Longe de deteriorar o cérebro, os videojogos podem melhorar as nossas capacidades cognitivas – mas a forma como os jogamos é importante para conseguir esses benefícios. Ao jogar videojogos, “as pessoas estão a praticar habilidades complexas em ambientes simulados”, afirma Aaron Seitz, professor de psicologia e director do Brain Game Center for Mental Fitness and Wellbeing da Northeastern University (EUA). É o contrário do que acontece com os “jogos para o cérebro” ou “quebra-cabeças” tradicionais, que tendem a ser “o mais simples possível”.
Estudos demonstram que, em algumas circunstâncias, jogar videojogos pode ajudar a atrasar o envelhecimento do cérebro.
Outras investigações científicas mostram que jogar videojogos de acção, em particular, pode ser benéfico para diferentes habilidades, como a nossa capacidade de atenção à informação visual e a nossa capacidade de aprendizagem, refere C. Shawn Green, professor de psicologia da Universidade de Wisconsin, em Madison (EUA). A maioria dos jogos para treinar o cérebro ajuda a melhorar apenas uma gama mais restrita de habilidades, directamente relacionadas com o que foi praticado.
Mas os especialistas alertam que é importante não exagerar.
“Não posso dizer que jogar videojogos durante horas e horas e horas seja bom para a saúde do cérebro”, afirma Carlos Coronel, investigador do Trinity College Dublin e da Universidade Adolfo Ibañez, em Santiago, Chile. “É preciso encontrar um equilíbrio.”
Jogos novos podem ajudar o cérebro
O envolvimento cognitivo — incluindo através da educação, palavras cruzadas, treino cerebral e socialização — é bom para a saúde do cérebro. As evidências científicas indicam que talvez possamos juntar os videojogos a esta lista.
Num estudo de 2024 publicado na revista NeuroImage, os investigadores examinaram a conectividade cerebral de 31 pessoas que jogam muito StarCraft II, um jogo de estratégia que exige que os jogadores giram recursos e coordenem grandes exércitos em tempo real.
Quando comparados com 31 não-jogadores, os cérebros dos jogadores de StarCraft II pareciam “mais eficientes no processamento de informações”, com mais conectividade em áreas cerebrais essenciais para a atenção visual e a função executiva, explica Carlos Coronel, o principal autor do estudo.
Num estudo de 2025 publicado na Nature Communications, Coronel e os seus colegas descobriram que, tal como acontece com outras actividades criativas (como música e arte), mais experiência em jogar videojogos estava associada a um envelhecimento cerebral mais lento. Os cérebros de jogadores experientes pareciam cerca de quatro anos mais jovens.
Passatempos criativos, incluindo videojogos, podem ajudar a proteger as conexões neurais que são vulneráveis ao envelhecimento e melhorar a capacidade do cérebro de transmitir e processar informações, disse Coronel.
Mesmo jogar relativamente pouco pode trazer benefícios. Quando Coronel e os seus colegas fizeram com que 24 não jogadores passassem apenas 30 horas a jogar StarCraft II durante três a quatro semanas, a idade cerebral deles diminuiu em comparação com jogadores que aprenderam um jogo mais lento e com regras fixas, chamado Hearthstone.
Quanto mais praticas, mais beneficias, considera Coronel. “Mas também é possível obter benefícios sem ser um especialista.”
Videojogos de acção aceleram a aprendizagem
Para melhorar as nossas capacidades cognitivas, precisamos de as desafiar ou submetê-las a uma carga cognitiva. No entanto, o que conta como carga cognitiva varia de pessoa para pessoa, explica o professor C. Shawn Green.
Muitos jogos para treinar o cérebro e outras actividades estimulantes são vítimas daquilo a que os investigadores apelidam de “maldição da especificidade” — ensinam competências especializadas que não se transferem de forma mais geral para outros domínios cognitivos.
Num estudo de referência, mais antigo, os investigadores descobriram que jogadores de xadrez experientes conseguiam lembrar-se de até quatro vezes mais peças de xadrez do que um principiante, se elas estivessem dispostas como num jogo real. Mas se essas peças fossem colocadas aleatoriamente, a vantagem de memória dos jogadores experientes era apagada, e tinham um desempenho tão mau quanto o dos principiantes.
Mas há um certo género de videojogos pode ser uma excepção intrigante, ainda que a investigação esteja longe de estar concluída: os videojogos de acção, principalmente jogos de tiro em primeira e terceira pessoa, exigem que os jogadores tomem decisões em fracções de segundo em ambientes visuais muitas vezes caóticos.
A investigação científica tem mostrado que esse treino parece valer a pena: estudos sugerem que os jogadores de videojogos de acção têm melhor visão, melhor desempenho em tarefas espaciais e melhor controlo da sua atenção visual. Essa melhor atenção também nos pode ajudar a aprender, consideram Green e seus colegas.
Num estudo publicado na revista Communications Biology, 52 participantes adultos que não jogavam foram postos a jogar ou um videojogo de acção ou um jogo de simulação mais lento. Jogaram 45 horas ao longo de três meses. Em dois testes cognitivos de percepção visual e memória de trabalho — que não estavam relacionados com os jogos em causa —, aqueles que jogaram jogos de acção aprendiam mais rapidamente e também apresentavam melhorias mais rápidas.
No entanto, outros especialistas são cautelosos na interpretação destes resultados. Por um lado, algumas das medidas psicológicas exigem que os participantes respondam a estímulos visuais rápidos — muitas vezes em fracções de segundo.
“Isso pode não se generalizar para outras habilidades que as pessoas empregam no mundo para tipos de estímulos que não são tão rápidos”, refere Aaron Seitz. (Green argumenta que as restrições de tempo se aplicam às tarefas quotidianas. “Quase todas as tarefas que usamos têm algum tipo de limitação espacial ou temporal”, disse.)
Esta área ainda carece de “dados adequados para tirar conclusões sólidas” sobre que intervenções de jogos funcionam melhor para diferentes pessoas com diferentes necessidades, considera Seitz.
Como usar os jogos para melhorar a cognição?
No caso dos videojogos, o tipo de jogo é importante. “Se me dissessem que o meu filho está a comer muito, eu gostaria de saber que tipo de comida está a comer, certo?”, questiona Green.
Procura um envolvimento apaixonado em vez de um jogo patológico, afirma Green. A dependência de videojogos e o jogo patológico é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde, portanto, como em qualquer vício comportamental, a diferença está nos danos: “Está a prejudicar a tua vida de alguma forma?”.
“Experimente as coisas com moderação”, diz o especialista. A maioria dos estudos que apontam benefícios analisou jogos de acção com sessões curtas de 30 minutos ou uma hora, acautela Seitz.
Green diz que tenta fazer com que os seus pais, que estão na casa dos 70 anos, joguem novos jogos online. “Eles ficam irritados porque dizem: ‘Eu já estava a ficar bom nesse’”, conta o professor. “Mas quando começas a ficar bom, não adianta mais. Tens de fazer o que é irritante e difícil. Acho que isso mantém os sistemas cognitivos em bom estado”, afirma.
Alguns jogos de acção populares incluem a série Call of Duty, a série Halo e Quake. Mas para opções que não são tão sangrentas e violentas, existem jogos como Fortnite, Overwatch e a série Splatoon, que envolve lulas a atirarem tinta umas às outras.
Experimenta algumas coisas diferentes e vê se a tua capacidade cognitiva melhora, refere Seitz. Mantém as expectativas realistas — “não sabemos realmente o que funciona para quem, mas há várias coisas que podem resultar”, aponta Seitz. Vale a pena tentar uma combinação de diferentes jogos.
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Equilibra o jogo com outros aspectos da vida
Nenhum truque ou comportamento será uma solução mágica para melhorar a cognição (ou qualquer outro aspecto da saúde). É preciso “ter várias camadas na vida”. Uma dessas camadas pode ser actividades criativas, mas também actividade física, sono e socialização, considera Carlos Coronel. “Um cérebro saudável deve incluir todas essas vertentes.”
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