A 2 de Setembro do verão passado, durante o Festival de Veneza, encontrei uma vez mais Jim Jarmusch, num início de tarde chuvoso no Lido, para uma entrevista em torno de Pai Mãe Irmã Irmão, que chegou esta quinta-feira, 8 de janeiro, às salas nacionais, com distribuição da NOS. Como então se escreveu, o filme é formado por três histórias de relações entre pais e filhos, com velhos parceiros no crime e algumas caras novas em elenco notável: Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Cate Blanchett e Charlotte Rampling, entre outros.

O primeiro capítulo foi rodado no nordeste americano. Adam Driver e Mayim Bialik são irmãos e vão visitar o pai, Tom Waits, em zona remota da Nova Jérsia. No segundo movimento, as irmãs Cate Blanchett e Vicky Krieps juntam-se em Dublin numa “tea party” que se tornou hábito anual familiar, em visita à mãe que também vive sozinha, Charlotte Rampling. Por fim, em Paris, Luka Sabbat e Indya Moore entram no apartamento já devoluto dos pais que perderam e recordam-nos. São histórias independentes, mas que se entrelaçam num déjà vu de pequenas casualidades. Há muito que o cinema de Jim Jarmusch faz a corte a estes efeitos.

Foi praticamente impossível não chamar a experiência de Jim em torno do assunto, ele que, aos 17 anos, chegou a Nova Iorque, deixando para trás Akron, Ohio, nos arrabaldes de Cleveland (em que ele filmaria mais tarde Stranger Than Paradise/Para Além do Paraíso). O pai trabalhava na fábrica de pneus da Goodyear. A mãe era crítica de cinema de um jornal local e jamais esqueceu que, certo dia, conseguiu entrevistar Humphrey Bogart. Foi a mãe que empurrou o jovem Jim para a literatura e, por causa dela, formou-se ele, de facto, em Letras, antes de uma viagem à Paris que tanto ama e onde descobriu a Cinemateca Francesa. Quando regressou à cena musical do Lower East Side nova-iorquino para formar uma banda, estava a década de 70 a acabar, o seu grupo de amigos gravitava em torno do CBGB. Chamaram-no então para segundo assistente de Lightning Over Water, que seria o último filme de Nicholas Ray, coassinado com Wim Wenders. Por causa da experiência, tornar-se-ía Jarmusch cineasta.

Antes da privilegiada conversa veneziana de Setembro, confessou Jim ao escriba lisboeta que acabara de estar no Porto, pela primeira vez, e que ficou maravilhado “porque o Porto é lindo!”. Deste lado, já se sabia o motivo da visita: a companheira de quase toda a vida do cineasta, a também cineasta Sara Driver, prepara a rodagem de um novo filme em Portugal, co-produzido pela Bando à Parte, de Rodrigo Areias, sediada em Guimarães — e para que se conte tudo ao leitor do Observador, fique-se a saber que Jim e Sara voltarão a pisar solo luso este sábado, para os últimos acertos de pré-produção. Prevê-se que a rodagem arranque em fevereiro.

Para já, estacionemos no filme novo que teve episódio de apresentação atribulado, também abordado na conversa mais à frente. É que Jarmusch é um “filho legítimo” de Cannes (foi oito vezes chamado à competição pela Palma de Ouro!), o festival francês lançou ao mundo praticamente toda a sua obra. Mas não é que hesitou e torceu o nariz a esta? O cineasta esperou até ao limite. E, bruscamente no verão passado (que Mankiewicz nos perdoe o roubo do título), lá rumou então a Veneza, onde apresentara uma vez só, em anos idos e fora de concurso, o seu Café e Cigarros, de 1993. Face ao gravador que coloquei à sua frente, estava então Jarmusch longíssimo de pensar que, dias depois, venceria em Veneza um dos prémios mais significativos do seu percurso internacional, nada menos que o Leão de Ouro de 2025.

[o trailer de “Pai Mãe Irmã Irmão”:]

Pai Mãe Irmã Irmão é um filme repleto de private jokes, déjà vus e expressões ideomáticas que, de filme a filme, têm vindo a tornar-se características recorrentes do seu trabalho. Uma dessas “marcas de água”, ouvida nas três histórias, está associada a um relógio Rolex. Onde está o seu?
Não uso um Rolex! É simples. A história dos relógios no filme é uma daquelas coisas que me divertem, um padrão, um motivo recorrente. Esta do Rolex… nem sei bem de onde apareceu. Mas uma coisa lhe digo: um grande amigo que já morreu, Louis Sarno [1954-2017], musicólogo que viveu muitos anos na República Centro Africana e que gravou a música dos pigmeus bacas, costumava ir comigo a Canal Street comprar Rolex falsos sempre que voltava a Nova Iorque. Ele usava os relógios contrafeitos para subornar a polícia em África e poder ir onde desejava. Segundo disse, o truque funcionava sempre. Comprava, não sei, uma dúzia deles por 200 dólares, só imitações.

A piada da água também é por brincadeira?
Não, com a água não se brinca, a água é vida! Mas agora temos estes bilionários todos a comprar direitos e registos de propriedade, como se o acesso à água não fosse um dos direitos mais básicos de qualquer humano e de qualquer ser vivo deste planeta.

Como é que esta ideia das três histórias lhe apareceu? No início, só tinha uma?
Inicialmente, apeteceu-me apenas escrever para actores. Imaginei-nos na cabeça e comecei a escrever. Você sabe, é o método do costume. “Seria porreiro se o Tom Waits fosse o pai do Adam Driver, apesar de nem serem parecidos? Talvez funcionasse…” Além disso, sou fã do [concurso televisivo] Jeopardy!, já o viu? E a Mayim Bialik, que é actriz desde a infância e uma estrela da TV americana, apresentou o Jeopardy! ao longo de dois anos, entre 2021 e 2023, se não estou enganado. Ora, certo dia disse-me que seria fantástico se ela fizesse a irmã do Adam. Isto não tem explicação. As histórias surgem-me assim e, quando dei por isso, estava a alimentar as raízes das outras histórias. Ah: e gosto do número três. A construção de um tríptico começou então a ganhar forma.

Como uma peça musical?
Sim, sim, há muito disso — uma peça musical com três movimentos em que as coisas e as sensações se vão acumulando. E eu trabalhei muito esta ideia. Isto é: para mim, o pico do filme é o momento em que os irmãos se abraçam no quarto dos pais na terceira história. Mas esse momento só ganha o valor que tem pelo efeito que foi criado pelos dois capítulos anteriores. É neste sentido que falo de acumulação. Com muita atenção aos detalhes. No cinema, é preciso um esforço enorme para que algo pareça fácil. Este filme é muito focado nestas pequenas coisas afinal tão difíceis de passar para o ecrã — aquilo que se passa, por exemplo, naquele chá vespertino entre a mãe e as duas filhas. É complexo a nível de relações humanas. É muito mais lixado filmar aquele chá do que 20 zombies a saírem das tumbas.



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