Bill Lee abrandou o camião no local onde deveria estar um sinal de trânsito a alertar os condutores, na estrada montanhosa, para a curva acentuada que se avizinha.
Lembrava-se de a ter erguido cinco anos antes, numa manhã na floresta, junto a Del Nelson, que se tornara o seu melhor amigo durante meio século de trabalho conjunto no Serviço Florestal dos Estados Unidos (EUA), apesar de discordarem em termos políticos. Agora, Bill Lee e Del Nelson estavam reformados, os cortes do governo de Donald Trump no governo significavam que não havia ninguém para cobrir os seus antigos empregos e o sinal encontrava-se deformado no meio da terra.
Naquela sexta-feira soalheira em finais de Agosto, Bill Lee sentiu-se como a única pessoa que restava na Floresta Nacional de Shoshone para recolocar o sinal no sítio. Ainda tinha as ferramentas guardadas na parte de trás do camião. Agarrou no volante e lutou contra o impulso de sair. De nada serve, diz a si mesmo.
Desde o início do ano, o Serviço Florestal perdeu quase seis mil funcionários através de despedimentos, demissões e reformas incentivadas pela administração de Donald Trump, de acordo com números internos obtidos pelo jornal The Washington Post. No Verão, algumas das regiões da agência não tinham três quartos do pessoal de trilhos e recreação (e algumas florestas e distritos não tinham nenhum).
Bill Lee e Del Nelson, antigos guardas florestais que hoje trabalham como voluntários
Matt McClain/The Washington Post
Bill Lee assistiu ao desenrolar da situação com crescente preocupação: os despedimentos, depois as partidas e por fim a lenta degradação da floresta com mais de um milhão de hectares, localizada no estado americano do Wyoming. As coisas estavam a degradar-se, mas de uma forma que os outros talvez não notassem – até que uma criança caísse de uma doca e se afogasse, ou um adolescente capotasse um veículo todo-o-terreno numa estrada esburacada e partisse o pescoço.
Os seus bosques, sabia Bill Lee, eram uma pequena parte dos cerca de 80,9 milhões de hectares de terras do Serviço Florestal dos EUA – um país selvagem e belo onde morriam pessoas a toda a hora. Onde, sob a administração Trump, havia cada vez menos funcionários experientes como ele para manter a vigilância.
A luta interior de Bill
Era por isso que Bill tinha interrompido os seus poucos meses de reforma. Era por isso que, aos 73 anos, entrava na sua carrinha às 7h30 da manhã, duas vezes por semana, e conduzia lentamente pela estrada da montanha, temendo ver qualquer coisa partida – e a luta interior que se seguiria.
Se Bill fizesse reparações, poderia parecer que o Serviço Florestal se estava a dar bem com uma equipa mais pequena, justificando os cortes de Trump; mas se não as fizesse, as pessoas poderiam magoar-se ou até mesmo morrer.
Decidiu que só resolveria os problemas que constituíssem um verdadeiro risco de vida e o sinal não se qualificava: esta era uma estrada montanhosa com curvas. As pessoas poderiam adivinhar a necessidade de abrandar.
Bill forçou-se a continuar a conduzir em direcção ao lago Louis, cambaleando pelos buracos na estrada, mais profundos do que nunca. Passou pelas casas de banho, onde as paredes precisavam de uma limpeza a fundo. Olhando para a água, avistou um homem a terminar um dia de pesca – e colocou o camião no parque. Bill disse a si próprio que esta era outra forma de salvar aquela que era a sua floresta.
Bill aproximou-se do homem, oferecendo-se para o ajudar a tirar o barco da água. Joe Forschler, de 67 anos, reconheceu Bill e também Del; ambos os homens o tinham ajudado anos antes, recorda Joe, fornecendo-lhe garrafas de água numa ocasião em que esta se lhe tinha esgotado durante um dia de corte de madeira. Joe ficou contente, afirma, por os ver ainda a trabalhar.
Bill corrige-o: “Eles já não mantêm os nossos empregos.” Entregou a Joe um cartão que tinha imprimido, com números de telefone de membros do Congresso. Pediu-lhe que telefonasse: “Diga: ‘Olá, estamos a ter uma má experiência. Porque é que já não têm estas pessoas a trabalhar?’” Com telefonemas suficientes, explica Bill, a mensagem poderia até chegar a Trump: é preciso contratar mais pessoal.
