Foi graças a ele, chegou a admitir Constança Entrudo, que conseguir sustentar o seu estúdio durante os tempos duros da pandemia de Covid-19. Chegados a 2026, venderam-se mais de 800 unidades do infame naked dress em jacquard, o vestido que apresenta uma imagem em tamanho real da forma feminina, a partir de um calendário com nus que pertencia a um dos trabalhadores da fábrica onde produz. Tornou-se uma inesperada peça icónica, conquistou celebridades como a rapper Sza, e a criação no valor de 325 euros está esgotada. Se a história ficasse por aqui, já seria suficientemente interessante para uma criadora independente, e um país peso pluma no feroz ringue da criação internacional. Mas o enredo conseguiu melhorar quando a designer recebeu um email que tinha em CC Andrew Bolton, o curador chefe do Costume Institute, o departamento do Museu Metropolitan que se dedica à moda. Bolton e a sua equipa detetaram o impacto daquele vestido na cultura popular — replicado por dezenas marcas de fast fashion como a gigante Shein, contrafeito por outras tantas que chegam a imitar a etiqueta de Entrudo — e contactaram a designer. “Abri o email de manhã e até fui confirmar se era mesmo verdade. Era um grande objetivo para mim mas nunca pensei que acontecesse, fiquei mesmo feliz.”
Frente…
Composto por mais de trinta e três mil objetos, que representam sete séculos de roupas e acessórios para homens, mulheres e crianças, desde o século XV até o presente, o acervo da instituição nova-iorquina é um importante arquivo e montra da expressão cultural, social, antropológica associada a cada criação. Por outras palavras, é em momentos de consagração como este que fica ainda mais claro que uma peça de roupa raramente é só uma peça de roupa.
Apesar de os critérios para aderir à coleção permanente do Instituto de Costumes não serem públicos entende-se que há alguns factores decisivos no processo de aquisição, como o significado histórico, o mérito artístico (incluindo a inovação do design ou carácter artesanal), a relevância cultural, o interesse académico (considerando-se peças que oferecem perspectivas únicas sobre história e teoria da moda), o estado de conservação e preservação e ainda o seu alinhamento com o resto da coleção, de forma a garantir a coerência do conjunto. E a primeira interação atalhou logo caminho. “Foi um email muito direto, muito americano. ‘Boa tarde, queremos adquirir esta peça, achamos que é relevante para a moda contemporânea’. A compra é feita à minha empresa, pelo valor nominal. Depois foi precisa muita documentação, para a frente e para trás, certificados de autenticidade, etc.”, explica Entrudo.
…e verso
A presença portuguesa no acervo não é inédita, apesar de à época a dupla nacional Marques’Almeida se apresentar como marca britânica não falta um look inteiro na coleção, botas incluídas. De resto, há diferentes vestígio etnográficos, como um traje regional de 1964, das chinelas ao avental, que chegou a estar exposto numa coleção coletiva, mas dificilmente terá tido esta dimensão — até porque poderá haver mais degraus para trepar, no que a este trompe l’oeil diz respeito.
Desde logo fica em aberto a forte possibilidade de o vestido de Constança Entrudo poder vir a figurar na exposição “Costume Art”, a primeira mostra das novas galerias permanentes do Costume Institute do Met e que dará mote aos looks dos convidados a 4 de maio, o grande dia da Met Gala, combinando peças de vestuário com obras de arte de forma a “revelar a relação inerente entre a roupa e o corpo”, um propósito que em tudo parece tocar na criação de Entrudo. “Espero que faça parte da exposição mas pelo menos já foi oficializada a aquisição para a coleção permanente. Já está com eles.” Outro dos sonhos, seria ver uma criação sua entre os looks da festa. “Estou a tentar muito vestir alguém na Met Gala. Gostava de fazer um tailored dentro do tema do vestido, mas pensar com outras técnicas e silhueta”.
A Met Gala, o evento anual realizado na primeira segunda-feira de maio, é seguramente o momento mais visível e mediático na rotina do Metropolitan, um acontecimento galáctico como hoje o conhecemos graças a Anna Wintour, diretora artística do grupo Condé Nast, diretora da Vogue americana durante mais de três décadas e a coordenadora deste jantar de angariação de fundos desde 1995. Mas a história nos corredores e bastidores é extensa e longínqua.
[O anúncio do tema da exposição de 2026]
As origens do Costume Institute remontam a uma entidade independente formada em 1937 e liderada pela fundadora da Neighborhood Playhouse Irene Lewisohn. Em 1946, com o apoio financeiro da indústria da moda, fundiu-se com o Metropolitan Museum of Art como The Costume Institute, e em 1959 tornou-se um departamento com vertente curatorial.
