A Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra vai seguir com um “processo de averiguações” ao caso de uma utente com doença oncológica que, na quinta-feira passada, teve de deitar-se no chão do serviço de urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra por não lhe ter sido dada uma maca. Apesar de, ainda no sábado, a ULS de Coimbra ter desmentido que a doente tenha permanecido deitada no chão por falta de macas, o processo será aberto na segunda-feira e contará com o “acompanhamento próximo do provedor do utente e do serviço de humanização”, afirmou ao PÚBLICO o ainda presidente do Conselho de Administração da ULS de Coimbra, Alexandre Lourenço, que disse nada ter mais a acrescentar aos comunicados já emitidos.
A situação foi denunciada nas redes sociais pelo filho da utente, que é acompanhada na ULS de Coimbra. Segundo João Gaspar, a mãe, que tem um cancro na zona abdominal e estava “com muitas dores e muitos vómitos”, foi colocada numa cadeira de rodas e não numa maca como tinha solicitado. Perante o desconforto da mãe, João Gaspar e uma tia-avó que o acompanhava decidiram deitá-la no chão. “A minha mãe gritava de dores. Não estava calma como dizem. Fomos nós que a pusemos no chão porque não aguentava estar naquela posição”, conta ao PÚBLICO. Perante toda a situação, acabou por ser pouco depois colocada numa maca e atendida. Realizou exames complementares de diagnóstico, tendo tido alta sete horas depois.
Durante este sábado, já depois de o relato de João Gaspar estar a circular pelas redes sociais, a ULS de Coimbra emitiu, ao início da tarde, um comunicado no qual anunciava que iria abrir “um processo de averiguações, com o objectivo de apurar, com rigor e serenidade, todas as circunstâncias associadas ao caso”.
Perto das 20h, emitiu um novo comunicado, no qual referia que, à chegada ao hospital, “foi verificado que a doente se encontrava calma, orientada e capaz de se sentar, tendo sido disponibilizada uma cadeira de rodas, com apoio de um segurança”. Nega ainda que essa decisão tivesse sido tomada por falta de macas no serviço.
João Gaspar disse ao PÚBLICO não ter sido ainda contactado pelo hospital para prestar esclarecimentos sobre esta situação. Afirma que o relato que fez nas redes sociais foi “ponderado” e que não pretende ser uma “acusação” aos profissionais de saúde que lá estavam. “Não acho sequer que a culpa seja deles honestamente”, diz.
O relato e a fotografia da doente deitada no chão com um cobertor por baixo têm gerado indignação, sobretudo depois de uma semana em que se registaram três mortes por alegado atraso no socorro, seja por falta de ambulâncias ou por estas estarem retidas devido à utilização das suas macas nos hospitais.
O Bloco de Esquerda pediu esclarecimentos ao Governo sobre o caso, exigindo explicações e questionando sobre que medidas pretende tomar para acabar com a falta de macas nas urgências hospitalares. Numa nota assinada pelo deputado Fabian Figueiredo, o partido refere que este episódio, “que atenta contra os mais elementares direitos dos utentes e contra a dignidade humana, não é um caso isolado de pressão sobre o SNS, mas representa um pico de degradação das condições de assistência que não pode ser normalizado”.
O Bloco de Esquerda critica ainda a falta de condições num hospital de referência, alerta para a necessidade de reforço do investimento no SNS e pede esclarecimentos sobre o número de doentes admitidos na urgência naquele período, bem como sobre o reforço de macas, camas e profissionais nesta unidade de saúde.
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