O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou esta segunda-feira, o Irão a respeitar o direito ao protesto pacífico, após várias pessoas terem sido mortas nas manifestações que duram há mais de uma semana, adiantou o seu porta-voz.

António Guterres “sublinha a necessidade de evitar mais vítimas” e “apela também às autoridades para que respeitem a liberdade de expressão, o direito de associação e o direito à reunião pacífica”, destacou Stéphane Dujarric, em declarações aos jornalistas.

“Todos os indivíduos devem ter permissão para se manifestar pacificamente e expressar as suas queixas”, acrescentou o porta-voz do diplomata português.

As autoridades iranianas insistiram esta segunda-feira que não vão mostrar “qualquer clemência” para com os “manifestantes violentos”, no nono dia de protestos.

Os protestos começaram em 28 de dezembro em Teerão, inicialmente liderados por comerciantes devido ao elevado custo de vida, antes de se espalharem por 23 das 31 províncias do país, com reivindicações cada vez mais políticas.

Afetaram ou estão a afetar pelo menos 45 cidades, principalmente cidades de pequena e média dimensão, localizadas principalmente no oeste do país, de acordo com uma contagem da agência France-Presse (AFP) baseada em comunicados oficiais e relatos dos meios de comunicação social.

Polícias e militares de intervenção foram, esta segunda-feira, mobilizados nos principais cruzamentos de Teerão, observou um correspondente da AFP.

Os polícias também estiveram presentes em frente a algumas escolas, enquanto várias universidades oferecem agora apenas aulas online.

A maioria dos estabelecimentos comerciais, no entanto, estava aberta na segunda-feira na capital.

Pelo menos 12 pessoas foram mortas desde o início dos protestos em confrontos localizados, incluindo membros das forças de segurança, segundo uma contagem da AFP baseada em comunicados oficiais e relatos dos meios de comunicação social.

O chefe do poder judicial no Irão, Gholamhossein Mohseni Ejei, exigiu, esta segunda-feira, que seja cumprida a lei, mas, em consonância com a posição adotada pelo Governo desde o início do movimento, reconheceu o direito legítimo de manifestação por reivindicações económicas.

“A República Islâmica ouve os manifestantes (…) e distingue entre eles e os arruaceiros violentos”, acrescentou.

Teerão acusou ainda esta segunda-feira Israel de tentar “minar a unidade nacional” após o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ter declarado, no domingo, a sua “solidariedade com a luta” do povo iraniano.

A agência de notícias iraniana Fars noticiou, esta segunda-feira, que “a tendência observada na noite de domingo foi uma diminuição assinalável no número de manifestações e na sua abrangência geográfica”.

As autoridades e os meios de comunicação iranianos nem sempre relatam todos os incidentes de forma detalhada.

Os vídeos das manifestações inundam as redes sociais, mas nem todos podem ser autenticados.

No domingo, as autoridades anunciaram um auxílio mensal de 10 milhões de riais (aproximadamente seis euros) por pessoa, durante quatro meses, para “reduzir a pressão económica sobre a população”.

Os 86 milhões de iranianos sofrem há anos com a hiperinflação de dois dígitos num país sobrecarregado por sanções internacionais relacionadas com o seu programa nuclear.

O salário médio é de aproximadamente 170 euros mensais, e o salário mínimo ronda os 85 euros.

O movimento de protesto ainda não atingiu a mesma escala do que foi desencadeado no final de 2022 pela morte sob custódia de Mahsa Amini, presa por violar o rígido código de vestuário feminino.

Em 2019, os protestos fizeram também dezenas de mortos no Irão após o anúncio de um aumento acentuado dos preços da gasolina.



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