Menos encarnado do que o SPD, mais cor de laranja. Conhecida como turtleneck nos EUA e Canadá, polo neck ou roll neck no Reino Unido, a gola alta é ainda designada “skivvy” na Austrália. E foi precisamente nos antípodas que passou à história uma campanha de sucesso envolvendo um destes exemplares.

Em 1972, o líder trabalhista australiano Gough Whitlam fez campanha para primeiro-ministro sob o slogan “It’s Time”, um eco do bem sucedido slogan do liberal Robert Menzies de 1949, “It’s Time for a Change”. Pesquisas mostraram que até os eleitores liberais aprovaram o slogan do Labour. “A campanha tornou-se uma das tentativas mais bem sucedidas de persuasão pública na história australiana, com a frase “É hora” permanecendo sinónimo com o partido e Whitlam por décadas. A visão de Whitlam para mudança e igualdade era ampla: igualdade de raça, género, riqueza e oportunidades. Uma vez no governo, Whitlam implementou uma ampla gama de reformas para lidar com a discriminação na educação, direitos das mulheres, saúde e direitos dos povos indígenas.”, lê-se na página do Museu da Democracia Australiana. Em 1975, Whitlam fez história tornando-se o único primeiro-ministro australiano demitido do cargo.

A skivvy que fez parte do merchandising da campanha trabalhista em 1972, na Austrália

É pouco provável que o arrojo de um presidente chegue ao ponto de optar pelo amarelo com que Melania Trump caminhou ao lado do marido, Donald Trump, mas os EUA não escapam ao curriculum político da gola alta. E o caso mais recente de buzz nas redes sociais até envolve o líder atual. Em novembro, Trump usou um cachecol bordeaux colocado de uma forma que desatou comparações imediatas com a gola alta no mesmo tom usada anteriormente pelo recém eleito mayor de Nova-Iorque, Zohran Mamdani.

Se em 2006 a revista McSweeney dedicava um artigo à dimensão do pescoço de Barack Obama, em 13 de setembro de 1980, apenas seis anos depois de ter renunciado como presidente na sequência do escândalo Watergate, Richard Nixon, com uma gola alta sob um blazer, fazia uma competente demonstração de como um ex-presidente desonrado dirige uma campanha de reabilitação de imagem. “Muitos políticos de alto nível vieram a Nantucket desde então, em grande parte para esvaziar os bolsos de doadores ricos em angariações de fundos privados ou para posar para fotos de si mesmos a fazer windsurf em Brant Point (estou a falar de si, John Kerry), mas poucos têm colocado ênfase sobre o desempenho de Nixon”, recordou um então jovem repórter do Nantucket Inquirer, Gary Holmes, que pensava que o republicano se iria esgueirar da população mal pusesse o pé no destino. “O que eu não percebi então, mas aprendi ali, é que as pessoas estão sempre animadas para ver celebridades – mesmo as que caíram em desgraça. Nixon manejou a multidão como um político experiente, apertando as mãos e oferecendo boas conversas. A certa altura passou por um turista num telefone público que gritou que Nixon tinha que dizer ‘olá’ à sua esposa, porque ela não acreditava que ele estava ali. Depois de perguntar o nome da senhora, Nixon pegou no telefone e disse: “Olá, Betty! Quem é esta mulher que está aqui com o seu marido”?” Parecia uma punchline de Bob Hope em pessoa.”

Warren Almand não foi o único a ter um dia de cão em funções. Em outubro de 2025, nem um passo atrás no código de vestuário, no senado do Quénia. O senador Boni Khalwale foi convidado a sair pelo speaker depois de ter aparecido com uma camisola de gola alta grená sob o seu fato, sem gravata à vista. E melhor que uma gola alta só duas golas altas num momento pandam na cúpula de um estado. Em dezembro de 2021, num pequeno insólito na Sérvia, o Presidente Aleksandar Vučić  e a então primeira-ministra Ana Brnabić surgiram em looks quase idênticos, ambos com golas altas escuras, um “fashion faux pas” que viralizou.

Em 2024, o primeiro descendente de albaneses a ser eleito para o parlamento suíço, portador de paralisia cerebral, celebrou com uma publicação em gola alta. “Making History”, escreveu o social democrata fixado em Zurique Islam Alijaj.

Mas quantos candidatos se poderão gabar de aparecer num cartaz de campanha com o pescoço devidamente tapado? Eamon Gilmore é um deles. O diplomata irlandês foi muitas vezes fotografado e conhecido por usar golas altas pretas ou escuras, especialmente durante seu tempo como Tánaiste (vice-chefia do governo) e Ministro dos Negócios Estrangeiros, tornando-o uma assinatura que fazia pontaria a uma imagem séria, intelectual, e às vezes focada na austeridade. Do ponto de vista visual, é um traço memorável da sua liderança no Partido Trabalhista Irlandês e no governo, simbolizando a sua abordagem para questões complexas como a crise financeira. Em 1992, usou-a mesmo numa imagem num poster de campanha.

