Cartas ao director | Opinião


Porto Seguro

Os resultados das eleições presidenciais levaram a democracia até um porto Seguro, apesar de muitos “marinheiros de água doce” prometerem outras rotas, no ponto mais distante, à direita. Sabemos que é um refúgio temporário, cada vez mais existem tempestades populistas e correntes fortes originadas por ventos de oeste que ameaçam o navio. Aproveitemos este tempo de escala, segurança e estabilidade dada pelo novo comandante com sentido de Estado para preparar uma nova viagem por mares tortuosos, sabendo que os piratas modernos estão sempre à espreita, prontos a desrespeitar as liberdades fundamentais e a subverter a democracia.

Emanuel Caetano, Ermesinde

Esquecimentos proclamatórios

No seu discurso de derrota nas presidenciais, André Ventura salientou que perdeu contra todos os partidos e posicionamentos políticos integrantes do “sistema” (seja lá o que entenda por isso) e mesmo da UE. Neste seu “orgulhosamente sós”, fugiu à verdade ao não ter referido minimamente que, para além da sua base partidária – o Chega –, contou com o apoio declarado ou dissimulado de partidos e movimentos neonazis, nomeadamente o Ergue-te, Grupo 1143, MAL, Reconquista, e quejandos.

Não fazendo esta omissão jus à sua autoproclamada coragem e frontalidade política, fica-nos a dúvida se tal esquecimento foi devido à circunstância de aquele seu majestático “nós” implicitamente já incluir aqueles apoiantes, dado todos comungarem das anticonstitucionais posições que unem a ” família” da extrema-direita portuguesa, ou se foi devido ao facto de André Ventura se sentir pifiamente embaraçado para mencionar publicamente tão pouco cristãs companhias.

Henrique de Melo, Lisboa

Eleição vista do Brasil

Gostaria de escrever muito mais, mas a minha consciência lembra-me de que a prioridade de espaço merecidamente deve ser portuguesa, para manifestar alegria histórica. Sou cidadão brasileiro, residente no Brasil, aposentado, apaixonado por Portugal e comovido pela opção democrática do país. Seguro discursou como estadista, primeira condição para alcançar êxito. Espero a sua ida urgente às áreas alagadas para abraçar a população.

Francisco Braun, Petrópolis

Moção de censura a Ventura​

Estas eleições resultaram numa moção de censura a Ventura, mas também numa moção de confiança a Seguro, assim como moção de censura à desonestidade, à mentira e ao poder do algoritmo em que muitos portugueses tinham sido capturados. Ventura perde a legitimidade perante a expressão de dois terços dos eleitores, que não o querem a representar Portugal.

Luís Filipe Rodrigues, Santo Tirso

Falácias com números absolutos

Sem pôr em causa a grandeza da vitória de António José Seguro, o destaque que o PÚBLICO dá ao recorde absoluto de votos é manifestamente exagerado.
É certo que a notícia refere que o número de eleitores inscritos tem crescido ao longo dos anos, mas omite o essencial, não tirando a conclusão que me parece mais relevante. Face ao número de eleitores inscritos, Seguro teve 32% de votos expressos. A comparação com Soares em 1991 é reveladora, pois este teve 42% de votos face aos inscritos, mas este valor nem é o maior. Mais falaciosa ainda é a comparação que a notícia faz com o resultado de Eanes em 1976. Desde esse ano, os cadernos eleitorais cresceram perto de 70% (6,5 milhões de eleitores, na altura)! Em 1976, Eanes conquistou 46% dos votos dos inscritos, valor ainda inferior aos 47% que viria a conquistar cinco anos depois (o recorde).
Os 32% de Seguro face aos inscritos são relevantes, melhores do que os valores obtidos por Marcelo e Cavaco, mas o destaque que é dado ao número absoluto de votos, sendo literalmente verdadeiro, desvia do que é essencial, mesmo numa análise estritamente numérica dos resultados. A magnitude e a importância da vitória de Seguro vão muito para além deste facto.

João Silva, Lisboa

A metáfora dos três Salazares
André Ventura invocou há pouco tempo a figura do último ditador, português, mas em triplicado. Bem, eles apareceram, mas dois roeram a corda, e passaram-se para o lado da democracia. E é sobre este facto que Luís Montenegro tem de reflectir. Um terço dos portugueses quer voltar ao tempo da outra senhora, e estou contente, pois pensei que eram mais. Dois terços dos portugueses não querem voltar ao tempo da outra senhora, e é para esse lado que o senhor tem de olhar. Se continuar a dar boleia ao escorpião, acontece-lhe o mesmo que ao sapo da fábula.

Quintino Silva, Paredes de Coura



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