Grande parte das notícias ambientais que marcaram 2025 confirmam aquilo que há muito sabemos: a crise climática e ecológica deixou de ser uma ameaça distante para se tornar uma realidade quotidiana, feita de extremos, perdas e desigualdades. Incêndios mais intensos, secas prolongadas, colapso de ecossistemas e uma resposta política muitas vezes lenta ou contraditória continuam a dominar o espaço mediático — com razão.
Chegados ao final de 2025, é difícil não ficar preso às más notícias. Ainda assim, não gostaria de fechar este balanço sem referir alguns avanços que merecem ser reconhecidos. Não porque a situação ambiental esteja resolvida, mas porque ignorar progressos concretos também enfraquece a ação ambiental. Reconhecer o que funciona é essencial para o consolidar e replicar. Em Portugal, 2025 deixou três sinais claros de progresso.
O primeiro é o peso das energias renováveis na produção de eletricidade. Portugal consolidou-se como um dos países do mundo onde as renováveis têm maior expressão no sistema elétrico, com valores consistentemente elevados ao longo do ano. Este é um indicador relevante em termos de descarbonização, soberania energética e redução da dependência externa.
Mas importa sublinhar que este avanço nem sempre tem sido isento de impactos: em vários casos, o aumento da capacidade instalada tem ocorrido à custa da destruição de montado, da artificialização de solos agrícolas ou da pressão adicional sobre rios já ecologicamente fragilizados. A transição energética é indispensável — mas não pode repetir erros do passado nem avançar à custa da perda biodiversidade e dos ecossistemas que se pretende proteger.
O segundo avanço foi dado no mar. Portugal está perto de alcançar a proteção de 30% das suas áreas marinhas, aproximando-se de um objetivo internacional crucial para a conservação da biodiversidade e para a resiliência dos oceanos. Mais relevante do que a percentagem é a qualidade dessa proteção, com zonas de restrição efetiva e uma crescente integração do conhecimento científico na gestão do espaço marítimo.
O terceiro é um verdadeiro caso de sucesso da conservação da natureza: a população de lince-ibérico em Portugal atingiu os 354 indivíduos. Depois de ter estado à beira da extinção, a espécie é hoje o resultado visível de políticas públicas consistentes, cooperação ibérica e investimento continuado na recuperação de habitats e presas naturais. Num tempo de más notícias sobre biodiversidade, este é um exemplo concreto de que a recuperação é possível.
À escala global, 2025 também deixou algumas marcas positivas. Pela primeira vez, as energias renováveis ultrapassaram o carvão na produção de eletricidade, um marco simbólico e material na transição energética mundial. Foi ainda assinado o Tratado do Alto-Mar, criando finalmente um enquadramento legal para proteger a biodiversidade em alto-mar — uma das maiores lacunas da governação ambiental internacional. E na Amazónia, a desflorestação caiu cerca de 11%, ao mesmo tempo que, na COP30, foi estabelecido o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, um mecanismo financeiro que reconhece que proteger florestas exige recursos estáveis e compromisso político.
Nada disto elimina a urgência, nem substitui a crítica necessária. Mas mostra que, quando há vontade política, ciência e pressão da sociedade civil, os resultados aparecem. Terminar o ano reconhecendo estes avanços não é ingenuidade — é uma forma de lembrar que o caminho existe. Falta percorrê-lo com a rapidez e a escala que o tempo já não nos concede.
O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
Deixe uma Resposta