Com uma história de séculos, a gola alta já protegeu, foi sinónimo de classe, confrontou o status quo e a moral e continua a chamar atenção sempre que um político deixa a gravata em pausa, já que continua a ter um caráter excecional.

Como boa parte das peças de roupa que usamos até hoje, tem antes de mais uma origem utilitária. Muito antes de fatores statement, a sua presença na Europa medieval manifestava-se nas indumentárias usadas pelos cavaleiros, que assim protegiam o pescoço dos ferimentos provocados pelo uso da armadura. A estratificação social consolidou-se em referências como os rufos, esses folhos em altura (por vezes altíssimos) que cumpriam a hierarquização de reis e nobres, posteriormente rendidos, já no século XVII pelos colares isabelinos — qualquer um deles impróprio para trabalhar, claro.

Wikimedia Commons

Retrato de D. Sebastião atribuído a Cristóvão de Morais, que trabalhou na corte em Lisboa entre 1551 e 1573. A pintura faz parte da coleção real britânica e encontra-se em exposição na residência oficial da rainha na Escócia

É já no século XIX que a gola subida se manifesta através da camisola, um peça que começa por ter um uso popular e prático, adotada por marinheiros, mineiros, pescadores, e outras profissões, oferecendo proteção do físico perante condições adversas. Por volta de 1860, ganham espaço no desporto com o conhecido “polo neck”, na versão britânica, que mais uma vez protegia o pescoço, também do sol, uma referência que vai do ciclismo aos courts de ténis. Na arte, uma das primeiras manifestações fixadas através da pintura remonta a 1898, quando o artista alemão Bernhard Pankok surge num autorretrato mostrando-se devoto da gola alta preta, quando tinha 26 anos.

Na II Guerra Mundial entra oficialmente no guarda roupa da marinha norte-americana mas bem antes disso já vários destinos piscatórios, incluindo Portugal, iam escrevendo a história de camisolas que inscreveram o seu nome na posteridade. Se os pescadores das ilhas Aran, na Irlanda, protagonizaram um momento cultural há mais de 150 anos, enquanto se protegiam do vento gélido no mar, por essa altura também a camisola poveira mostrava o que valia. Muitas vezes de gola subida, começou por ser feita na Azurara e em Vila do Conde e bordada na Póvoa pelos velhos pescadores, um testemunho passado por diante a mães, esposas e noivas de quem deixava a terra. Na verdade, as primeiras referências do uso de camisolas de malha em lã natural, proveniente da Serra da Estrela, remontam ainda ao século XVIII. No pós-II Guerra, o interesse pelas criações étnicas garantiu a sobrevivência da poveira enquanto objeto de moda mas foi preciso rebentar uma polémica, em 2021, para voltar às bocas do mundo, e sobretudo do país. A procura disparou quando a designer norte-americana Tory Burch foi acusada de plágio ao pôr à venda, na loja online da sua marca, uma camisola poveira por 695 euros, sem referir a sua origem.

Facebook Camisola Poveira_março 2021 DR/Facebook Camisola Poveira

© Facebook Camisola Poveira

Navegando por águas presidenciais, na campanha às eleições de 18 de janeiro há (pelo menos) dois votos que vão para o uso de gola alta. Fiel ao trajeto submarinista, Henrique Gouveia e Melo costuma combinar os seus blazers assertoados de inspiração militar com uma camisola desta natureza — em 1995, o livro “Revelações” mostrava outro militar, e outrora Presidente da República, fotografado em gola alta a manusear relógios da sua coleção, António Ramalho Eanes.

Para uma entrevista ao Observador, ou para dialogar com jovens no Dia da Democracia, Luís Marques Mendes também lhe tomou o gosto. E já neste mês de dezembro, foi de gola alta escura e blazer cinza que o presidente do grupo parlamentar do PSD, Hugo Soares, desejou que o desfecho das presidenciais permita cumprir o sonho de Francisco Sá Carneiro, que foi ele próprio utilizador da gola alta, dentro de um barco a pescar, ao lado de Snu Abecassis, ou em outras ocasiões.

Em demais palcos, mas igualmente a nível doméstico, podemos sempre recuperar outros looks. Em janeiro de 2024, o então secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, usou uma gola alta no congresso do partido, acentuando a desconstrução da imagem, encetando um novo ciclo, e gerando comparações com outra (agora ex-) líder partidária, Mariana Mortágua.



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