O Bangladesh está a enviar forças policiais e paramilitares para a capital, Daca, numa tentativa de reforçar a segurança no país, que vive dias de agitação devido ao assassinato do líder estudantil Sharif Osman Hadi.
Hadi, de 32 anos, era candidato às eleições marcadas para 12 de Fevereiro – que deverão eleger 300 deputados para o Parlamento –, e foi uma figura-chave na revolta liderada por estudantes no ano passado, que culminou na demissão e fuga da ex-primeira-ministra Sheikh Hasina para a Índia. A ex-governante foi condenada à pena de morte pelo que o tribunal considerou uma repressão mortal contra a revolta estudantil, que se insurgia contra as quotas para o recrutamento de funcionários públicos. Hadi era também um crítico vocal da Índia.
Na semana passada, foi baleado por atacantes com a cara tapada quando saía de uma mesquita. Acabou por morrer na quinta-feira à noite, em Singapura, após seis dias ligado a máquinas de suporte de vida.
A sua morte levou à rua milhares de manifestantes que há dois dias exigem a detenção dos atacantes, numa onda de protestos violentos. Foram ateados fogos em diversos edifícios, como as redacções dos jornais Prothom Alo e Daily Star, considerados por alguns críticos como pró-Índia. Zyma Islam, jornalista do Daily Star, escreveu esta quinta-feira no Facebook que estava presa dentro do edifício: “Não consigo respirar, há muito fumo. Estou aqui dentro. Vocês estão a matar-me.” O fogo acabou por ser dominado ao fim da tarde.
A redacção do Daily Star foi incendiada
EPA/MONIRUL ALAM
“As pessoas estão aqui a exigir a detenção dos que mataram Hadi”, disse à AFP um estudante presente nos protestos. “Acima de tudo, quero que os ideais de Hadi vivam.”
Grupos de direitos humanos condenam violência
Mas os frequentes episódios de protestos violentos e as disputas políticas entre grupos díspares têm vindo a comprometer o sentimento nacional de euforia que surgiu após a destituição de Hasina em Agosto de 2024.
Segundo especialistas, o caso expôs também as limitações do governo provisório do Prémio Nobel da Paz Muhammad Yunus, levantando questões sobre a sua capacidade de governação do maior produtor de vestuário do mundo, a seguir à China.
O governo de Yunus, que declarou sábado um dia de luto oficial por Hadi, exortou os cidadãos a resistirem à “violência de grupos marginais”, alertando para o facto de os tumultos ameaçarem a frágil transição democrática do Bangladesh. Num comunicado feito ao país, Yunus considerou a morte de Hadi “uma perda irreparável para a nação”: “A caminhada do país rumo à democracia não pode ser feita no medo, terror ou sangue.”
Manifestantes estão há dois dias em protesto
REUTERS/Mohammad Ponir Hossain
A Human Rights Watch classificou o assassinato de Hadi como um “acto terrível” e instou o governo a agir rapidamente para pôr termo à violência que se abateu sobre o país desde a destituição de Hasina.
Condenou também os ataques aos meios de comunicação social, que considerou um atentado à liberdade de expressão. O Bangladesh ocupa o 149.º lugar entre 180 países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa.
Os grupos de defesa dos direitos humanos alertam para o facto de os repetidos ataques a jornalistas e activistas poderem reduzir ainda mais o espaço cívico antes das eleições.
A Amnistia Internacional apelou a investigações rápidas e independentes sobre o assassinato de Hadi e a violência subsequente, incluindo o incêndio de redacções e o assédio a jornalistas.
A violência já se alastrou para além da capital. Em Chittagong, manifestantes atacaram o Alto Comissariado Adjunto da Índia, reflectindo o crescente sentimento anti-Índia desde que Hasina fugiu para Nova Deli.
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