Há aquele ditado “vão-se os anéis e ficam os dedos”, há aquela história da Tia Verde-Água, que tinha dez anões que a ajudavam em tudo, e há o início do meu fim-de-semana. Passo a explicar: em tempos a empregada doméstica vinha todos os dias da semana, até chegar a troika, a empregada emigrar, depois veio outra, mas não era a mesma coisa. “Vão-se os anéis e ficam os dedos”, dedos estes que eram os anões da Tia Verde-Água, eram o seu segredo para ter a sua casa organizada e são os meus ajudantes ao sábado de manhã. São eles que me ajudam a ir à praça, a arrumar, a fazer limpezas e cozinhar. Mas não andam sozinhos, têm por companhia os ouvidos — que não faziam parte do conto tradicional, que estudei no 5.º ano e que tinha como objectivo ensinar-nos a ser organizados. Os ouvidos servem para consumir podcasts.
Na praça, a manhã começa com o Extremamente Desagradável, de Joana Marques, e Bem-vindo a mais um episódio, de Manuel Cardoso, às vezes dou uma gargalhada e as velhotas que esperam pela sua vez para serem atendidas olham para cima (sou só ligeiramente mais alta que a maioria das minhas companheiras de compras). Já em casa, passo para o Refeitório de Joana Barrios — isto enquanto ando pela cozinha. As arrumações arrancam invariavelmente ao mesmo tempo que o Dona da Casa, de Catarina Marques Rodrigues — uma coincidência — e continuam com a Lei da Paridade, de Adriana Cardoso, Maria Castello Branco e Leonor Rosas — uma ironia! Depois, aparecem-me uns podcasts que o algoritmo acredita que eu vá gostar como o Isso Não se Diz, de Bruno Nogueira ou Um Género de Conversa, de Patrícia Reis e Paula Cosme Pinto.
Isto dos podcasts serve precisamente para vivermos ainda mais enfiados na nossa bolha. No meu caso, entre a actualidade, o humor, a política e o feminismo (que é política, como sabem). À excepção de Manuel Cardoso e Bruno Nogueira, ouço sobretudo mulheres. Por aqui, no Ímpar, também reinam as mulheres no estúdio do PÚBLICO. Há já algum tempo que temos dois podcasts — o Cultas e Vinho Verde, com Inês Meneses e uma convidada semanal (com a particularidade de serem mulheres cultas e bebericarem um vinho verde enquanto conversam); e o Birras de Mãe, com Ana e Isabel Stilwell, filha e mãe dão voz às suas birras, e por vezes também têm um convidado em estúdio (aqui, os homens podem entrar! Esta semana com Margarida Gaspar de Matos). No meu caso, se não as conseguir ouvir durante a semana, no dia a que saem — à quinta, as Stilwell, e à sexta, a Inês Meneses —, ouço-as ao sábado.
Há duas semanas, o nosso leque de podcasts estendeu-se a mais uma mulher, a jornalista Inês Duarte de Freitas, com A Vida não é o que Aparece — à terça-feira conversa com uma celebridade sobre temas muito diferentes, mas que partem de um mesmo lugar, aquilo que essas pessoas publicam (ou não) nas suas redes sociais, entre o que aparece, o que parece e o que é. A primeira conversa foi com a actriz Rita Pereira — confesso que me surpreendeu, talvez o surpreenda a si, leitor, se for preconceituoso como eu… A segunda foi com Wandson Lisboa, um jovem com milhares e milhares de seguidores, de quem eu nunca tinha ouvido falar — a idade começa a pesar… —, mas que vale a pena ouvir. Na próxima terça, será com a psicóloga sexóloga Tânia Graça.
E já que estamos em maré de podcasts — sinceramente apetece-me pouco escrever sobre uma semana que foi tomada pelos ficheiros Epstein, que envolvem tudo o que é gente rica, privilegiada e influente, que em comum têm a crença na inatingibilidade, de acreditarem que são tão superiores a qualquer um de nós, que as suas vidas e o seu prazer valem tudo, mesmo tudo. Há muitos, muitos anos, lembro-me de ter ido à Cinemateca — seria um ciclo de cinema italiano ou especificamente sobre Pasolini? Não sei —, e de ter visto Saló ou os 120 dias de Sodoma. A ilha, as festas e o modus operandi de Epstein fazem-me lembrar este filme onde um grupo de fascistas submete adolescentes, rapazes e raparigas, a 120 dias de sofrimento como escravos sexuais. Lembro-me de ter saído da sala em silêncio e de me sentir nauseada. É assim que fico quando leio mais uma história do ex-príncipe André, de Bill Gates ou da aparente futura rainha da Noruega, Mette-Marit, cujo filho está a ser julgado por violação. No P2 deste domingo, esmiuçamos as ligações de Epstein.
E, dizia no início do parágrafo anterior, já que estamos em maré de podcasts… Também não me apetece falar deste tempo que nos mata física e psicologicamente — falámos com a pediatra Mónica Cró Braz sobre cinco mitos sobre a saúde das crianças no Inverno —, sobre um tempo que nos faz sentir impotentes. Ainda assim, escrevemos sobre a tempestade. Sabem aquelas pessoas que querem tanto, tanto ajudar, que depois metem-se a elas e aos outros em apuros? Pois bem, para elas e não só, fizemos um guia de boas práticas para ser solidário. Também Ana e Isabel Stilwell deram pistas sobre como ajudar. Ana Lázaro, que é da região de Leiria, pede para que lhe expliquem como se tivesse seis anos sobre como é que chegamos aqui, e Madalena Sá Fernandes reflecte sobre a emergência climática e a inacção governamental. A jornalista Rita Caetano junta alguns conselhos para os adultos falarem com as crianças sobre o medo e as tempestades e a psicóloga Vera Ramalho escreve sobre o impacto psicológico da tempestade Kristin. Entretanto, já vamos na Marta e todos os conselhos continuam válidos.
E, quero mesmo terminar com os podcasts do PÚBLICO porque há outros que chegam às minhas manhãs de sábado. A saber: No Escuro, uma conversa de Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara sobre cinema (mas não só, aprendo sempre qualquer coisa) e a Biblioteca de Bolso, onde Inês Bernardo e José Mário Silva têm um convidado ligado aos livros, esta semana com uma mulher maravilhosa, a editora Guilhermina Gomes. Escusado será dizer que todos estes podcasts podem ser ouvidos no site do PÚBLICO ou nas plataformas habituais. E não se esqueça de ir votar!
Boa semana!
PS: Para quem lê esta newsletter, em baixo estão outros temas Ímpar que destaco nesta semana; para quem nos lê no site, é só clicar aqui.

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