Na última mensagem de Natal enquanto Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa lembrou os desafios nacionais e internacionais que o próximo ano trará consigo. O objetivo foi pedir atenção e tolerância aos problemas de todas as pessoas e evitar responder “a um muro com outro muro”. Só assim é possível “alimentar” a esperança em vez de criar “condomínios fechados de egoísmos em que só alguns têm direito ao Natal”, escreveu no artigo de opinião publicado no Jornal de Notícias desta quinta-feira.
A referência aos “muros” surgiu de uma memória de Marcelo Rebelo de Sousa referente a uma frase de Jorge Sampaio quando ambos concorreram à liderança da Câmara Municipal de Lisboa, em 1989. Nessa altura, o social-democrata louvou a queda do muro de Berlim, na Alemanha, mas o seu adversário socialista colocou a prioridade nos “muros que existem na nossa terra”.
Quase 40 anos depois, Marcelo Rebelo de Sousa reflete sobre essas palavras num momento em está prestes a deixar a liderança do país num cenário de guerra na Europa e de ascensão da extrema-direita um pouco por todo o mundo. A conclusão é que vivemos num mundo interligado onde as dores dos povos distantes são também as nossas dores. “Natal que ignore os muros de Berlim de hoje, os de lá de fora, os das guerras, ódios, disputas, pobrezas do Mundo, não é Natal nem é nada”, escreve no texto intitulado “Os nossos muros ou a lembrança de Jorge Sampaio”. Assim, o Presidente da República defende que é preciso partilhar “esperanças” para o cessar-fogo na Palestina ou na Ucrânia.
Olhando para os muros “cá de dentro”, Marcelo Rebelo de Sousa lembrou a pobreza que “nunca deixou de ser grave demais para o todo nacional”, mas também o “envelhecimento coletivo imparável” e os “medos” que “reais ou imaginários” são “todos vividos como reais”. Apesar de reconhecer estes problemas do país, o Presidente da República pediu que não se “desista da esperança”, mas também que isto não faça esquecer quem sofre para lá da fronteira portuguesa. “Quer isto dizer que deixemos de estar atentos aos muros lá de fora? Claro que não. Eles são ou serão, mais dia menos dia, nossos”.
Num tom de realismo e esperança, Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que mesmo os muros mais difíceis de demolir “não são impossíveis” e destacou a necessidade de identificar aqueles “mais urgentes de superar”. O essencial, reforça, é manter a tolerância já que “os muros tendem a alimentar-se de outros muros”.
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