Joe inclina a cabeça para trás: “Oh, ele não se importa.”
“É tudo uma questão de dinheiro”, diz Bill.
“Claro que é”, reforça Joe. “O mundo inteiro é dinheiro.”
Voluntários estão a ajudar a minimizar os efeitos dos cortes significativos na força de trabalho que mantém a Floresta Nacional Shoshone.
Matt McClain/The Washington Post
Bill olhou para o lago a partir da estrada. O dia, que tinha começado nublado, estava a começar a clarear. Feixes de luz do sol deslizavam pela água até chegar aos pinheiros; um dos raios criava um caminho dourado através de um grupo de ramos onde, Bill sabia, uma família de águias carecas gostava de se empoleirar e pescar.
“Eu sei”, responde. “Mas há um recurso que está acima do dinheiro, que temos de proteger.”
Del, à esquerda, e Bill reparam marcos que circundam uma ponte na Floresta Nacional Shoshone
Matt McClain/The Washington Post
Lista de reparos a fazer
Bill seguiu viagem, com seis parafusos de madeira a fazer barulho na parte central do camião – tilintavam e saltavam sempre que o veículo batia numa vala ou num buraco.
Bill levava os parafusos em caso de necessidade, porque, actualmente, quase todas as curvas da estrada montanhosa revelavam algo a precisar de manutenção: outro sinal partido, um parque de campismo cheio de ervas daninhas, ou um portão de gado tombado.
Sempre que Bill via algo de errado, escrevia-o a caneta azul no seu pequeno caderno branco, que guardava no bolso das calças:
“Reparação de cabos na doca do lago Louis.”
“Colocar vedação em South Pass.”
“Mesa Partida em Picnic Worthen.” “Graffiti.” “Reparo de estrada.”
Ler a lista foi como sentir uma série de pequenos e precisos murros no estômago.
Uma atracção pelo risco
Desde que estava no Serviço Florestal, tinha sido voluntário em equipas de busca e salvamento. Ao longo de quatro décadas, retirou cadáveres de rios, encontrou torsos amassados em rochas e resgatou campistas que não aguentavam a altitude e esforço da caminhada.
O risco era o que Bill mais gostava na floresta. Obrigava-o a viver segundo as regras da “mãe natureza”, a aceitar o poder desta e ao mesmo tempo a sua insignificância humana. A beleza e a morte eram o trabalho de momentos aleatórios: Um nascer do sol. Um urso faminto. Um arco-íris. Uma derrocada.
Havia tantas maneiras de morrer no mundo selvagem – e agora menos pessoal para ficar de guarda.
O Serviço Florestal é responsável por cerca de 78 milhões de hectares de florestas e prados, visitados todos os anos por 160 milhões de pessoas que cortam madeira, pescam, criam gado, fazem investigação, caminham e caçam: quase tudo o que se pode fazer ao ar livre.
Em Julho, um relatório interno do Serviço Florestal concluiu que cada uma das nove regiões estava a perder entre 25 e 80% dos trabalhadores de trilhos e recreação. A nível nacional, a equipa do Serviço Florestal estava a dar prioridade às tarefas mais visíveis, como manter as casas de banho limpas, o que significava que outras tarefas não estavam a ser feitas, como a remoção de árvores derrubadas, o restabelecimento de trilhos ou a substituição dos sinais, de acordo com o relatório, ao qual o Washington Post teve acesso.
O parque nacional perdeu muitos funcionários essenciais à sua manutenção
Matt McClain/The Washington Post
Em resposta às perguntas do jornal, o Serviço Florestal escreveu numa declaração que “os voluntários são parte integral da forma como [o serviço] realiza o seu trabalho, particularmente nos programas de trilhos e de recreação.”
A declaração, que não foi assinada, observou que a secretária da Agricultura, Brooke Rollins, está empenhada em “preservar posições essenciais” para que “os serviços críticos permaneçam ininterruptos” e que Rollins “fará com que seja uma prioridade alocar recursos humanos conforme necessário… Daqui para a frente.”
