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Depois de viver 15 anos fora do Brasil, o cantor, instrumentista e compositor Fred Martins está voltando para casa. Mas o carioca, que morou sete anos na Espanha, e os últimos oito, em Portugal, não vai partir sem antes se despedir de seu público. Nos próximos dias 23 e 28 de janeiro, ele se apresentará em Lisboa. Já no dia 07 de fevereiro, o espetáculo será no Algarve. Em entrevista ao PÚBLICO Brasil, ele fala da saudade que sente de sua terra natal.
“Acho que foi um ciclo bastante longo no exterior”, diz. “Agora, senti a necessidade de retomar projetos no Brasil, de conviver com a minha base cultural, que me alimentou a vida toda para trabalhar com música. E a música brasileira tem algo especial. Ter saído do Brasil me mostrou isso de uma maneira mais acentuada. Temos uma música muito rica, linda e respeitada no mundo inteiro”, avalia.
O cantor entrega que está sentindo falta da natureza (“Aquelas montanhas incríveis do Rio de Janeiro”, elogia) e dos brasileiros. “Ser estrangeiro é muito enriquecedor. Aprendemos e reformulamos a própria visão do nosso país. Ficamos mais apaixonados pelo Brasil. Há coisas que não damos bola, porque estão sempre ali. Mas, depois, sentimos falta. A forma como o povo brasileiro leva a vida com muita fibra e vitalidade, por exemplo, é uma delas”, analisa.
O crescimento da extrema-direita também pesou na balança na hora de decidir pegar o caminho de volta. É o que ele afirma: “Os discursos de xenofobia e de todo tipo de canalhice dos governos são muito ruins. Portugal tem um governo que é supostamente liberal, mas tem a política de extrema-direita”, enfatiza. “Tudo começou a ficar áspero e tóxico. Tem muita gente agressiva”.
E o cantor acrescenta. “O ministro da Educação [Fernando Alexandre] diz que o pobre destrói a universidade pública. Você tem um fascista o tempo todo na TV falando coisas terríveis. Então, começa a ter violência contra crianças nas escolas, mulheres estão sendo mortas, pessoas estão sendo xingadas. A liberação desses discursos de ódio incentiva à violência, que estava reprimida, guardada. Mas esse lado sombrio está em todo lugar, não é só em Portugal, é no mundo todo”, pondera.
Fred Martins faz questão de frisar que, como músico, sempre trabalhou para estreitar cada vez mais os laços entre os dois países. “No Brasil, a gente apaga um pouco essa relação com Portugal. É um pouco nublada ainda. E com os irmãos da África, que sofreram o mesmo processo de colonização, também. O pessoal de Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe. Não temos nenhuma relação com eles. E eu vivo e faço música com eles, são meus amigos. Temos um parentesco cultural muito forte”, constata.
Nos shows de despedida, no dia 23 de janeiro, o cantor subirá ao palco com a violoncelista Sandra Martins, às 21h30, no MACAM (Museu de Arte Contemporânea Armando Martins), em Lisboa. Em 28 de janeiro, o espetáculo será com a paulista Barbara Rodrix e o argentino Martin Sued & Orquestra Assintomática, às 21h, no Bota, também em Lisboa. No dia 7 de fevereiro, as apresentações serão em Olhão, na região do Algarve, em dois horários: às 19h e às 21h30, no República 14, em mais uma dobradinha com Sandra Martins.
Influenciado pela bossa nova, pelo samba e pela MPB, Fred já compôs para nomes de peso como Ney Matogrosso, Adriana Calcanhoto, Zélia Duncan, Maria Rita, José Miguel Wisnik e MPB4 e Renato Braz. Com vários álbuns gravados, em 2024, lançou o disco Barbarizando Geral, com o percussionista carioca Marcos Suzano.
Em Portugal, a fadista Joana Amendoeira gravou o álbum Na Volta da Maré, em 2021, dedicado às canções do artista brasileiro, em parceria com o poeta português Tiago Torres da Silva. No ano passado, foi a vez de Esperança, projeto que Fred fez com a cantora cabo-verdiana Nancy Vieira. Ele já avisa que sempre voltará a Portugal.
“Depois que a gente passa um tempo em Portugal, não tem como ir embora para sempre. Nem quero. Eu sempre me senti em casa aqui”, finaliza.
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