Vivemos sem um planeta B. Essa é uma realidade insofismável. Chegados a mais um período do movimento da Terra à volta do Sol, resta-nos a trágica notícia de que entraremos em 2026 com a previsão de o aumento da temperatura média mundial poder exceder 1,5°C, meta que se procurava limitar há 10 anos através do Acordo de Paris, um limite que parece agora hipotecado tanto pelas mais recentes previsões científicas como pelos resultados da COP30.

Durante este ano, a COP30 criou grandes expectativas e alimentou uma enorme esperança sob a égide do tão aclamado “Mutirão”, palavra de origem tupi-guarani, de natureza indígena, apresentada pela presidência da COP como o seu lema inédito e que significa esforço conjunto ou trabalho colectivo.

Porém, no desfecho, o “Mutirão” acabou por parir um rato, já que os compromissos assumidos em matéria de financiamento climático e de Contribuições Nacionalmente Determinadas (​NDC) ficaram muito aquém do esperado.

Entretanto, os actuais resultados dos impactos das alterações climáticas e da sua gravidade estão à vista. O nível global do mar ultrapassou as projecções e alguns Estados insulares do oceano Pacífico têm os anos contados. O arquipélago de Tuvalu está em processo de reassentamento da sua população e, através de um acordo bilateral com a Austrália, único no mundo, são anualmente sorteados vistos climáticos para que famílias possam mudar-se para território australiano. Ao mesmo tempo, os nevões, as ondas de calor e os eventos climáticos de início súbito, como furacões, não dão tréguas em nenhuma parte do planeta.

Por outro lado, a COP30 veio demonstrar a disfuncionalidade gerada por uma imensidão de lobistas na zona das negociações, fomentando a entropia que impede a obtenção de verdadeiros compromissos para uma transição energética livre de combustíveis fósseis.

A COP30 foi mais um exemplo de um multilateralismo em crise. Se fosse um modelo tecnológico, as próprias empresas tecnológicas já o teriam descontinuado. Tratou-se de uma conferência desigual, onde os povos não estiveram suficientemente representados. Viu-se a insensatez de não se conseguir garantir representação dos povos indígenas na zona azul, destinada aos representantes das partes negociais.

O mundo levou mais um ano a encanar a perna à rã em matéria de combate às alterações climáticas. E, se os Estados Partes da Convenção‑Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas não reforçam o multilateralismo, a União Europeia coloca a cereja no topo do bolo. Em novembro, as instituições europeias acordaram o adiamento da aplicação das novas regras da UE para prevenir a desflorestação, após aprovação pelo Parlamento Europeu. As empresas passam assim a dispor de mais um ano para cumprir o regulamento. Os grandes operadores e comerciantes terão agora de respeitar as obrigações em causa a partir de 30 de dezembro de 2026, enquanto as micro e pequenas empresas apenas a partir de 30 de junho de 2027.

Podem tentar convencer‑nos de que a economia vai florescer num ecossistema global em crise climática profunda, onde os impactos das alterações climáticas custam biliões de euros e as vítimas são sempre os mais vulneráveis. É uma economia que faz crescer a riqueza, mas que não cuida do ambiente nem tem a sustentabilidade como fio condutor. A indústria do armamento e a indústria têxtil são exatamente alguns exemplos onde a sustentabilidade mora ao lado. Como defender uma indústria baseada no armamento para sempre? Como manter um modelo de consumo desmedido (fast fashion) num quadro sustentável, onde o desperdício deve ser acautelado e evitado?

A retórica voltou a sublinhar as medidas de mitigação e adaptação e os modelos de desenvolvimento sustentável, mas a realidade está longe de o comprovar. Acenaram com esperança, mas enfiaram na gaveta medidas que permitiriam evitar o aumento da temperatura em 1,5°C. Foram muitas as promessas dos governos, da União Europeia e dos Estados Partes, mas quase todas deram em muito pouco.

Como se dizia no meu tempo de juventude, este ano, em matéria de combate às alterações climáticas, andámos atrás dos gambuzinos. Em 2026, se continuarmos nesta linha, a COP31 terá o mote ideal: vai ser outro trinta e um.

De facto, as lideranças mundiais, incluindo as europeias, podem continuar a reunir-se em cimeiras, a negociar compromissos adiados e a encher a agenda mediática de slogans convincentes. Mas enquanto a crise climática continuar e as vítimas formos todos nós, seremos todos arrastados até ao fim. O tempo das ilusões terminou.

A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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