A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, escreveu igualmente numa declaração que os voluntários “desempenham um papel significativo na gestão florestal”. Anna Kelly referiu que as mudanças de Trump no governo estão a manter “a paisagem da nossa nação segura e bonita para que todos possam desfrutar”.
Agora, ao aproximar-se de uma ponte, Bill Lee abranda a velocidade do camião. Quatro postes marcam os cantos da ponte, riscados com metal reflector preto e amarelo – um aviso vital para quem conduzisse pela montanha à noite. Mas um dos postes está inclinado, quase caindo no rio.
O Serviço Florestal é responsável por cerca de 78 milhões de hectares de florestas e prados
Matt McClain/The Washington Post
Isso, pensa Bill Lee, poderia matar alguém.
No momento em que afixa o marcador metálico num poste de madeira fresco, um camião cinzento passa pela ponte. “Espera um minuto”, chama Bill através da janela do assento do condutor. “Apareces quando o trabalho está quase terminado?” Del Nelson, sorrindo, dá a volta ao camião para estacionar.
Puxando as luvas de trabalho de couro amarrotadas, Del segura o poste enquanto Bill perfura os parafusos, depois segura o marcador remodelado na vertical enquanto Bill o nivela com um instrumento.
“Está bem assim?”
“Está com muito bom aspecto, Bill.”
Envelhecer com a floresta
Bill olhou da placa para Del, questionando-se quantos milhares de trabalhos de reparação devem ter feito juntos. Tinham criado famílias, visto os seus filhos terem filhos. Del divorciou-se de uma mulher e enterrou uma segunda. Bill despediu-se de sete cães. O cabelo de Del ficou branco, o de Bill grisalho. O trabalho que desempenhavam nos Serviços Florestais também envelheceu.
As estradas que tinham ajudado a abrir na montanha desmoronaram-se devido a anos de tempestades de chuva e neve. A erva tomou conta das marcas de pneus que tinham colocado para mostrar aos visitantes por onde conduzir. As ervas daninhas reocuparam as zonas de piquenique que os funcionários tinham limpo.
Os dois amigos inscreveram-se pela primeira vez no Serviço Florestal na década de 1970. Ambos estavam na casa dos 30 anos e eram professores, procurando ganhar algum dinheiro e passar o Verão ao ar livre.
Nenhum deles se lembrava como, mas depressa se tornaram um duo e os seus nomes eram um mantra no escritório: “Bill e Del resolvem tudo.” Os trabalhos eram feitos maioritariamente em conjunto. Nunca importou que Bill fosse liberal e Del conservador. As únicas discussões eram sobre como resolver as coisas e essas nunca duravam muito tempo.
Tinham envelhecido com a sua floresta e sentiam-se prontos para se reformarem. Mas agora, parecia serem os únicos que restavam para cuidar dela. Bill sabia que a restante equipa do Serviço Florestal queria ajudar, mas depois dos cortes de Trump, não tinham tempo nem trabalhadores para dispensar.
“Eu vi outro sinal caído”, disse Del a Bill, limpando a testa com uma mão enluvada. “Lá atrás, perto de Fiddler.”
Bill Lee, à esquerda, conversa com Joe Forschler, 67 anos, de Riverton, WY, no Lago Louis, dentro da Floresta Nacional Shoshone
Matt McClain/The Washington Post
Bill mordeu o lábio.
“Não podemos resolver tudo”, afirma. “Caso contrário, nunca mais nos vão contratar de volta para os nossos empregos.”
Trabalho voluntário
Já passava muito da hora do almoço quando Bill terminou a última reparação à qual não conseguiu resistir – voltar a pendurar o sinal “Middle Fork Popo Agie River” – e se deslocou da montanha em direcção ao centro de Lander. Estacionou na entrada circular de um edifício castanho e atarracado com uma grande bandeira americana na frente: este edifício é o escritório dos Serviços Florestais.
Bill volta a pendurar sinalização do parque
Matt McClain/The Washington Post
“Barb,” disse Bill ao entrar, acenando à mulher de óculos e cabelo grisalho que estava atrás da secretária – a única pessoa em Lander que sabia mais sobre a floresta do que ele e Del.
“Bill”, respondeu ela, acenando com a cabeça.
Também não era suposto que Barb Gustin estivesse a trabalhar. Tinha passado quase duas décadas no Serviço Florestal, sentada nesta mesma secretária, a distribuir licenças de corte de madeira, passes para parques e respostas a provavelmente milhões de perguntas.