Figura lendária da moda e juiz de referência nestas matérias, Diana Vreeland foi consultora especial de 1972 até sua morte em 1989, e liderou um conjunto de mostras emblemáticas, incluindo The World of Balenciaga (1973), The Glory of Russian Costume (1976) e Vanity Fair (1977), marcando o padrão para o futuro. No final dessa década, coube a Richard Martin assumir o comando, com o apoio de Harold Koda, e começar um ciclo rotativo de exposições temáticas. Em 2000, depois de ter saído do museu, Koda voltou ao The Met como curador responsável, contratando Andrew Bolton em 2002. Em janeiro de 2016, com a reforma do antecessor, Bolton tomou o leme da curadoria. Na atarefada noite da Met Gala, é possível que o veja a subir os degraus do museu nos seus habituais óculos escuros e num fato impecável, com assinatura do designer e seu companheiro Thom Browne. Enquanto isso, talvez algum convidado de relevo esteja a usar calçado nacional.
[Andrew Bolton com a curadora Monica L. Miller, de volta do tema da edição de 2025 que inspirou a Met Gala, o dandismo negro]
O novo espaço do Costume Institute reabriu em maio de 2014, após uma renovação de dois anos, como o Anna Wintour Costume Center com a exposição Charles James: Beyond Fashion; ou a Galeria Carl e Iris Barrel Apfel para orientar os visitantes para as exposições do Costume Institute. Nos bastidores funciona um laboratório de conservação de trajes de última geração e ainda a The Irene Lewisohn Costume Reference Library, uma das principais bibliotecas de moda do mundo. Em maio de 2026, será a inauguração das Condé M. Nast Galleries, adjacentes ao Great Hall do Met, o ponto alto desta edição.
Para o Metropolitan seguiram dois dos três vestidos trompe l’oeil que Constança produziu, um com mangas e outro sem, ambos originais, num tom rosa clarinho, dos quais sobram apenas alguns tamanhos XL. A boa notícia é que admite que se fabriquem mais. “Há uma possibilidade de haver uma reedição porque foi o nosso best seller de sempre. Esta peça para mim é um fenómeno porque havendo há sempre procura. Todos os dias recebemos emails e mensagens.”
Se em Portugal demorou a atingir alguma popularidade comercial, o mercado dos EUA foi o primeiro onde o vestido viralizou.”É rewarding. É curioso perceber como uma peça se torna viral. Pode parecer que está isolada na coleção mas também reflete o que as pessoas procuram na minha marca e tenho andando a pensar nisso. Ser bold, ser um print, esta ideia da ilusão, é uma peça mais pop e os nossos bestseller são todos assim. Claro que tem uma mensagem maior subentendida, de mostrar o corpo feminino sem censura. Mas sei que o interesse do Met até teve mais a ver com o depois da peça ter sido lançada, todo o fenómeno, o caminho que fez em certas comunidades, o facto de ter sido copiado por mais de 60 marcas de fast fashion.”
Se os vestidos de ilusão ótica foram um sucesso de vendas, para a escala de Entrudo, garante que os originais não se comparam ao número de imitações e contrafações escoadas. Nem à rapidez como muitas dessas marcas perceberam como despistar a censura do Instagram para poderem publicar a imagem de um nu, recorrendo a técnicas de blur e ajustando-se ao mercado num ápice. “Cheguei a ver algumas quando andava em Los Angeles em 2021, com a nossa etiqueta e tudo, tudo falso, mesmo a dizer Satisfaction Garanteed. Um dia gostava de fazer um projeto com isto.”, admite Constança, que tem vindo a comprar ela própria algumas cópias.
[Sza, dos duetos com Rihanna ao uso de um vestido que ajudou a explodir o fenómeno]
Chegados a 2026, é “impressionante” como o corpo feminino continua a suscitar interesse e discussão. “Não inventei nada, a Margiela já tinha feito um vestido nos anos 90, de corpos nus, há o Gaultier no filme do Almodovar com frente e verso, mas não estava na moda. Este vestido também foi muito popular porque revela um corpo mas o tecido em si é uma malha muito grossa. Há essa contradição, que também é parte do segredo.” Com efeito, as ilusões óticas na moda levam um século de atividade. Em 1927, Elsa Schiaparelli estreou-se com a sua coleção Pour le Sport, criando malhas com lenços falsos e arcos drapeados sobre os ombros. Na década de 1950, Hubert de Givenchy convocou desenhos de Manlio Rho para criar lenços pintados como extensões de cabelo. E, sim, na década de 1990, designers inovadores como Martin Margiela (com as suas peças com estampas de cardigans de lã falsa e vestidos listados falsamente enrugados), e as ilustrações de corpo nu de Jean Paul Gaultier, usaram a técnica para reinterpretar e alterar percepções do corpo. Nas coleções que desfilaram em 2025, o regresso manifestou-se na Prada, com Glenn Martens para a Diesel, na Acne Studios, na Balenciaga de Demna, ou nesse regresso ao arquivo de Gaultier, liderado por Duran Lantink.
Em vésperas da mais recente edição da ModaLisboa, no passado mês de outubro, Constança partilhou com o Observador que estava ainda a ultimar todos os detalhes a fim de encaminhar os seus vestidos para os EUA. Primeiro, teve que fazer versões com as medidas dos manequins do Met, conforme pedido. Depois, o processo logístico passou por detalhes como ter a embalagem certa para transportar a peça. “Fizemos uma caixa toda em tecido, tudo direitinho, e despachámos com imenso carinho”. Os trompe l’oeil foram então enviados por correio — e o museu confirmou que chegaram sãos e salvos, contou-nos a designer a partir da Madeira, onde nasceu e onde rumou na passagem de ano.
