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Nascida em Angola e desde os 13 anos morando em Portugal, a empresária Marianela Mirpuri, fundadora e CEO da Hera — Associação para o Empoderamento da Mulher e da empresa Good Bottle, vê com ressalvas a política imigratória adotada pelo Governo de Luís Montenegro. “Não é o caso de se fechar portas, mas de integrar”, diz. Para ela, não se pode transformar os imigrantes em inimigos e culpá-los pelas falhas estruturais do Estado. “Temos de lembrar que, por trás de cada imigrante, há famílias em busca de uma vida melhor. O ser humano deve ter a sua dignidade respeitada, e o Estado tem as suas responsabilidades”, ressalta.

Marianela afirma ser a favor de uma imigração regulada, mas, no entender dela, a regulação deve ser acompanhada de programas de integração e de acesso a serviços básicos e à documentação para que os imigrantes possam trabalhar legalmente e contribuir com o país. “Portugal necessita de imigrantes. Muitos setores da economia portuguesa dependem da mão de obra estrangeira, sobretudo os da construção civil, de hotelaria e de restaurantes. Tem que haver integração e formação. Quando isso não acontece, está tudo errado”, enfatiza.

Segundo a empresária, a imigração precisa ser sustentada, com programas que estimulem os imigrantes a permanecerem em Portugal e não que o país seja apenas uma rota de passagem, em que, depois de obterem a autorização de residência, eles se dirijam para outras localidades da União Europeia atrás de salários melhores. Esse roteiro de evasão de mão de obra, lembra ela, já é seguido por muitos jovens portugueses, que se formam, mas preferem trabalhar em outros países do bloco europeu devido às baixas remunerações pagas em Portugal.



Mais de 1,5 milhão de imigrantes vivem legalmente em Portugal, o correspondente a 15% da população total do país
Rui Gaudêncio

Pelos cálculos da Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA), há hoje mais de 1,5 milhão de imigrantes vivendo legalmente em Portugal, o correspondente a 15% da população total. Os trabalhadores estrangeiros já representam 24% daqueles que estão formalizados e contribuem mensalmente com a Segurança Social e para o crescimento econômico do país. “Portugal é um país de imigrantes”, assinala Marianela.

Apoio às mulheres

A empresária conta que muito dos movimentos migratórios pelo mundo decorrem das precárias condições de vida. Por meio da fundação e da empresa que ela dirige, está desenvolvendo programas em países da África para combater a pobreza extrema e ajudar a fixar as pessoas nos locais em que moram. O trabalho é feito exclusivamente com mulheres, que, pelas tradições locais, são as principais provedoras das casas. “São elas que vão para o plantio carregando os filhos nas costas amarrados em um pano”, frisa.

Os programas começaram pelo Quênia, onde centenas de mulheres são apoiadas para o plantio de mandioca, uma das bases para a produção de biopolímeros, matéria-prima usada na fabricação de produtos que substituem o plástico. “Os resultados têm sido tão bons, que fomos convidados para estender nossos programas para a Costa do Marfim, onde a meta é envolver 1 milhão de mulheres”, destaca. “Quando as mulheres se desenvolvem economicamente, elas ajudam as famílias e evitam o êxodo das comunidades em que vivem”, afirma.

As mulheres, por sinal, estão no centro de todos os projetos desenvolvidos pela Hera e pela Good Bottle. “As mulheres são nossas prioridades. E é inaceitável que, em pleno Século XXI, ainda estejamos discutindo a igualdade de gêneros e a necessidade de empoderar as mulheres para que elas sejam reconhecidas”, diz. Ela lembra que, apesar de ser uma executiva muito bem-sucedida, enfrentou preconceitos apenas por ser mulher. “Ouvi coisas terríveis ao longo da minha carreira profissional”, sublinha.

Marianela ressalta que, mesmo estando envolvida com temas sociais, como o apoio a pessoas sem-teto, ela só despertou para a real condição das mulheres em 2000. “Me dei conta, naquele período, que eu era a única mulher ocupando o cargo de presidente de uma empresa de aviação no mundo. Isso me fez pensar sobre o porquê daquela realidade e sobre o papel das mulheres na nossa sociedade”, comenta. A partir dali, tornou-se uma defensora ferrenha dos direitos das mulheres.



Uma enchente sem precedentes devastou o estado do Rio Grande do Sul em 2024: efeito das mudanças climáticas
Diego Vara/ Reuters

Sustentabilidade e retrocessos

O empenho em garantir o protagonismo das mulheres levou a empresária a lançar, em 2019, um projeto para a construção de uma cidade totalmente planejada, que foi desenvolvido por um arquiteto francês. Mas ela queria um local especial e, para isso, rodou o mundo. Acabou optando pelo Marrocos, por ficar próximo da Europa e da África. “Temos investidores comprometidos e um terreno de 10 mil hectares reservado. Porém, com todas as mudanças ocorridas nos últimos anos para pior no mundo, após a pandemia [do novo coronavírus], vamos ajustar o projeto”, afirma.

Marianela não esconde a preocupação com o que define como retrocessos. “Temos hoje, espalhados pelo mundo, ao menos 46 guerras”, frisa. E, no comando dos Estados Unidos, um presidente — Donald Trump — que representa o atraso, reconhece. Quando se refere ao líder norte-americano, que ordenou uma invasão à Venezuela para retirar do poder o presidente do país, o ditador Nicolás Maduro —, a empresária se concentra, principalmente, nas posições dele em relação às mulheres e ao meio ambiente.

Trump retirou os Estados Unidos do Acordo do Clima de Paris e ressuscitou os canudos de plásticos, um baque para a sustentabilidade do planeta, além de combater políticas de igualdade de gêneros.

Plástico, um veneno

A executiva classifica o plástico como um veneno para a humanidade, que o consome da hora que se levanta da cama até se deitar novamente. “Estamos, por meio da Good Bottle, dando uma opção aos consumidores. Em vez de garrafas e copos de plásticos, oferecemos produtos biodegradáveis. Para isso, entramos em segmentos como o de eventos, em que o plástico é dominante. Também temos fechado parcerias com universidades para a substituição do plástico”, destaca.

Para Marianela, ainda é possível salvar o planeta, mas é preciso ir muito além do que está sendo feito hoje. “Muitas pessoas que falam sobre sustentabilidade sequer sabem o que a palavra representa. Para qualquer projeto ser sustentável é preciso que esteja baseado em três pilares: ambiental, social e econômico. Sem considerar esses três pontos, tudo será muito bonito, mas sem qualquer efeito prático”, avisa.

Ela acredita que o mundo já está sofrendo as consequências do descaso com as mudanças climáticas por meio de eventos extremos cada vez mais frequentes. “É o que chamo de efeito bumerangue. Tudo o que de ruim se faz para o meio ambiente nos impacta negativamente”, sentencia.

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