Tinha-se reformado em Outubro do ano passado, aos 68 anos, pronta para passar manhãs de lazer sentada no quintal, a olhar para as montanhas de Wind River com o seu corgi, Jazzy. Depois, no Dia dos Namorados, a administração Trump despediu todos os trabalhadores à experiência, não deixando ninguém para substituir o antigo emprego de Barb.
A primeira vez que passou de carro e viu o sinal a dizer “fechado até novo aviso”, encostou o carro, entrou no escritório e foi ter com o antigo patrão. Perguntou-lhe se podia voltar como voluntária – tal como Bill e Del. Agora estávamos em meados de Agosto, no pico da época de Verão, e Barb estava a trabalhar das 12h30 às 16h30, de segunda a sexta-feira, sem remuneração.
Bill desapareceu no meio do escritório das traseiras e Barb olhou pela janela. Dois homens com barbas longas, roupas rasgadas e pele coriácea estavam a subir, curvados sob mochilas. “CDT”, murmurou para si própria – e de facto, eram caminhantes que percorriam os cerca de três mil quilómetros do Continental Divide Trail.
Indicou aos dois homens onde poderiam encher a água e depositar a reciclagem. O telefone tocou: Barb explicou à mulher na chamada que os parques de campismo eram por ordem de chegada e sugeriu um local menos popular. Quando desligou o telefone, um homem chegou numa caravana grande.
“[Onde me posso deslocar] no que respeita a qualquer tipo de prospecção de ouro?”, perguntou em voz baixa.
Barb encaminhou-o para South Pass City, uma antiga cidade mineira. “Mas não ouvi falar de ninguém que tenha feito fortuna por aqui”, disse ela. “Ou se alguém o fez, não veio aqui para me contar.”
Barb apercebeu-se que deve ter lidado com todas as perguntas possíveis ao longo dos anos. Tinha as suas favoritas: o homem que chegou com um novelo de lã, perguntando se esta era realmente a melhor defesa contra os leões da montanha, como a sua irmã lhe disse (Barb presumiu que a irmã não devia gostar muito dele), ou a caminhante que apareceu irada por não conseguir encontrar os pontos no chão (acreditava erradamente que as legendas do mapa para os parques de campismo apareciam como grandes círculos amarelos na terra).
Entrou meia dúzia de bombeiros dos Serviços Florestais. Queriam utilizar a máquina de plastificar para imprimir avisos de perigo de incêndio, mas não sabiam como. “Carreguem no botão que parece um floco de neve”, disse Barb.
Explicou a uma mulher com um cão de serviço que esta podia ver os mapas e as licenças de xilogravura em exposição, mas que não podia comprar nada. Como voluntária, Barb não estava autorizada a vender coisas. Empurrou um pedaço de papel com um código QR para o outro lado do balcão e disse à mulher para fazer a encomenda através do website dos Serviços Florestais.
“Até que alguém seja contratado de forma permanente, tudo terá de ser feito online”, disse Barb. “Estou a trabalhar como voluntária até ao final deste mês. E depois…”
Era a única pergunta a que se sentia incapaz de responder, porque quando se reformasse pela segunda vez, em Setembro, Barb não voltaria. Perguntava-se se encontrariam alguém para assumir o seu lugar e manter o escritório aberto.
Mas sabia que nunca poderiam substituir Bill e Del, sendo que os dois também teriam de deixar de ser voluntários a determinada altura. Barb tinha a certeza de que ninguém alguma vez conheceria a floresta como aqueles dois.
As pernas de Del ainda doíam devido a um acidente de caça ocorrido dez anos antes, pelo que se movia lentamente quando começava o passeio das seis da manhã à volta do lago Louis, seguido pelo seu yorkshire terrier, Raspberry. No momento em que sentiu o sol nascente tocar-lhe a pele, Del parou e fechou os olhos.
“Obrigado, Deus, por me deixares estar vivo”, rezou em silêncio. “Obrigado, Deus, por me deixares estar aqui em cima nas montanhas. Obrigado, Deus, pelos pássaros.”
Cortes até no material de limpeza
Horas mais tarde, calçou um par de luvas de plástico azuis e começou a limpar a primeira de cinco casas de banho.
