A cerca de uma semana do arranque oficial da campanha para as presidenciais — que decorrerá entre 4 e 16 de Janeiro —, os candidatos a Belém continuaram, neste sábado, em pré-campanha, a apresentar as suas propostas e a preparar o terreno para as eleições de 18 de Janeiro.
Ventura faz “apelo final” para adiar Conselho de Estado
O candidato a Belém e presidente do Chega, André Ventura, fez um “apelo final” ao Presidente da República para adiar a reunião do Conselho de Estado para a semana seguinte à segunda volta das presidenciais, já que dois dos seus membros — o próprio Ventura e Marques Mendes — são candidatos presidenciais.
Ventura sublinhou que “nenhum plano de paz [para a Ucrânia] foi ainda aprovado, sequer analisado pela Assembleia da República ou pelo Governo de Portugal”, pelo que insistiu no adiamento da reunião para depois da segunda volta das presidenciais, já que a escolha do próximo Presidente da República pode não ficar decidida a 18 de Janeiro. A segunda volta, a realizar-se, será no dia 8 de Fevereiro.
O líder do Chega acusou Marcelo Rebelo de Sousa de marcar uma reunião para o dia 9 de Janeiro para analisar a situação internacional “apenas para interferir e participar nesta campanha eleitoral” e argumentou que “não é desejável, não é aceitável e não é tolerável que assim seja”.
André Ventura defendeu que, caso a reunião se mantenha, os conselheiros de Estado deveriam “analisar o papel que Marcelo Rebelo de Sousa” deixou “ao fim de dez anos de mandato na cena internacional”. Portugal é hoje, afirmou, “um país mais fraco internacionalmente” e com menos “relevo”.
Mendes promete “presidências abertas”
Luís Marques Mendes, candidato apoiado pelo PSD e CDS-PP, anunciou em Macedo de Cavaleiros que, caso seja eleito, irá fazer “presidências abertas por todo o país” e a primeira será em Trás-os-Montes. O candidato, que também fez paragens em Mirandela e Podence, onde esteve com os Caretos, destacou que essa primeira sessão será “subordinada à ideia de desenvolvimento do interior”, com a educação e o emprego como temas em destaque.
Mendes prometeu ainda “dar mais voz à juventude” com a presença de um jovem no Conselho de Estado e criticou os adversários que desvalorizam a ideia. “O que eu quero, ao colocar pela primeira vez em Portugal um jovem no Conselho de Estado, é dar oportunidade à juventude para ter mais voz, mais poder de intervenção, dar melhores condições para, cara a cara com os decisores políticos, falarem do pesadelo da habitação, do drama de todos os anos milhares de jovens irem para o estrangeiro à procura de melhores condições”, afirmou.
O candidato garantiu que será um presidente “agregador”, focado na “coesão nacional”, com “experiência” e “esperança no futuro”, assegurando que não será uma “Rainha de Inglaterra”, procurando “intervenções construtivas”.
Criticando a perda de relevância de organizações internacionais como as Nações Unidas, Marques Mendes alertou para os riscos da “fragilidade política e económica” da Europa e apelou à “estabilidade”, que entende só ser possível com a sua experiência e “capacidade de arbitrar conflitos”.
Gouveia e Melo defende “transparência”
Henrique Gouveia e Melo esteve nos Açores, na vila piscatória de Rabo de Peixe, na Ribeira Grande, na ilha de São Miguel. O candidato, que considera que Luís Marques Mendes não tem esclarecido os portugueses sobre o seu percurso profissional, defendeu a necessidade de “transparência” na vida pública e sustentou que o chefe de Estado deve ser conhecido pelo seu perfil de independência.
E acrescentou: “Nós não estamos a fazer nenhum ataque. Eu, pelo menos, não tenho intenção de fazer nenhum ataque. Só peço transparência, porque é isso que julgo que todo o povo português também quer, saber exactamente o que é que faz, como faz, com quem faz, são coisas normais.”
