O português baleado no dia 24 de dezembro por elementos do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), alegadamente depois de ter tentado atropelar os agentes, teve alta hospitalar e foi transferido para um centro de detenção. “A Secção Consular em Washington está em contacto direto com o cidadão nacional em apreço, que à data se encontra detido mas ainda não foi presente a juiz, bem como com a respetiva família”, disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros ao Observador.
Tiago Alexandre Sousa-Martins, que esteve hospitalizado no Centro de Trauma de Maryland, em Baltimore, está agora no Centro de Detenção Caroline, no estado da Virgínia, segundo a informação da base de dados de detidos do ICE. De acordo com o Departamento de Segurança Interna, Sousa-Martins está nos EUA há quase 17 anos, desde que o seu visto expirou em 2009.
EUA. Baleado imigrante português sem documentos que terá tentado atropelar agentes
O Ministério dos Negócios Estrangeiros garante que está a acompanhar a evolução da situação: “Os serviços do MNE e a Secção Consular da Embaixada de Portugal em Washington estão a acompanhar a situação do cidadão português ferido num incidente com os serviços de imigração dos Estados Unidos, no dia 24 de dezembro do ano passado”.
Na véspera de Natal, o português foi intercetado durante uma “operação de fiscalização direcionada” do ICE na localidade de Glen Burnie, no estado de Maryland. Em comunicado, o Serviço de Imigração e Alfândega afirmou que foi pedido a Sousa-Martins, que não tinha documentos, que desligasse o motor do carro em que seguia, mas este se recusou. “Atirou a sua carrinha diretamente sobre os oficiais ICE”, descreveu Tricia McLaughlin, secretária assistente do Departamento de Segurança Interna (DHS). “Pareceu que ele estava a tentar atropelá-los”, acrescentou.
Os agentes dispararam então contra o carro, que embateu contra uma árvore, e acabaram por atingir Sousa-Martins. O DHS publicou imagens que mostram os danos. Na publicação alega, à semelhança do que também divulgou o ICE, que no mesmo veículo seguia outro imigrante, Salomon Antonio Serrano-Esquivel, de El Salvador, que também ficou ferido. O homem estaria ilegalmente nos EUA, segundo o Departamento de Segurança Interna.
Today, @ICEgov officers were conducting a targeted immigration enforcement operation in Glen Burnie, Maryland. Agents positively identified the driver of a van as Tiago Alexandre Sousa-Martins, an illegal alien from Portugal. In the passenger seat was Solomon Antonio… pic.twitter.com/M8tdlK39vx
— Homeland Security (@DHSgov) December 24, 2025
A versão do incidente é contestada pela defesa de Serrano-Esquivel. Ao Baltimore Banner, o advogado, Alex Major, revelou que o cliente lhe contou que estava algemado num carro do ICE quando os agentes de imigração seguiram no encalço de Sousa-Martins. O cunhado de Serrano-Esquivel disse ao mesmo jornal que o salvadorenho ficou ferido no pescoço e no tornozelo porque não conseguiu segurar-se quando o carro do ICE bateu enquanto estava algemado.
Políticos locais têm pedido explicações ao ICE sobre o que aconteceu no dia 24 de dezembro. “Em resposta ao tiroteio envolvendo agentes do ICE na comunidade de Parke West, em Glen Burnie, na manhã da véspera de Natal, tenho mais perguntas do que respostas”, lamentou a vereadora Allison Pickard. “A nossa comunidade merece respostas e um processo claro e transparente para a investigação e divulgação dos resultados, bem como a garantia de que as táticas se vão focar mais numa desescalada, a fim de proteger os vizinhos”, escreveu num comunicado no Facebook.
Apesar de o nome de Serrano-Esquivel não constar no site do ICE, a família adianta que o salvadorenho está atualmente no mesmo centro de detenção que o português, o que, segundo noticiaram os meios de comunicação regionais, “ultrapassou a sua capacidade máxima” no início de novembro do ano passado. “A população média diária de detidos no Centro de Detenção de Caroline era de 346, de acordo com dados compilados pela TRAC Immigration. A capacidade máxima da unidade é de 336 pessoas”, lê-se num artigo do Wric 8news, afiliado da emissora ABC.
Sousa-Martins não foi ainda presente a um juiz e, de momento, o MNE não sabe se já está a ser acompanhado por um advogado. Por lei, os indivíduos detidos em casos de imigração têm direito a um representante legal, mas a justiça norte-americana não é obrigada a facultá-lo. “O governo não tem obrigação de fornecer um advogado. Este é um ponto importante, visto que criminosos geralmente recebem representação gratuita na forma de defensores públicos. Os detidos pelo ICE não têm direito a um defensor público, portanto, precisará de organizar a sua própria defesa legal e contratar um advogado”, lê-se, por exemplo, na página do Devore Law Group. Os detidos têm direito, no entanto, a pedir uma lista de advogados pro bono ou de baixo custo.
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