Há os dias úteis, o que supõe que haja outros que serão inúteis. E o voto útil, o que nos leva a imaginar que haverá votos que são um desperdício. A utilidade pública, e as utilidades domésticas às quais se opõem, porventura, a inutilidade pública ou as inutilidades domésticas (seja lá o que isso for).

Às vezes, talvez seja importante perceber o que é o útil. Empiricamente, o útil torna a vida mais fácil. E mais simples, claro. Mais eficaz e empreendedora. Porque o útil nos ajuda a perceber como ela funciona. E, com isso, a anteciparmo-nos à surpresa, a fintar o improviso, a controlar a vida ou a actuar sobre ela. A resolver problemas e a encontrar soluções. O útil ajuda a perceber para que é serve o que se aprende. Ou de que forma um conhecimento se transforma em utensílios ou num instrumento.

O útil é uma escolha. Um assomo de sabedoria. Liga e religa (de religare, de onde surgiu a palavra religião). O útil opõe-se ao desligar. É ponte e é síntese. Uma equação para a verdade. Útil será sinónimo de descortinar, de discernir ou de generosidade. Sobretudo quando a forma como somos úteis para o crescimento dos outros contribui para a utilidade que eles têm no nosso.

Só que talvez vivamos num mundo que confunde o útil com o utilitário. O útil pressupõe a empatia e a dádiva. O utilitário a manipulação. O útil resgata para a benfeitoria e para a bondade. O utilitarismo prende os outros à gula do nosso sucesso. O útil supõe o repartir e o receber. O utilitário o dividir, a cobiça e a usura. O útil torna-nos mais simples. O utilitário faz-nos fingidores.

Todos deixamos que útil e utilitário se confundam. Como deixamos que se tome como adquirido que o número é mas útil que a palavra. Agir mais útil que sonhar. Ou que a engenharia tem mais utilidade que a poesia.

E é aí que tudo se confunde. A poesia destrinça o útil do utilitário. Serve para pensar sobre o bolores da alma. Sobre as coisas que sentimos mas que interpretamos como traquitanas ou desperdícios. Ou sobre tudo o que se amontoa na despensa da memória. E que podendo, tudo junto, ser as janelas de onde se vê o mundo para lá do mais além, vive amedrontado, como se o melhor de nós servisse, sobretudo, para fugir.



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