Limpeza de casas de banho para campistas
Este Verão marcou o 50.º ano de Del a viver numa cabana dos Serviços Florestais junto ao lago Louis, seguindo os campistas, cobrando as suas taxas e limpando a sujidade. Nos primeiros 49 anos deste trabalho, tinha sido um funcionário federal assalariado que ganhava cerca de 11 mil dólares durante três meses. Este Verão, receberia 50 dólares por dia, cinco dias por semana – o dobro do valor habitual pago aos anfitriões voluntários de parques de campismo, porque tinha de limpar mais casas de banho.
Del apoiou a porta e varreu a casa de banho das mulheres e depois a dos homens. Pegou numa garrafa de spray de limpeza e rasgou um rectângulo de um rolo de papel de cozinha. Usou um lado da folha para limpar a casa de banho das mulheres e o verso para limpar a dos homens.
Trump tinha congelado a maior parte das despesas federais, pelo que o dinheiro para algo como material de limpeza era escasso. O melhor, pensou Del, era fazer com que as coisas durassem o máximo de tempo possível.
Ainda assim, Del tinha a certeza de que o Presidente, que apoiava, tinha um plano de mestre: todos estes cortes acabariam por tornar o governo melhor.
Além disso, as casas de banho não estavam más, pelo menos esta manhã, pensou Del enquanto conduzia à volta do lago até à segunda casa de banho externa. Não havia salpicos de “ocupantes” – pessoas que, por razões que Del não conseguia compreender completamente, gostavam de se empoleirar na borda da sanita enquanto faziam as suas necessidades.
Enquanto conduzia entre o terceiro e o quarto conjuntos de casas de banho, Del viu a familiar linha do horizonte das montanhas a erguer-se no espelho retrovisor. Com uns tenros 35 milhões de anos, estes picos eram bastante jovens: substituíram uma cordilheira muito mais antiga, há muito tempo erodida.
Del gostava de dizer a si próprio que, por fim, as montanhas para onde estava a olhar também iriam desaparecer um dia. Isso fazia-o sentir-se pequeno, mas cuidado. Como uma pequena parte do vasto plano de Deus.
Voltando a olhar para a terra, repara em vários veículos que não se lembrava de ter visto no dia anterior. Pega na sua prancheta e numa caneta e dirige-se para lá.
“Olá, miúdos. Estão a divertir-se?”, perguntou a uma família de Evanston, no estado de Illinois, antes de registar o número da matrícula e perguntar se tinham pago a taxa nocturna de 15 dólares.
Aproximou-se de um casal de Ohio, que tinha trazido o cão. “Ela é simpática”, disse ele, apontando para Raspberry. “Eu também, prometo.”
Dois outros homens faziam-se acompanhar por uma rapariga que, alternadamente, fazia festas e tentava montar dois enormes pastores belgas. “Não podem fazer uma fogueira aí”, avisou-os. O homem mais baixo, que usava um chapéu branco de cowboy, acenou com a cabeça e disse que entendia.
“Trabalhei para o Serviço Florestal durante 17 anos”, disse o homem, que se apresentou como Jeffrey Evans, de Laramie, Wyoming. O segundo homem também se apresentou: Scott Bruce, de Casper.
“Sim, já fiz este trabalho – este é o meu 50.º ano”, respondeu Del, explicando que agora estava reformado e que voltou a ser voluntário.
Scott sorriu para Del.
“Penso que estão a fazer um melhor trabalho de manutenção dos parques de campismo do que se fazia há 30 anos”, afirmou.
Jeffrey interrompeu, abanando a cabeça em desacordo. Quaisquer melhorias nos parques de campismo, disse ele, vieram do dinheiro que a administração de Joe Biden deu ao Serviço Florestal. “Mas agora todo o pessoal está a ser despedido”, acrescentou. “Só se vai conseguir compensar isso durante algum tempo com voluntários.”
Olhou para Del: “Está disposto a fazer isto durante mais quanto tempo?”
“Não sei”, disse Del. “Tenho 81 anos neste momento.”
