Muito se pode escrever sobre as bases daquilo a que chamamos Mundo Ocidental, começando pela formulação da ideia de Estado, passando pela Cultura, terminando no Pensamento Científico. Em todos estes campos do “processo civilizacional”, roubando o título da famosa obra de Norbert Elias, encontramos a capacidade crítica, a dúvida sistemática como ponto de partida na construção do conhecimento.
Foi esse ceticismo metodológico que nos permitiu todos os saltos, políticos, sociais e científicos, que nos levaram ao bem-estar que construímos e que hoje chegou, em várias formas e intensidades, a muitas mais pessoas por todo o planeta. A gigantesca revolução na mortalidade infantil e na esperança média de vida é apenas um dos muitos campos onde a dúvida sistemática permitiu o que nunca antes tinha acontecido.
Continuamos a fazer muita e boa ciência, mas perdemos o campeonato da popularização deste modelo de pensamento. Consumidores de fast food mediático, hoje tornámos normal a informação menos correta ou mesmo falsa, criámos mecânicas de sociabilização com base no imediato e no intenso, esquecendo o conteúdo como centro que deveria ser valorizado e, acima de tudo, verificado. Uma opinião recolhida numa qualquer frase numa rede social tem tanto valor quanto uma informação ou um facto de uma plataforma credível que verificou a veracidade do que afirma e transmite.
Desejosos de sucesso, de audiências e de likes nas ditas redes sociais, os canais noticiosos renderam-se aos “tudólogos”, aos comentadores que saltaram de uma ou outra entrevista para espaços com lugar reservado na grelha horária, libertando as redações do árduo trabalho de fazerem os seus próprios conteúdos. Por trás da suposta autoridade académica, as redações limitam-se a dar tempo de antena, libertando-se do ónus de verificar os conteúdos.
Temos assistido a muita barbaridade dita por estes especialistas, resultado de terem de regularmente alimentar audiências, extravasando em muito as suas competências. No passado dia 23 de dezembro, em plena quadra natalícia, fomos brindados pela SIC Notícias com um momento de gravíssima desinformação, tanto mais que usada para alimentar fraturas sociais desnecessárias. Várias vezes, vimos e ouvimos Maria João Tomás afirmar que “o Papa Francisco lembrava todos os anos que Jesus era palestino”, perante o ar impávido da pivot, Ana Patrícia Carvalho, transformada apenas nisso, em pivot, sem qualquer atitude crítica perante o que ouvia.
Qual o escuso caminho para a paz e para a conciliação em se afirmar que Jesus era palestiniano? Poderia ser esta a pergunta pertinente. Mas não, porque tudo o que conduz a essa repetida frase é anacrónico. Lá por Jesus ter nascido numa cidade que hoje está na Palestina, isso em nada legitima dizer o que foi dito. Seria como dizer que Viriato era português, tendo ele nascido, se nasceu, antes de haver uma realidade a que se chama Portugal. Jesus era judeu e nasceu no território da província romana da Judeia, espaço histórico e cultural dos reinos de Israel e de Judá desde o séc. X a.C. A Palestina, como realidade política, será criada pelo Império Romano em meados dos séc. II d.C., depois das guerras contra os judeus, numa política de reorganizar o espaço e a sociedade da região.
A afirmação, mais que incorreta, induz o telespectador num erro que transporta para a forma como perceciona o atual conflito no Médio Oriente. É um erro grave que corresponde a um grosseiro anacronismo.
Mas o erro vai ainda mais longe, ao usar-se a figura do Papa Francisco como exemplo e autoridade. Após uma pesquisa nos sites de documentação do Vaticano, verificamos que o Papa muito disse sobre esta guerra fratricida, pedindo a paz, apelando ao auxílio humanitário à população da Palestina, e defendendo a solução dos dois Estados. Mas nunca disse que “Jesus era palestino”. É falsa a afirmação.
Mas todo o quadro de erro é levado mais longe: é apresentada uma imagem do Sumo Pontífice junto a um presépio em que o Menino Jesus está deitado sobre o típico lenço popularizado como imagem da luta palestiniana. Nesse momento, Maria João Tomás afirma: “O Papa Francisco envolvia o menino Jesus no Keffiyeh, lembrando que, acima de tudo, Jesus era palestino”.
Ora, o papa não estava a orar perante um presépio feito pelo Vaticano, mas sim a visitar uma exposição em que dois artistas, na sua liberdade criativa e de contestação, o decidiram fazer com o lanço assim. Mais, essa peça foi retirada pouco tempo depois de ter sido inaugurada, exatamente por conduzir a interpretações enviesadas. Nunca se poderá dizer que, com este presépio, que nada tinha a ver com a posição do Vaticano ou do Papa, o Papa fazia questão de todos os anos lembrar que Jesus era palestino. Muito menos que “O Papa Francisco envolvia o menino Jesus no Keffiyeh”.
Mais que erros grosseiros, que mostram como a necessidade de “encher chouriços” em direto é altamente lesiva, estamos perante um caso de uso de informação errada que apenas conduz o leitor menos esclarecido para uma radicalização através da disseminação de ódio.
A única questão que nos fica é uma: Maria João Tomás é verdadeiramente desconhecedora daquilo que fala, ignorante, ou há uma intensão premeditada naquilo que diz?
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
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