A fotografia de Cláudio Valente foi suficiente para fazer as vítimas congelar, tremer e, em alguns casos, chorar. O impacto emocional no momento de identificar o responsável pelo atentado à Universidade de Brown foi destacado num documento judicial divulgado pelo The New York Times. Dois dias depois deste ataque, o português de 48 anos seria ainda responsável pelo homicídio do físico Nuno Loureiro, professor do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), num ataque preparado ao pormenor durante dez meses.
“Quando demos [à estudante] a fotografia do suspeito, a vítima congelou rapidamente, afastou-se e emocionou-se. Foi vista a tremer e com lágrimas nos olhos. Depois confirmou que a imagem mostrava o atirador”, descreve a polícia norte-americana, descrevendo um dos interrogatórios após o ataque. Outro estudante presente na Universidade de Brown durante o atentado começou a respirar de maneira diferente, fechando os olhos quando viu a imagem de Cláudio Valente.
Ao longo de 33 páginas, as autoridades juntam todos os frames das câmaras de videovigilância que mostram o percurso traçado por Cláudio Valente. Com estas imagens, os investigadores conseguiram mapear todos os movimentos do português até ao fatídico momento em que este entrou a disparar na Universidade de Brown, matando dois estudantes e deixando outros nove feridos. Valente conseguiria sair do campus e escapar à polícia durante vários dias.
A cronologia desenhada pela polícia reflecte a aparente tranquilidade do suspeito, captado a caminhar calmamente com as mãos nos bolsos. No momento em que alugou o carro que usaria para chegar até à Universidade de Brown, carregava consigo apenas uma mala de cabine. Pelas 16h03 do dia 16 de Dezembro, Valente entra numa sala de aula da universidade onde decorriam exames e dispara sobre os estudantes presentes.
O ligeiro coxear
Nas primeiras diligências feitas no local, um estudante disse às autoridades que reparou num homem estranho a passear no campus. Tina uma máscara cirúrgica e caminhava com um ligeiro coxear. Mais tarde, a polícia recebeu uma dica sobre uma publicação feita no Reddit, uma plataforma semelhante a uma rede social, sobre este incidente. O utilizador em questão disse que o suspeito tinha saído do local num carro da marca Nissan com matrícula registada no estado da Florida, uma pista que a polícia seguiu.
A partir de imagens extraídas da zona e confirmação do utilizador que fez a publicação em sede de interrogatório, as autoridades conseguiram chegar ao veículo e à identidade do suspeito. O homem que tanto procuravam era português e chamava-se Cláudio Manuel Neves Valente.
No despacho judicial são ainda encontrados detalhes sobre o cenário que as autoridades encontraram quando chegaram ao local. Foram disparados pelo menos 44 tiros, com Cláudio Valente a usar munição de ponta oca. No auditório, a polícia encontrou dois carregadores com capacidade total de 60 balas.
A Universidade de Brown foi outra das ajudas preciosas para as autoridades norte-americanas. Através do registo, foi possível perceber que tinha sido um antigo estudante da instituição. Valente conseguiu um visto de imigrante em 2017, recebendo autorização para ficar permanentemente no país.
A morte de Loureiro
Sabe-se agora que o português não só foi o responsável por este ataque em Brown, mas também pela morte de Nuno Loureiro, físico que dirigia o Centro de Ciência do Plasma e Fusão do MIT desde Maio de 2024.
Dois dias após o atentado em Brown, Nuno Loureiro, 47 anos, foi morto a tiro na sua casa, em Brookline, na Área Metropolitana de Boston, Estado de Massachusetts. Durante a noite, Cláudio Valente dirigiu-se até à casa do físico, disparando duas vezes sobre ele. O docente e investigador foi transportado para um hospital de Boston em estado grave, mas acabaria por não resistir aos ferimentos e morreria na manhã do dia seguinte, 16 de Dezembro.
Cláudio Valente e Nuno Loureiro frequentaram o mesmo programa académico no Instituto Superior Técnico (IST) entre 1995 e 2000. A crença das autoridades é que os dois se conheciam, mas a investigação procura ainda definir a motivação para o crime.
Valente seria encontrado morto dois dias após o ataque contra Nuno Loureiro, mas as autoridades acreditam que o suspeito se terá suicidado apenas horas após o homicídio. O cadáver do suspeito mostrava um ferimento de bala auto-infligido e estava numa unidade de armazenamento que tinha sido alugada por Cláudio Valente.
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