Os aliados tradicionais dos EUA vêem as relações transatlânticas a atravessar o período de maior risco das últimas décadas e estão cada vez mais inclinados a exercer uma maior independência militar e económica face a Washington, visto cada vez menos como um parceiro fiável, de acordo com um estudo encomendado pelos organizadores da Cimeira de Segurança de Munique.
O encontro anual que reúne alguns dos principais decisores em matéria de segurança, defesa e relações internacionais a nível mundial na capital da Baviera está marcado para o próximo fim-de-semana. O relatório divulgado nesta segunda-feira não esconde nem minimiza a grande preocupação dos aliados dos EUA, sobretudo os europeus, face à conduta crescentemente autoritária do Presidente, Donald Trump, ao longo do primeiro ano do seu segundo mandato.
“Durante gerações, os aliados dos EUA não só foram capazes de confiar no poder americano, mas também num entendimento partilhado acerca dos princípios sobre os quais se baseia a ordem internacional”, escreve o presidente da conferência, Wolfgang Ischinger, na introdução do documento. “Hoje, isto parece bastante menos certo, levantando questões difíceis sobre o futuro da cooperação transatlântica e internacional”, acrescentou.
Há um ano, uma parte considerável dos líderes ocidentais ficou chocada com o discurso do então recém-empossado vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, no qual criticou duramente a classe política europeia, acusando-a de “suprimir a liberdade de expressão” e de “abrir as comportas” ao permitir a entrada de imigrantes. As suas palavras foram o ponto de partida para uma revolução ainda em curso nas relações transatlânticas.
Um ano volvido, “o mundo entrou num período de política de demolição”, observa o relatório, que traça uma metáfora a partir do projecto de Trump para o alargamento da Casa Branca. “Em vez de debater renovações ou reformas incrementais, Trump demole as coisas para construir algo inteiramente diferente”, escrevem os autores do relatório.
O discurso de Vance ditou igualmente a forma como a Administração Trump passou a lidar com a Ucrânia, exigindo-lhe várias concessões e ecoando alguns argumentos do Kremlin, enquanto procurava melhorar as relações com Moscovo. Desde a cimeira de há um ano, a Administração Trump impôs uma série de tarifas aduaneiras, ameaçou tomar pela força a Gronelândia, arriscando o colapso da NATO, e realizou uma operação militar surpreendente de captura do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
“Poderemos vir a assistir a um mundo baseado em acordos transaccionais em vez de cooperação com princípios, interesses privados em vez de públicos, e regiões assentes em poderes hegemónicos regionais em vez de normas universais”, sustenta o mesmo relatório.
Uma sondagem, realizada pelos organizadores da conferência de Munique, que irá receber uma delegação norte-americana chefiada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, mostra que os europeus vêem o Ocidente cada vez mais dividido e mostram uma disposição crescente para cooperarem entre si sem o apoio dos EUA.
O relatório alerta para uma necessidade de mudança por parte dos restantes aliados ocidentais neste cenário, e avisa que é preciso deixar de “confiar em comunicados estéreis, conferências previsíveis e diplomacia cautelosa”. “Aqueles que se opõem à política da destruição terão de fortificar as estruturas essenciais, conceber mecanismos novos e mais sustentáveis e tornar-se edificadores corajosos”, afirmam, acrescentando: “Há muito em jogo. Na realidade, tudo está em jogo.”
O embaixador norte-americano na NATO, Matthew Whitaker, disse rejeitar as conclusões do relatório e garantiu que a Administração Trump não deseja o fim da Aliança Atlântica, mas quer apenas reequilibrar os gastos em defesa entre os aliados. “Estamos a tentar tornar a NATO mais forte, não a abandonar ou a rejeitar a NATO, mas a fazê-la funcionar como esperado, como uma aliança de 32 aliados fortes e capazes”, afirmou, citado pelo Guardian.

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