Israel reconheceu a Somalilândia e o mundo indignou-se com automatismo pavloviano. Mal soou o sino, a salivação foi diluviana. Governos, organizações internacionais, governantes de rosto sério e convicções elásticas precipitaram-se para denunciar um intolerável atentado à ordem internacional, entidade respeitável que, pelos vistos, só está em causa quando há judeus na equação.

A indignação foi particularmente ruidosa entre os países “palestinianistas” que passaram o ano de 2025 a reconhecer com entusiasmo militante um Estado que nunca existiu, nem antes, nem depois da formação do sistema solar, mas que, por alguma razão metafísica, passou a ser tratado como evidência empírica. Um Estado imaginário, sem fronteiras definidas, sem soberania efectiva, sem território indisputado, sem poder único reconhecido, sem governo funcional e, detalhe delicioso, que se negou obstinadamente a existir durante décadas, quando o podia fazer no minuto seguinte.

Pelo caminho, surgiram até especialistas televisivos do ISCTE e militantes “antissionistas” a garantir, que Jesus Cristo era “palestino”, seja lá o que isso for, num exercício de anacronismo tão chalupa que faria corar de vergonha um aluno da antiga 4ª classe. Nada como projectar categorias do século XXI sobre a Judeia romana para afundar no ridículo a causa antissemita do momento. A verdade histórica, como se sabe, é colonial, opressora, machista, dispensável e de geometria variável.

Já a Somalilândia existe mesmo. Não por acto de fé, flotilhas e manifestações de apoio ao terrorismo, mas por teimosia factual. Tem cerca de seis milhões de habitantes, maioritariamente do povo Isaaq. Tem fronteiras. Tem instituições políticas. Tem governo, polícia, moeda, eleições e uma notável estabilidade num dos bairros mais problemáticos do planeta. É independente há quase trinta anos. Tudo isto longe do radar dos especialistas profissionais da indignação selectiva.

A lista dos ofendidos é longa e muito informativa: Turquia, União Africana, China, União Europeia, Egipto, Arábia Saudita, Iémen, Sudão, Nigéria, Líbia, Irão, Iraque, Qatar e até a Rússia, conhecida campeã mundial da integridade territorial.

Sim, a mesma Rússia que reconhece como “Estados” entidades imaginárias nos territórios que vai abichando à falsa fé, mas que subitamente descobre o carácter sacro do direito internacional quando Israel diz que existe um estado que realmente existe há décadas.

No Conselho de Segurança, os Estados Unidos disseram o óbvio: se reconhecer Estados inexistentes é um gesto de elevada moralidade, por que motivo reconhecer um Estado que existe é assim tão mau? A pergunta caiu mal. A hipocrisia não gosta de espelhos.

Convém recordar, para quem anda distraído, que a Somalilândia já existia antes. Era a Somalilândia Britânica, antes de se fundir com a Somália italiana num casamento político que terminou em violência doméstica. A Somália é hoje um Estado falhado, dominado por islamistas, clãs armados e senhores da guerra. A Somalilândia saiu da relação e recomenda-se.

Mas então por que razão Israel reconheceu que existe um estado que existe mesmo?

Além de se limitar a constatar uma realidade objectiva, por duas razões muito irritantes para os profissionais do ódio a Israel.

A primeira é pedagógica.

Israel expôs com cruel finura a hipocrisia dos governos que andam a fazer “reconhecimentos” vazios, simbólicos, ruidosos e inúteis, movidos não por acrisolado amor aos palestinianos, mas por hostilidade contumaz ao Estado Judeu. Reconhecer a Somalilândia é espetar o dedo na dilatada empáfia moral dos governos da Espanha, Portugal, Austrália, Irlanda e outros da mesma manada, desde a dona Greta ao Engº Guterres, passando pelos pírulas do costume.

A segunda razão é estratégica. A Somalilândia está precisamente onde dói, à entrada do Mar Vermelho, hoje transformado em couto privado dos Houthis, sob o alto patrocínio do Irão. A cooperação com Israel na agricultura, saúde, tecnologia e economia será, como não podia deixar de ser, acompanhada por uma cooperação, discreta mas eficaz, na área da segurança. Sem anúncios bombásticos e bandeiras, apenas radares, vigilância, informações e capacidade de resposta.

Os Houthis e o Irão deixam de ter carta branca na região e isso entristece os aiatolas. As manobras turcas, os movimentos terroristas da chamada “Resistência” e as rotas de abastecimento para o Hamas, passam a ser escrutinadas com lupa. E os aviões israelitas deixam de vir de longe, dependentes de reabastecimentos em voo e de ginásticas logísticas. Ficarão mesmo ali ao lado, prontos a distribuir bom senso sobre Sana’a.  O que explica boa parte da súbita indignação moral.

É também revelador quem não se indignou. Os Emirados Árabes Unidos, que operam um porto militar na Somalilândia, Marrocos, Etiópia, e, de um modo geral, os governos que, em vez de slogans, fantasmas coloniais e retórica inflamada, governam com mapas e pragmatismo.

A reacção inflamada ao reconhecimento da Somalilândia por Israel, mostrou também que, no mundo contemporâneo, a realidade conta menos do que a narrativa, e que a coerência é um bem escasso.

Israel, como de costume, fica com o odioso de dizer em voz alta aquilo que todos sabem em silêncio. E os seus alucinados críticos, como de costume, confirmam que odeiam menos as injustiças do mundo do que o país que insiste em sobreviver ao seu ódio.

P.S: Já agora, convém começar a olhar aqui para o outro lado do Mediterrâneo, para a Argélia, parceira de cama de Moscovo e que tem também uma região, a Cabília, com tudo para ser um estado.



Deixe uma Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress