Os hospitais privados estão a aumentar a atividade assistencial em diversas áreas — como consultas, exames, cirurgias — mas também numa outra vertente em que a resposta do SNS tem sido frágil: a área materno-infantil. Entre janeiro e setembro de 2025, os hospitais privados realizaram 10.594 partos, cerca de 18% do total a nível nacional, a uma média de 39 partos por dia. Contudo, na região de Lisboa e Vale do Tejo — onde a falta de médicos obstetras e o encerramento de urgências obstétricas mais se têm feito sentir — o peso dos hospitais privados é muito maior: nesta região, são responsáveis por 31% do total de partos.

Segundo dados enviados ao Observador pelos três maiores grupos privados de saúde (que concentram a esmagadora maioria das maternidades do setor privado), entre janeiro e setembro de 2025 foram realizados 10.594 partos, o que representa 17,6% do total do país. O grupo CUF foi o que mais partos realizou, seguido do grupo Luz Saúde e do grupo Lusíadas Saúde.

Por outro lado, as maternidades do SNS foram responsáveis, no mesmo período, por 49.564 partos.

Partos nos privados de Lisboa aumentaram 20% no primeiro semestre. No público também nasceram mais bebés, mas subida ficou-se pelos 3%

À medida que se agravam as insuficiências do SNS na área materno-infantil, aumenta o número de famílias que opta pelos hospitais privados. Nos primeiros três trimestres de 2025, o número de partos nestas unidades voltou a aumentar. O grupo CUF refere um aumento até setembro para os 3.715 partos, concentrados nas maternidades do Hospital CUF Descobertas (em Lisboa) e do Hospital CUF Porto. A manter-se a tendência, o grupo poderá atingir ao final do ano um número de partos a rondar os cinco mil, o que estabeleceria um novo máximo. Já em 2024, foram feitos na rede CUF 4,6 mil partos, um aumento de 7% em relação ao ano anterior.

Já o grupo Luz Saúde realizou 3.529 partos até setembro, não tendo disponibilizado os dados referentes a 2024. De entre os três principais grupos privados, a Luz Saúde é o que tem a rede mais extensa de maternidades, com cinco unidades: em Lisboa, Vila Real, Guimarães, Póvoa de Varzim e Vila Nova de Gaia. Já o grupo Lusíadas tem registo de 3.350 partos nos primeiros nove meses do ano, o “que se traduz num crescimento de cerca de 10% face ao período homólogo”, refere o gabinete de comunicação.

Entre as cinco maiores maternidades do país, duas são privadas: o Hospital da Luz Lisboa (2.954 partos) e o Hospital Lusíadas Lisboa (2.950). No que diz respeito ao SNS, as duas maiores maternidades públicas são a maternidade da Unidade Local de Saúde de Coimbra, que fez 3.885 partos entre janeiro e setembro de 2025, e a Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, com 2.888 partos no mesmo período, segundo os dados disponíveis no Portal da Transparência do SNS.

Apesar de os grupos privados terem mais maternidades na região norte, é na região de Lisboa e Vale do Tejo (em LVT) que se concentra a grande maioria dos partos realizados pelo setor privado. É também nesta região que se verificam as maiores dificuldades de resposta por parte do SNS na área da Ginecologia/Obstetrícia. A falta de médicos obstetras para preencher as escalas (realidade agravada pelo envelhecimento dos quadros de médicos desta especialidade) tem provocado diversos encerramentos de urgências obstétricas em LVT, particularmente na periferia da capital, sendo a Península de Setúbal a zona mais afetada.

Perante a incerteza na resposta do SNS, há cada vez mais mulheres, particularmente das classes economicamente mais favorecidas, a procurarem partos nos hospitais privados, sublinha o presidente da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia. “Perante a incerteza do SNS, estas mulheres acabam por escolher outra alternativa. Entendem que é melhor ter uma resposta mais segura no privado“, refere Diogo Ayres de Campos, lembrando os constantes constrangimentos na resposta do SNS na margem sul do Tejo e também a norte de Lisboa. Num hospital privado, um parto pode custar entre os três e os nove mil euros, consoante seja parto normal ou cesariana, com ou sem seguro de saúde, mas a procura não pára de aumentar.

Na região de LVT, foram realizados, entre janeiro e setembro, 8.459 partos nos hospitais privados, de acordo com a informação enviada ao Observador pela CUF, Luz e Lusíadas, o que representa cerca de 31% do total de partos nesta região. Em LVT, e no mesmo período, os hospitais do SNS fizeram 19.052 partos.

Perante o aumento dos partos no setor privado, o Observador questionou os três maiores grupos privados de saúde sobre eventuais dificuldades em dar resposta à procura crescente. O grupo CUF refere apenas que “a atividade tem decorrido com normalidade”, enquanto o grupo Lusíadas garante que “ajusta de forma permanente a sua capacidade de resposta, acompanhando a evolução da procura e garantindo que todas as grávidas encontram cuidados seguros, humanizados e de elevada qualidade”. O grupo Luz Saúde não respondeu.



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