Scott disse que detestava ver pessoas desempregadas, mas achava que provavelmente havia margem de manobra para reduzir o Serviço Florestal. Adiantou que foi empreiteiro federal e que viu muitos gastos supérfluos em todo o governo. “Eles têm que cortar o suficiente para descobrir onde é que dói”, disse Scott. “A partir daí, podem recontratar.”
Jeffrey discordava novamente. “Não creio que tenha havido uma dilatação no Serviço Florestal”, disse.
Mas Del concordava com Scott: “Eles têm de descobrir como reduzir o desperdício”, afirmou. “Tem de haver uma maneira melhor.”
Despedindo-se dos homens, Del dirigiu-se à casa de banho número cinco.
O sol estava a começar a pôr-se quando Bill se juntou a Del no alpendre da sua cabana. Os dois velhos amigos olhavam para o lago Louis, com a sua superfície parada a exibir um reflexo cristalino das montanhas arborizadas em redor. Os únicos sons eram o chilrear dos insectos e os salpicos distantes de uma série de canoas.
Bill perguntou a Del se se lembrava do Verão de 1981 – ou seria 1983?
“Claro”, respondeu Del. “Tínhamos três pessoas no meu lugar!”
Bill riu-se quando Raspberry saltou para o seu colo. Recorda: “Até havia uma mulher, o trabalho era apenas… Ela conduzia pela estrada e apanhava o lixo. Lembras-te?”
Muita coisa tinha mudado. Os veículos todo-o-terreno tinham tomado conta de tudo. Surgiu um emaranhado de leis ambientais. Os políticos em Washington tinham sobrecarregado o Serviço Florestal com administradores, dando demasiado poder a burocratas que nunca punham os pés nas florestas.
“Quando se trata de decidir o que fazer agora na floresta, é preciso ir mais além”, disse Del. “Por vezes, são precisos anos para que as coisas sejam feitas.”
Bill acredita que “há demasiadas pessoas lá em cima e poucas pessoas no chão. Precisam de mais abelhas operárias e de menos rainhas.”
Raspberry espreguiçou-se e trocou de colo. Coçando o queixo da cadela, Del franziu os lábios. “No nosso nível, o número de funcionários nunca foi tão baixo como agora”, disse.
Bill fez uma pausa. Como regra tácita, os dois nunca falavam de política, mas Bill conhecia Del suficientemente bem para adivinhar que o amigo gostava do Presidente. O rádio do camião de Del estava sempre sintonizado em música country, Glenn Beck ou num dos três programas de entrevistas da Fox News.
Ainda assim, Bill também sabia que o declínio da floresta devia estar a causar dor a Del. Talvez, pensou ele, fosse altura de falar sobre Trump.
Pediu a Del que imaginasse despedir metade do pessoal de Mar-a-Lago e depois exigir que os restantes empregados de mesa, empregadas de limpeza e concierges prestassem o mesmo serviço de alta qualidade. “Não iria acontecer”, disse Bill, observando que era exactamente isso que Trump tinha feito ao Serviço Florestal e ao governo em geral.
Del recostou-se na sua cadeira. “Estou mais paciente, a olhar para o futuro”, respondeu. “Estou a pensar que, talvez, isto vá resultar.”
A administração estava a tentar descobrir o que “precisa absolutamente de ser financiado”, acrescentou.
Assim que o fizessem, o dinheiro e os funcionários voltariam para a floresta, concluiu. Pessoas para ocuparem os empregos dele e de Bill, também.
Bill olhou para ele, tentando perceber a sua certeza. “Não acho que vá melhorar imediatamente.”
Aí, respondeu Del, eles concordaram. Iria demorar algum tempo.
Confidenciou que, por vezes, teme que as melhorias de Trump cheguem demasiado tarde. “É um sentimento assustador, porque não estou a planear voltar no próximo ano”, disse Del. Tinha decidido: este Verão seria o seu último. Tinha dedicado grande parte da sua vida a este pedaço de terra. Queria ver outros lugares antes de morrer – como o Madera Canyon, no Arizona, onde esperava avistar um sanhaço-cor-de-fogo ou uma mariquita-de-cara-vermelha.
Tocou com a mão direita no coração, depois levou-a para fora, traçando uma linha invisível através do lago, do céu, das montanhas. Os olhos dos dois homens seguiram-na, percorrendo a sua floresta.
Del perguntou: “O que é que vai acontecer a isto?”
Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post
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