O militar na reserva destacou a importância do perfil presidencial, incluindo a capacidade de ser exigente com o Governo sem se tornar “uma força de bloqueio” e de “organizar, motivar, juntar e contribuir para o todo nacional em vez de dividir”.
Sobre política internacional, referiu que qualquer decisão ― como um eventual envio de tropas portugueses para uma futura missão de manutenção de paz na Ucrânia ― “requer um grande consenso nacional”. No plano interno, sobre a Lei das Finanças Regionais, disse ser “favorável à maior descentralização possível”.
Seguro vai cultivar “relações adultas entre órgãos de soberania”
Em Lisboa, e apesar da chuva, António José Seguro visitou a feira de Natal Wonderland e considerou que “campanha molhada é campanha abençoada”. Rejeitando comentar a mensagem de Natal do primeiro-ministro, Luís Montenegro, por entender que um Presidente da República “se tiver alguma coisa que dizer ao primeiro-ministro, diz em privado”, o candidato presidencial defendeu que se deve “cultivar relações adultas entre órgãos de soberania”.
Sobre as declarações do antigo presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, que neste sábado, à Rádio Observador, disse que o antigo líder do PS é “quem mais se aproxima” de “preencher requisitos mínimos” como candidato a chefe de Estado, Seguro mostrou-se “muito contente” com os apoios que tem recebido “todos os dias”.
Sobre as críticas que tem feito sobre o acesso à saúde, recusou pronunciar-se sobre a actuação da ministra Ana Paula Martins, mas entende que “é inaceitável que os portugueses tenham que esperar semanas e meses para ter uma consulta, meses e anos para ter uma cirurgia, e durante o fim-de-semana e também neste período de Natal, não sabem se as urgências estão abertas, [se] estão fechadas” ― e rejeitou que este “seja um novo normal”.
Martins critica Marcelo por promulgar lei que é “bar aberto à ilegalidade”
Catarina Martins, candidata apoiada pelo BE, criticou o Presidente da República por ter promulgado, e ficado “em silêncio”, sobre uma alteração legislativa ao Código dos Regimes Contributivos do Sistema Previdencial de Segurança Social, que entra em vigor a 1 de Janeiro de 2026. A também eurodeputada entende que esta mudança “é bar aberto à ilegalidade” dos trabalhadores, permitindo que só sejam declarados à Segurança Social no momento em que começam a trabalhar, prejudicando direitos e trabalhos.
Martins considerou que as eleições presidenciais “são sobre o equilíbrio do Estado de direito democrático” e sobre garantir protecção aos trabalhadores perante leis que, segundo a candidata, foram aprovadas “às escondidas, sem nenhum debate”.
Esta alteração, referiu a candidata, aconteceu quando o primeiro-ministro, Luís Montenegro, fez “um discurso motivacional, a dizer que se as pessoas trabalharem muito, conseguem uma vida melhor”.
Filipe rejeita necessidade de rever Constituição
António Filipe visitou o presépio ao vivo de Priscos, em Braga, e concentrou-se em sublinhar a necessidade de cumprir a Constituição, já que, na sua óptica, há direitos fundamentais nela consagrados “claramente postos em causa” — “A maioria dos portugueses não consegue aceder a uma habitação digna, não pode pagar o arrendamento, não tem dinheiro para comprar uma casa.”
O candidato apoiado pelo PCP apontou ainda para os direitos dos trabalhadores e acesso à saúde como áreas em que a Constituição não tem sido respeitada, criticando o poder económico, que “está claramente a dominar o poder político, ao contrário do que a Constituição determina”.
Filipe apelou a uma campanha em que “não se ultrapassem limites éticos e limites de decência no debate político”. Quanto à mensagem de Natal do primeiro-ministro, voltou a criticá-la, considerando-a um “discurso motivacional sem sentido”.
Deixe uma Resposta