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Portugal deve, urgentemente, reforçar o controle de seu sistema prisional, pois o risco de criminosos se organizarem em grupos é grande. O alerta é de Rodrigo Duton, 51 anos, tenente-coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMRJ), pesquisador do Australian Strategic Policy Institute (API) e professor adjunto no George C. Marshall Center, na Alemanha. “É preciso lembrar que foi no sistema prisional do Rio que, na década de 1970, nasceu o Comando Vermelho (CV). E foi no sistema prisional de São Paulo que, nos anos de 1990, surgiu o Primeiro Comando da Capital (PCC). Portanto, toda a atenção com o sistema prisional de Portugal é importante”, afirma.
Duton, que, nesta entrevista ao PÚBLICO Brasil fala como acadêmico e não como integrante da força policial do Rio de Janeiro, onde está há 28 anos, reforça que o sistema prisional sempre é um ponto crítico. “Sabemos que há brasileiros presos em Portugal. Então, para o país ver uma gangue organizada crescendo no sistema prisional não custa nada. Porque a expertise já existe. Para integrantes do PCC ou do Comando Vermelho recrutar presos, treiná-los e passar a ideologia do crime organizado é um passo”, explica ele, que vê com bons olhos a parceria entre as polícias de Brasil e Portugal para o enfrentamento de criminosos.
Para o estudioso, é fundamental que Portugal conheça todos os seus detentos, de onde vêm, com quem se relacionam. Ele lembra que, no Rio de Janeiro, todos os criminosos detidos devem informar a facção que pertencem, até por questão de sobrevivência. “Isso, infelizmente, acontece, pois, se um integrante do Comando Vermelho foi parar na ala onde estão membros do Terceiro Comando, ele morre no primeiro dia”, frisa. “Em Portugal, essa identificação não é obrigatória, então, ninguém fica alardeando que é do PCC ou do Comando Vermelho”, emenda.
Na visão de Duton, não é exagerado dizer que há integrantes de organizações criminosas brasileiras atuando em Portugal. Segundo ele, esse pessoal entrou de forma legal em território luso, com toda a documentação adequada, para não chamar a atenção das autoridades. “Inclusive, podem ter adquirido Vistos Gold, aplicando 500 mil euros, 1 milhão de euros no país, pois dinheiro, para eles, não é problema”, assinala. “Quem entra ilegalmente em Portugal está na mira das autoridades, portanto, não interessa para os criminosos chamarem a atenção”, emenda.
Não só. O policial destaca que os criminosos se aproveitam do fato de a comunidade brasileira ser muito grande em Portugal para se se misturarem entre os cidadãos de bem. “Essa grande presença de brasileiros em Portugal é uma vantagem para os criminosos, pois eles se diluem na população. Contudo, é completamente inapropriado associar a imigração à violência. Criminoso é criminoso, não tem nada a ver com o fato de alguém ser imigrante”, enfatiza. “E Portugal precisa de imigrantes, pois tem uma população em rápido processo de envelhecimento”, emenda.
Corrupção e narcoestado
Além dos riscos observados no sistema prisional, Duton alerta para o perigo da corrupção. “A todo momento, o crime organizado vai tentar corromper autoridades, funcionários públicos. E, para corromper, usam valores muito altos. Não oferecem amendoim. A essência do crime organizado é se infiltrar no poder público”, destaca. Ele diz que se sente confortável para falar sobre esse tema, pois vive em um estado, o Rio de Janeiro, em que o crime está encrustrado nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.
“Vimos, recentemente, o presidente da Assembleia Legislativa Estadual, Rodrigo Bacellar, ser preso por repassar informações sigilosas de investigações para traficantes. Também presenciamos a prisão de um desembargador — Macário Júdice Neto — por envolvimento com o crime organizado”, afirma o acadêmico. Por conta dessa realidade, ele acredita que o Rio de Janeiro está muito perto de ser considerado um “narcoestado”, em que parte do Poder constituído trabalha em favor do crime.
O pesquisador diz que o combate à corrupção deve começar nas escolas, ensinando as crianças sobre como enfrentar esse crime que afeta toda a sociedade. Ele recomenda, ainda, que haja uma supervisão efetiva dos funcionários públicos que atuam na ponta de linha. “Essa supervisão deve, porém, se estender para os gabinetes, pois seus integrantes se corrompem por valores muito maiores. Não podemos ser cruéis achando que apenas os servidores que estão na ponta de linha se corrompem”, ressalta.
Duton, por sinal, participou, em 9 de dezembro último, no Dia Internacional de Combate à Corrupção, de um seminário sobre o tema promovido pela Polícia Judiciária de Portugal. “Vi essa iniciativa como muito positiva, pois há o entendimento do risco da corrupção para o país. Nas discussões, houve relatos de tentativa de corrupção para liberação de contêineres em portos. Ofereceram 700 mil euros pela passagem de um contêiner. O problema é que, depois que passa o primeiro, outros serão liberados”, sublinha.
PCC na Austrália
Para o policial, que estuda organizações criminosas há mais de cinco anos, esses grupos têm se valido da globalização, da tecnologia e do conhecimento para ampliar suas ações mundo afora. “Já identificamos integrantes do PCC na Austrália”, diz. Ele frisa que, assim como a globalização favorece o comércio em geral, também facilita as transações de drogas ilícitas, armas de fogo e outros objetos de crime. E cita como exemplo a cocaína, que é produzida em três países andinos — Colômbia, Peru e Bolívia — e transita pelo Brasil para ser vendida na Europa, nos Estados Unidos, na Ásia e na Oceania.
Pelos cálculos dele, um quilo de cocaína, que é vendido por US$ 1 mil nos países produtores, chega ao Brasil por US$ 3 mil, depois pula para US$ 30 mil na Europa e sobe a US$ 200 mil na Austrália. É um negócio altamente lucrativo. Por isso, os criminosos assumem todos os riscos”, comenta. Riscos que, no entender de Duton, estão cada vez menores, uma vez que as organizações criminosas estão recorrendo à tecnologia para dificultar a identificação das drogas. “Estão diluindo a cocaína em líquidos como solventes ou inserido a droga em tecidos”, detalha.
A tecnologia também está, segundo o acadêmico, mudando o sistema de transporte das drogas. “Em vez de barcos tripulados, de embarcações semissubmersíveis, a tendência será o uso de veículos marítimos não tripulados (drones)”, comenta. Isso, associado ao conhecimento, pois os grupos criminosos estão arregimentando advogados e contadores para legalizar empresas para a lavagem de dinheiro. “Temos de acabar com aquele estereótipo de que bandido é um boçal. Isso não é verdade. O crime está cada vez mais preparado”, afirma, lembrando que as organização têm atraído muitos jovens de famílias de renda elevada, que glamurizam o crime.
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