Entrudo viveu a maior parte da sua vida em Lisboa antes de se mudar para Londres aos 17 anos para estudar arte. Depois de um ano na capital britânica, matriculou-se no programa de Design Têxtil da Central Saint Martins. A abordagem fluída da moda e da arte tem sido aliás um traço distintivo do seu percurso, assumindo-se hoje como uma designer têxtil que se divide entre curtas-metragens, coleções cápsula, fardas para o Bica do Sapato, guarda-roupa de artistas como os Napa, e projetos de interiores para restaurantes como o novo Barbela. No âmbito do calendário da ModaLisboa, onde apresenta desde 2018, tem optado por intervenções fora da habitual passerelle — em março último, a sala estúdio do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian assistiu a uma performance que questionava a noção de triunfo e uma tirania do primeiro lugar que põe o fim último acima do caminho. Já no começo de outubro, mostrou mais uma edição limitada de peças na recente concept store lisboeta Castle HiHIHI.
Constança está em fase de transição no seu atelier, que se irá manter em Campolide
“Se calhar, se eu não estivesse ali na brincadeira, à hora do almoço, com as pessoas com quem faço produção, não teria tido a oportunidade de ter uma peça que sustentou a marca durante a pandemia.”, chegou a confessar ao Observador, admitindo que nunca imaginou o nível de procura por este vestido, uma peça que à partida tinha tudo para não sair do papel, não só por parecer uma peça solta na coleção como pelas baixas expectativas comerciais.” E no entanto, tem tudo a ver com a sua visão de usar o têxtil para perturbar, rir, evocar o prazer ou contar uma história, reivindicando o poder e a afirmação no feminino, já que no fim de contas aquilo plasmado está apenas um corpo.
“Há coisas que eu confesso que espero [que vendam], porque são planeadas, no geral. O que eu faço é com base nas vendas que já fiz, com base no feedback, com base no não sei o quê. E o vestido foi a primeira vez que eu fiz uma coisa que realmente não dava.” Neste caso, até nem fazia grande sentido com a narrativa da coleção outono inverno 2021, mas na fábrica de malhas aplicam essa técnica jacquard onde uma imagem é traduzida exatamente como uma fotografia, e o incentivo da equipa de produção levou-a a seguir em frente e a apostar numa criação que nem todos ousariam vestir em público. “Eu estou constantemente a tentar explorar, mas quando começámos a brincar na fábrica com aqueles tecidos e a tentar fazer alguma coisa com aquilo, acho que nunca imaginámos este resultado. Nem eu, nem o Rogério e a Lúcia, e o José, que são engenheiros da fábrica, em Aveiro. Estou-lhes muito grata.”, recorda Constança, admitindo que cada peça tem uma vida comercial própria que transcende as intenções prévias de quem as cria. “Esforçava-me muito para mostrar os nossos processo mais artesanais mas a verdade é que as coisas não funcionam assim sempre. Hoje aceito bem a popularidade desta peça. Conseguimos vender na SSENSE e em outras lojas. Teres muitas pessoas a usar uma peça faz com que muitas outras a queiram usar e isso para mim era uma lógica que não tinha pensado. Como consumidora não penso assim, fora seguir o armário da Miuccia Prada religiosamente.”
2026 tem tudo para ser um ano de expansão reforçada. O novo ano verá em evidência o AD HOC, um projeto têxtil colaborativo, desenvolvido entre França e Portuga, que explora a relação entre têxtil, corpo e espaço através de um diálogo entre dois práticas complementares: os têxteis artesanais de Marie Hazard em Paris, e o vestuário escultural e experimental de Constança Entrudo a partir de Lisboa. AD HOC irá culminar em 30 obras têxteis únicas vestíveis e duas instalações tecidas em grande escala que investigar o diálogo entre corpo, têxtil e espaço. A instalação principal será animada por performers, cada um usando uma das obras têxteis, enquanto um rack de vestuário central vai convidar os visitantes para experimentarem algumas peças selecionadas. Dez obras esculturais adicionais serão suspensas do teto ou dispostas no chão, completando um ambiente imersivo que incentiva os espectadores a sentir os têxteis. Iniciado com o apoio do Estúdio 2M, o projeto será apresentado em maio em Nova Iorque, e no Museu de Arte Moderna da Gulbenkian em 2026/2027. “É interessante co-criar, e pensar num projeto que não tem o meu nome.”
Na agenda, já na segunda metade do ano, está ainda prevista uma residência em Xangai, no centro de artes Cheruby. Mas por agora, é tempo de se instalar no novo atelier, em frente do anterior, em Campolide. “Estamos em mudanças há meses mas finalmente já podemos fazer a escritura. Comprámos o espaço. Sempre gostei daquele sítio. Já está.”
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