um focado em profissionais qualificados com oferta de trabalho formal antes de entrar no país. O fim da manifestação de interesse e a criação do visto de trabalho qualificado refletem essa intenção.

Enquanto a portaria detalhando as qualificações não é publicada, consulados e a AIMA já aplicam filtros considerando alinhados com a meta de atrair menos mão de obra genérica e mais profissionais em áreas relevantes.

Busca por uma política migratória mais coerente

A restrição também representa uma tentativa de racionalizar a política de imigração, equilibrando a necessidade de atrair talento internacional com a pressão por empregos para residentes e a sustentabilidade do sistema de vistos.

Ao mesmo tempo, cria desafios de interpretação e incerteza para profissionais interessados, já que o critério de “altamente qualificado” permanece amplo e flexível, incluindo tanto especialistas com formação superior quanto técnicos ou artesãos com domínio avançado de suas atividades.

Essa política reflete um movimento global observado em diversos países europeus: priorizar a imigração com foco em impacto econômico e alinhamento com competências estratégicas, em vez de manter critérios genéricos e universais.

Brasil chegou a ocupar o primeiro lugar nas solicitações do visto

A mudança ocorre num momento de forte aumento no número de vistos e pedidos de residência. Brasileiros estavam entre os principais solicitantes do visto de procura de trabalho.

Agora substituído por um modelo mais seletivo, o mecanismo passou a atender um público mais restrito, deixando muitos candidatos em espera.

Dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros reforçam que o Brasil é o país com maior demanda por esse tipo de visto em Portugal. Em 2024, a rede consular portuguesa concedeu cerca de 32 mil vistos de trabalho, dos quais aproximadamente 40% foram emitidos para cidadãos brasileiros.

Processos travados, instruções contraditórias e atrasos

O impacto é sentido sobretudo por quem já havia estruturado a mudança para Portugal contando com as regras anteriores. Reportagem do Jornal Público informa que há relatos de processos paralisados, orientações desencontradas e longos atrasos na AIMA, que ainda carrega um passivo significativo herdado do extinto SEF.

Muitos imigrantes relatam sentir a vida “parada”: não conseguem mudar de emprego, alugar casa com segurança, viajar, renovar contratos, acessar serviços públicos ou fazer reagrupamento familiar, porque ainda não têm uma decisão formal.

Brasileiros dizem que já entregaram documentos e fizeram entrevistas na AIMA, mas seguem sem cartão, sem número de processo visível e sem respostas, aumentando a sensação de bloqueio e falta de previsibilidade.

Brasileiro relata dificuldade para avançar com reagrupamento familiar na AIMA

Depois de superar uma série de obstáculos para obter a própria autorização de residência em Portugal, o brasileiro Rodrigo Gonçalves, de 28 anos, relata dificuldades para conseguir uma vaga na AIMA para pedir o reagrupamento familiar da esposa, que permanece no país sem documentos.

Grávida de quase três meses, ela diz evitar sair de casa por medo de abordagens no âmbito das novas ações de fiscalização através da UNEF, a nova polícia de imigração, anunciadas pelo Governo de Luís Montenegro. O pernambucano conta que vive um impasse:

“Nosso medo é de que ela seja deportada, pois não estão se importando se a pessoa está grávida ou se é mãe de filhos menores de idade”.

Objetivo de atrair talentos esbarra na falta de regulamentação

O governo de Portugal vem afirmando categoricamente querer atrair imigrantes e valorizar talento, mas ao restringir o perfil elegível e manter uma estrutura administrativa fragilizada, pode acabar por gerar insegurança jurídica e afastar parte dos candidatos. O país quer profissionais qualificados. A questão é: eles querem vir?

No plano de atividades da AIMA para 2025, aprovado pelo Governo, estão metas claras: atender mais pessoas presencialmente, diminuir a fila de processos, acelerar a renovação de vistos e residências, ampliar os serviços digitais e melhorar o atendimento telefônico da linha AIMA 24.

As declarações políticas, que apresentam o “profissional altamente qualificado” de forma ampla, incluindo ofícios como pedreiros ou empregados de mesa, contrastam com a prática nos consulados e na AIMA, onde prevalecem critérios mais próximos de diploma superior e experiência formal comprovada.

Falta de normas atrasa implementação do novo visto

Profissionais altamente qualificados podem ter prioridade relativa, com novos canais digitais e coordenação com empregadores, mas não há garantia de prazos rápidos ou atendimento uniforme. É importante acompanhar os comunicados da AIMA e, se necessário, buscar apoio de advogados ou associações.

A medida pode até estar em sintonia com tendências europeias de priorizar migração qualificada, mas a ausência de regulamentação e os desafios operacionais da agência de imigração indicam que a implementação efetiva ainda vai depender de ajustes administrativos e legais.

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