Sempre se associou o quadro climatológico do Alentejo a Verões com temperaturas e secas extremas, caracterização que aliás foi retratada com intenso dramatismo pelo escritor alentejano, Fialho de Almeida, no texto Ceifeiros: quando “a fornalha solar refila de brasidos, graduando o martírio (…) o Verão do paiz sem agua, o Verão alemtejano, martyrizante, irradiante, começa a encher d’angustias a provincia”.
Um “novo normal” com fenómenos climáticos extremos veio agravar, ao longo das últimas décadas, a secular condição que marca o quotidiano dos que vivem no Alentejo. “Beja é indiscutivelmente a cidade do país onde se registam as temperaturas mais elevadas no Verão”, observou a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, durante a cerimónia de assinatura de três protocolos para renaturalizar três linhas de água, que decorreu no passado sábado nos paços de concelho da capital do Baixo Alentejo, onde também apresentou o projecto nacional para a criação de “Ilhas Verdes”.
Graça Carvalho sabe do que fala. Na cidade de onde é natural, estudou e somou anos da sua adolescência, suportou os efeitos da canícula nos períodos estivais. Conhece bem o desconforto dos calores insuportáveis a que as pessoas são expostas semanas seguidas.
“Por isso mesmo, escolhemos Beja para acolher um projecto pioneiro a nível nacional que passa pela criação de uma “Ilha Verde” no Jardim Público da cidade”, justifica a ministra, dando a conhecer “o arranque de uma nova leva de intervenções para mitigar os efeitos das ondas de calor a nível nacional”.
Maria Graça Carvalho revelou que o projecto “Ilhas Verdes” vai ser instalado em vários aglomerados urbanos do país, prevendo-se que o segundo local a beneficiar deste tipo de equipamentos seja Vila Real, cidade transmontana também causticada por elevadas temperaturas no Verão.
Refúgios climáticos
Os abrigos climáticos são um conceito cada vez mais presente em cidades sujeitas a grandes amplitudes térmicas, nomeadamente na vizinha Espanha, e passam pela aposta em soluções naturais, como a criação de novos espelhos de água de zonas de sombra e a densificação do arvoredo, para proporcionar às populações espaços onde podem estar com temperaturas mais confortáveis.
Barcelona liderou o processo de criação de uma rede de refúgios climáticos, já com mais de 400 locais, de forma a baixar a temperatura sentida na cidade. Já estão disponíveis em edifícios públicos, como bibliotecas, museus, centros desportivos e centros comerciais.
A capital catalã tem servido de modelo para o resto das cidades europeias, mas já existem também, espalhados pelo mundo, os chamados cooling centers para mitigar os efeitos das ondas de calor e proteger a população contra as ameaças associadas às mudanças climáticas contínuas. A Cruz Vermelha do Vietname instala há muitos anos centros comunitários que proporcionam aos que os procuram temperaturas mais amenas.
Na capital da Catalunha já estão disponíveis em edifícios públicos, como bibliotecas, museus, centros desportivos e centros comerciais. Estes espaços, climatizados e geralmente equipados com lugares para se sentar e água gratuita, foram pensados como refúgio do calor, sobretudo para idosos, bebés, pessoas com problemas de saúde e quem não tem em casa recursos para lidar com temperaturas elevadas.
“Espanha vai criar uma rede nacional de abrigos climáticos antes do próximo Verão”, anunciou o primeiro-ministro Pedro Sánchez na última quarta-feira. Em 2025, o país também viveu o Verão mais quente de que há registo. Uma onda de calor de 16 dias em Agosto fez as temperaturas ultrapassarem os 45°C, segundo a Agência Estatal de Meteorologia (AEMET).
Projecto ainda por elaborar
A razão da instalação de uma “Ilha Verde” em Beja “é por ser seguramente a cidade mais quente do país onde só se sai de casa depois das 18 horas”, explicou a ministra, ao percorrer o parque central da cidade de Beja que revela sinais evidentes de manutenção insuficiente. Quando o calor aperta noutras cidades do país, Graça Carvalho diz não evitar um comentário: “se aqui está calor como é que não estará em Beja”.
Para adiantar o serviço, a ministra fez questão de visitar o Jardim Público de Beja – instalado na antiga cerca do Convento de S. Francisco em 1880 – para ouvir as primeiras sugestões. Inevitavelmente, Graça Carvalho acabou a rememorar fragmentos da sua infância e adolescência quando frequentava o jardim “quase todos os dias para estudar e remar nos barcos” que já não navegam no pequeno lago, contou ao PÚBLICO enquanto apontava para o local onde residia, a poucas dezenas de metros do jardim.
O projecto para a instalação de uma “Ilha Verde” em Beja, ainda não foi elaborado, daí não ser possível adiantar que tipo de intervenção irá ocorrer neste jardim com uma área de cerca de dois hectares, uma clara falta de manutenção e um coberto vegetal constituído, na sua esmagadora maioria, por espécies exóticas de crescimento rápido.
Verões quentes
No “Resumo Sazonal do Verão 2025”, publicado a 5 de Setembro, IPMA concluiu que foi o mais quente registado em Portugal dos últimos 94 anos, marcado por três ondas de calor, que ocorreram entre 15 de Junho e 17 de Agosto, com a temperatura média do ar de 23,51 graus Celsius, mais 1,55°C do que o normal.
Foi também o Verão mais seco desde 1931, com uma precipitação total de 10,9 mm que corresponde a apenas 24% do valor normal 1991-2020. No Alentejo, já não se suportam apenas ondas de calor separadas: a sensação no período estival é quase de uma única onda prolongada, com temperaturas que vão galgando os traços do termómetro.
Em Portugal, estudos recentes revelam que a diferença de temperatura entre as áreas urbanas e as áreas suburbanas ou rurais circundantes pode ser de até 5°C, com implicações directas na saúde pública e no conforto térmico.
As alterações climáticas estão a impulsionar esta subida das temperaturas e a “crescente ocorrência de fenómenos de calor extremo”, como confirma o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), o órgão das Nações Unidas responsável por avaliar as evidências científicas relacionadas às alterações climáticas.
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