Chiavari, 40 quilómetros a sudoeste de Génova, “escondida” entre destinos globais como Portofino e as Cinque Terre, foi a cidade que escolhemos para conhecer a Ligúria italiana. Em boa hora! Neste final de Outubro, não ia para a praia, mas o tempo estava solarengo e turistas como nós, foram raros os que connosco se cruzaram.
Passeando descontraidamente pelo Borgolungo, ruas, vielas e praças deste singular centro histórico, o que salta à vista são as arcadas, imagem de marca da cidade. Umas com séculos, outras menos, são quilómetros. Algumas mais recentes e com estilo diferente alargam-se para fora do centro histórico. Mas não se pense que as suas desgastadas colunas e o pavimento com figuras geométricas, coloridas, estão ali para deleite dos turistas. São espaços de uso diário, repletos de casas comerciais de várias épocas e das mais diversas actividades, também cafés, restaurantes, tascas, farmácias, e até uma escola. Tudo nas arcadas.
No fim-de-semana, mercados ambulantes — em dias diferentes, de roupa, produtos biológicos, produtos agrícolas, enchidos e queijos, incluídos. Desde manhã cedo até já depois de a noite cair. Louvável a limpeza. Os funcionários lá estavam, à espera do encerramento para iniciar o seu trabalho. Do mesmo modo, a um domingo, junto à costa ao longo da enorme Corso Valparaíso, homens e máquinas mantinham vazios os caixotes do lixo.
Apetecia continuar a descrever tudo o que ali ainda resiste sem fotografias nos menus, as igrejas — e a catedral — abertas e sem pagamento para entrar, o enorme parque de estacionamento junto à marina — a menos de dez minutos a pé do centro — onde havia sempre lugar free para o carro, as pizzas mais baratas que em Portugal, a simpatia, mesmo a alegria de quem nos atende, enfim, uma cidade normal, vida própria e pujante.
Dia de mercado na Piazza Mazzini, junto ao antigo tribunal, decorre durante todo o dia, desde bem cedo até à noite DR
Saímos do Loft Garibaldi, impecável, também aqui acertei, nem sempre acontece, só posso agradecer ao nosso anfitrião, Pier Podestà, a simpatia e vou andando até à beira-mar. Cristóvão Colombo — melhor, a imponente estátua oferecida por Mario Ravenna em 1935, à sua cidade e da qual se tornou o maior mecenas com fortuna feita na América do Sul —, olha desafiador para o Golfo do Tigullio, as águas, apesar do sol, estão agitadas.
O passeio até ao extremo nordeste da cidade é muito agradável, termina onde em 1935 encerraram os Estaleiros Navais Gotuzzo, hoje esplanadas que dão apoio às praias (de pedras) que no Verão estão cheias. Mesmo agora alguns fãs apanham sol e dão um mergulho. Disseram que estava boa a água!
O Grande Hotel Torre Farra e em fundo, a meia encosta, o Santuário de Nostra Signora delle Grazie de onde se tem umas das melhores vistas da cidade
Olhando para a encosta junto ao mar, a fazer lembrar a Arrábida, ainda antes de colocar o olhar na mancha verde onde se destaca o Santuário de Nossa Senhora da Graça, está o imponente Grande Hotel Torre Fara, um dos ícones da cidade. Em estilo racionalista, foi terminado em 1935 para Albergue da Juventude. Transformado em hospital militar durante a Segunda Guerra Mundial voltou a ser albergue e depois, abandonado. Anos e anos em ruína, foi totalmente recuperado, transformado em hotel, está novo. Come-se muito bem no Lounge & Bistrot do rés-do-chão e foi graças à simpatia de Melissa que pudemos depois visitar algumas dependências do magnífico edifício.
Muito fica por dizer de Chiavari, até me esqueci que também fomos a Portofino, lá está, igualzinho ao que vemos no Instagram e depois, a Monterosso al Mare e a Vernazza, duas das Cinque Terre. Bonitas sem dúvida, mas — mesmo nesta época — os turistas chegam aos magotes, em Vernazza os comboios impressionavam de superlotados, e, para além de lojas de recordações, restaurantes, geladarias, o melhor que se consegue é um intervalo entre dois como nós, para tirar uma fotografia com coloridas antigas casas dos pescadores em pano de fundo. Já a Chiavari, gostava de voltar, sem dúvida alguma… Antes que seja tarde.
Miguel Silva Machado (texto e fotos)
A catedral de Nostra Signora dell’Orto – Nossa Senhora do Jardim – com arquitectura pouco usual que faz lembrar um templo romano
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