Receita eleitoral
É virtualmente infinita a forma de se cozinhar um processo eleitoral. Em Portugal desde há muito se cristalizou uma receita cujos ingredientes capitais são as sondagens, os debates e a informação social. Quanto às sondagens, são condimento que não congrega o gosto de todos. Tempos houve em que nem sequer eram permitidas, visto que não são efectuadas por instâncias públicas, com agentes ajuramentados, e também porque têm o natural efeito de, mais do que informar, o de induzir os eleitores a votar por arrastamento em vez de por acordo com as suas convicções. Mas é o que temos, imagina-se porquê.
Passando aos debates, é um facto que atraem muitos espectadores, pelo calor das disputas. Mas, se é um facto que um debate atrai, também o é que, ao mesmo tempo, distrai. Pelo menos, isso acontece com os praticados nos canais de televisão públicos e privados. E acontece porque quem conduz os debates e selecciona as questões a discutir são os jornalistas, autointitulados moderadores, ficando os políticos intervenientes sem poder falar dos problemas que considerem de mais importante apreciação. Seria indiscutivelmente mais sério e mais interessante que os candidatos tivessem o acesso à televisão mais para falarem do que muito bem entendessem aos eleitores, sem interrupções abruptas de adversários ou pseudomoderadores e numa linguagem muito mais pedagógica, como claramente sucede nos chamados “tempos de antena”. Quanto ao trabalho noticioso e de opinião dos órgãos de informação em geral, é evidente que estes não conseguem emergir impolutos dos seus condicionamentos comerciais. É um facto que esta receita eleitoral está muito longe da das rabanadas e do bolo rei. Feliz Natal.
António Reis, Vila do Conde
A torpeza dos dirigentes russos
Muitas vezes o psicopata, tipo serial killer, não se apercebe que é psicopata. Outras vezes o agressor violento tem a desfaçatez de afirmar que o provocaram – mesmo que não o tenha sido — e redobra a agressão. Vem esta pequena introdução a propósito da Rússia de Putin. Presentemente este país não se recomenda, visto que o regime político instalado em Moscovo assenta no autoritarismo, na repressão, na perseguição a toda a dissidência que culmina na prisão ou no assassínio. Vladimir Putin não esconde as suas ambições imperialistas e está tentando desestabilizar a União Europeia.
Recentemente, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, de forma delirante, acusou a Alemanha e outras potências europeias de reviverem o nazismo. Afirmou Lavrov que “o mais triste e perigoso é que na Europa, principalmente em Bruxelas, mas também em Berlim, Londres e Paris, sem falar dos países bálticos, a teoria do nazismo estão a ser revividas”. Lavrov acusou os líderes europeus de ignorarem o que descreveu como “abordagens abertamente nazistas” na Ucrânia “enquanto fornecem armas, financiamento e informação de inteligência a Kiev”. Este discurso é a inversão total dos acontecimentos no terreno. O nazismo vem da Federação Russa. A insanidade está tomando conta dos dirigentes russos que se acham vítimas quando, na verdade, são algozes e carrascos. Foi com o falso pretexto de” combater” o nazismo que Putin invadiu a Ucrânia.
António Cândido Miguéis, Vila Real
E o fogo?
Nem vale a pena pensarmos nisso, quando chegar o Verão logo se vê. Mas há quem pense. Eu sou obrigado, abro a porta de casa pela manhã e continua quase tudo negro. Também devido à falta de muitas coisas que arderam, que ainda não consegui recuperar ou substituir e fazem falta no dia-a-dia. Também para quem sordidamente saca benefícios económicos (porque os há) com a desgraça dos outros, deve ser boa altura para irem preparando o Verão.
A entrevista de Teresa Vilaverde relacionada com o seu último filme, Justa,avivou memórias. Ela diz que estão criadas as condições para um novo Pedrógão. Só não vê quem não quer. Por mais que se apresentem números, milhões gastos em prevenção, a realidade não liga aos números. A realidade são manchas cada vez maiores de invasoras e matos altamente inflamáveis.
Em 2017 ardeu-me tudo. A casa de habitação, um alojamento local situado na vila, outra casa onde o indivíduo que lá vivia morreu. Na quinta onde vivo nada escapou. Recuperei anexos, a vinha, as fruteiras, reflorestei. Recomecei pensando que todos tínhamos aprendido a lição e não se repetiria. Neste Agosto, repetiu-se, a casa escapou. Todo o trabalho feito depois de 2017 foi nas chamas. E agora? Voltar a reconstruir? Quando voltar o Verão, não há futebol nem política. Que arda!
Helder Correia, Avô
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