Uma retrospectiva integral, a partir do dia 8, devolve-nos João César Monteiro. O cineasta inteiro, para além do cliché. “Frágil e cruel, um prestidigitador a desviar o escatológico em direcção ao sublime. Precisamos, espectadores, do nosso património”, escreve Vasco Câmara, que falou com actores, produtores e outros cúmplices do realizador desaparecido em 2003.
Nos seus depoimentos, nem sempre o mito coincide com a imagem pública do realizador.
“O João era muito frágil, sim, na sua sede de absoluto, de pureza, as virtudes antigas, e se calhar por isso, por não as conseguir atingir, carregava no oposto”, propõe Luis Miguel Cintra, actor e encenador.
“Era muito misterioso. Era capaz da maior crueldade e, ao mesmo tempo, da maior delicadeza. A minha relação com ele era sempre maternal. Metia-o na ordem. Ao mesmo tempo ele insistia que eu era uma puta [risos]. Insultar-me fazia parte do nosso jogo. Tinha o maior respeito por ele porque sentia que havia ali uma poesia, uma genialidade”, diz a actriz Manuela de Freitas.
Margarida Gil, realizadora, ex-companheira, assistente nos filmes dos anos 70, põe as coisas assim: “O João gostava de passar para o outro lado. E o outro lado podia ser a loucura. Havia um lado borderline. Ligado a uma dimensão infantil de omnipotência, de se comparar a Deus.”
São as vésperas do início de uma retrospectiva integral da obra do realizador da Figueira da Foz (1939-2003), com cópias restauradas digitalmente pela Cinemateca Portuguesa, que a Medeia Filmes programa a partir de 8 de Janeiro no cinema Nimas, em Lisboa. Uma semana depois, a 15 de Janeiro, a retrospectiva chega ao Teatro Campo Alegre, no Porto. Haverá extensões em Setúbal, Coimbra, Figueira da Foz e Braga.
“Eu mostro — e essa é a minha política — gente que quer reparar o mundo, que não quer deitar fora o bebé com a água do banho. E para reparar alguma coisa é preciso compreendê-la, perceber como funciona. Para eliminar, não, porque basta apagar. Quando se fica muito tempo sem empregar um saber, ele perde-se. Acho que o mundo está em vias de deixar de saber reparar as coisas”, diz, em entrevista, Christian Petzold, realizador alemão, autor de Miroirs No. 3, agora nas salas.
“Neste livro falo da violência do meu irmão, do seu alcoolismo, de como batia nas mulheres, de como tentou matar-me quando descobriu que eu era homossexual, de ele votar na extrema-direita. Perdoar não significa varrer para o lado ou apagar porque se o fizéssemos, não perdoaríamos. O que tudo isto me ensinou é que a literatura tem que ver com o perdão.” É o escritor francês Édouard Louis a falar sobre O Colapso, livro com que põe termo ao “ciclo familiar” da sua obra.
Incompreendida e genial, de têmpera folk e eternamente moderna, a Banda do Casaco é um dos pontos mais altos da música portuguesa. No desaparecimento do seu maestro, Nuno Rodrigues, regressamos a ela.
Também neste Ípsilon:
— Música: Mário Lopes conversa com Humberto sobre o álbum Mau Teatro; recensões a Bleeds, dos Wednesday, e a três discos com o dedo de Jonathan Uliel Saldanha.
— Livros: A Minha Vida, autobiografia de Lev Trótski; a leitura de Fedro pelo filósofo João Constâncio, que entrevistámos; recensões a Um Saco de Ossos, de Maria Lis, e Textos sobre Cultura, de Antonio Gramsci.
Boas leituras!
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