De forma sorrateira, quase silenciosa e sem anúncio ou aviso prévio, a revolução aí está. Uma nova geração de Vinhos Verdes, secos, estruturados, complexos e longevos, está a tomar conta da região. Sim, há já mesmo um Verde para todas as ocasiões. Esqueçamos os vinhos débeis para consumir logo a seguir à vindima, a efervescência do gás e o tempero da doçura, que esse é um outro compartimento, uma outra escala nos vinhos da região.
Esta é a conclusão que resulta da prova que aqui apresentamos. Tão mais significativa quanto foram apresentados vinhos com diversificados perfis e abordagens enológicas, representando uma variedade alargada de castas e todas as sub-regiões do território dos Vinhos Verdes. E nem só brancos, também tintos recuperando castas antigas e esquecidas, e ultrapassando o monopólio do vinhão, ou com enologia mais arrojada e contemporânea. Notável!
Numa região frequentemente traumatizada com o dilema de uma falsa tipicidade, associada aos vinhos com açúcar residual e adição de gás carbónico, e, por isso, agrilhoada à imagem da menor qualidade e preços baixos, a questão parece subitamente ultrapassada. As novas gerações de produtores têm outra ambição, querem mudar a imagem e criar valor para os Vinhos Verdes.
Esta movimentação aproveita também os ventos de feição, as novas tendências de consumo, que pedem vinhos mais frescos e de menor grau alcoólico, e beneficia das alterações climatéricas que, com a proximidade atlântica, a multiplicidade de cursos de água e o seus vales e encostas verdejantes, colocam a região dos Vinhos Verdes no centro da mudança.
Com a nova enologia regressam também as velhas castas. Um património que tinha sido abandonado pela produção desqualificada, mas que regressa valorizado e potenciado pela intervenção e pelas novas interpretações de enólogos – valorizando também a diversidade de terroirs, uma outra riqueza da região até agora escondida.
Sim, a revolução está aí. Sem drama nem sobressaltos. Cobrindo a região de Norte a Sul e de Este a Oeste, recuperando castas, valorizando o território, acrescentando prestígio e valor. Veja-se não só os produtores de vinhos que se apresentaram a esta prova, como também os artigos das secções protagonista e mesa do produtor.
Todos vinhos com capacidade de atracção para a boa restauração, apreciados pela crítica e por especialistas, e, o mais importante, com valores de venda que em regra mais do que quadruplicam aquele que é ainda o preço médio de mercado dos Vinhos Verdes. E nem só os novos produtores, até mesmo os clássicos com o negócio assente na tal imagem de tipicidade – que, diga-se, são ainda a base do negócio dos Vinhos Verdes – se vão juntando à mudança, oferecendo cada vez mais vinhos de qualidade.
Quase sem darmos por isso, a evolução está mesmo aí. Aproveitando o potencial das castas, a diversidade de terroirs e condições naturais adaptadas às novas tendências, os Vinhos Verdes agigantam-se e pedem lugar nas mesas mais prestigiadas, em paralelo com os grandes vinhos do mundo. Há mesmo um Verde para todas as ocasiões.
Este artigo foi publicado na edição n.º 18 da revista Singular. A Singular é uma revista do PÚBLICO com o apoio da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. A Singular é uma publicação estritamente editorial, concebida, produzida e editada pela redacção do PÚBLICO com total independência e em cumprimento das regras internas para conteúdos apoiados. Pode saber mais sobre a política de conteúdos apoiados do PÚBLICO neste artigo.
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