Após dez anos enquanto Chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa chega ao fim do seu mandato presidencial proferindo o derradeiro discurso de Ano Novo, curto e aparentemente enxuto.

Embora tenha sido um discurso breve, as opiniões e reações não foram tão enxutas quanto as curtas laudas que o Presidente endereçou aos portugueses. Marcelo desejou e pediu mais educação e habitação e saúde e tolerância; desejou um bom ano a todos os queridos compatriotas, não fugindo, assim, ao seu perfil de proximidade e afeto com todos os cidadãos.

O Presidente da República usou um terço do seu discurso para citar – veja-se o atrevimento – o desenlace de A Ilustre Casa de Ramires, um dos mais densos e complexos romances de Eça de Queirós. E foi por conta da leitura de uma obra literária e do recurso ao exemplo da literatura que o enxuto rapidamente se transformou numa enxurrada de comentários, opiniões e reações, sendo, de resto, este texto, um exemplo mais de toda essa hermenêutica.

As opiniões divergiram – como diverge a crítica queirosiana. Houve, por um lado, quem visse no gesto de Marcelo uma ligeira alfinetada ao atual governo e ao estado do país; outros, por seu turno, não viram absolutamente nada, julgando a referência curta e neutra, não havendo nada a retirar da mensagem; outros ainda acreditam que foi uma descontextualização desnecessária da obra.

Importa salientar que todos os comentários consideram a citação do nosso Zé Maria. Parece ter-se criado uma contenda em torno das interpretações da mensagem do Presidente da República, tudo isto porque ele citou Eça de Queirós. E por isso, afirma Sebastião Bugalho, ao citar “um ficcionista”, Marcelo não diz nada, uma vez que a ficção, continua o eurodeputado, “não é verdadeira”. Dito isto, remata, não “vi nada de plausível e de concreto”.

Eça é um dos maiores escritores da literatura universal, um diplomata culto, viajado e atento ao mundo. A “mera ficção” de Eça é tão poderosa que permanece atual e pertinente.

A reação de Bugalho e todas as outras opiniões ao discurso de Marcelo justificam, por si só, a urgência da leitura de Eça de Queirós – artista que soube autopsiar e psicanalisar o nosso país em todas as suas virtudes e defeitos –, visto que teimamos em permanecer reféns da sua escrita. O atrevimento foi tal que as reações também vieram do mundo académico.

A hermenêutica do discurso não ficou por aí, uma vez que Carlos Reis – para além de não gostar da referência ao escritor feita pelo chefe de Estado –, julgou “desnecessário o aproveitamento da fala de uma personagem de Eça de Queirós na guerra com o Governo”.

Mais do que uma “guerra com o Governo”, parece-me que Marcelo vai mais longe e mais fundo. A ambiguidade do final de A Ilustre Casa de Ramires, que causa no leitor reações ambivalentes e paradoxais – por sabermos tratar-se de Portugal, o nosso país –, ora de desencanto e ironia, ora de decadência e de bonomia e até de afastamento e de aproximação crítica, fazem do último discurso do Presidente da República um ato do Marcelo que conhecemos e um ato de patriotismo, do “nobre patriotismo dos patriotas”. Marcelo sabe e conhece os defeitos da nossa classe política, tem consciência dos perigos dos novos “patriotarrecas”, vício que se instalou nas democracias ocidentais. O Presidente da República a todos avisa – aos socialistas que estiveram no poder oito dos seus dez anos enquanto Chefe de Estado e aos sociais-democratas que governam desde 2024.

Porém, no meio de todo esse desencanto e decadência que causam fortes amargos de boca, Marcelo tem esperança nos portugueses, nas nossas “qualidades e coragem excecionais, que, de longe, superam os defeitos.”

Assim, ao invés de revelar “uma espécie de aproximação um pouco apressada de um grande romance”, como escreveu Reis, o último discurso de Ano Novo do Presidente da República revela um conhecimento aturado e profundo do país de que teve a honra de ser Chefe de Estado, país que teima em não sair das páginas do magno romancista que é de todos os leitores, críticos e não críticos. Que o discurso do Presidente sirva para lermos mais Literatura, ferramenta indispensável para compreendermos melhor o nosso país e o mundo. Vamos ter saudades de Marcelo.

Deixe uma Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress