Se fosse verdade eu não te dizia, porque a verdade ou aborrece ou assusta, e no fundo é só o ponto de vista de um zarolho, e se nem sabes bem quem és nem em que sala do mundo te sentaste, não venhas para aqui à procura de mapas, não me peças norte nem salvação, a culpa não é minha se te limitas a contemplar os dados depois de lançados, se acreditas apenas na tua versão da jogada, se te conformas com verdades inequívocas como quem se tapa com um jornal velho.
A culpa é tua por te pores a jeito, por viveres de mãos cruzadas sobre o peito nessa posição de morto que ainda respira, não procures nos outros a bússola do teu desnorte, a saliva alheia não te ressuscita, meu amigo — posso chamar-te amigo? — talvez aprendas mais com o cheiro breve de uma rosa, ou com a água da chuva a escorrer-te pela gola adentro, do que com todos os manuais da ordem.
Larga as certezas, sai à rua com os dentes lavados, afiados, prontos, morde as possibilidades como quem rói um osso, és um cão, devias ser um cão, a tua vida seria mais simples se o fosses, tu que só sabes palrar inutilidades em nome da ordem enquanto vives numa desordem sem nome.
Devias antes ladrar à porta da Assembleia, entre as estátuas da Prudência, da Justiça, da Força e da Temperança, ladrar-lhes às canelas de pedra, devias chamar-te Lex, e ficar ali de guarda a coisa nenhuma, a uivar à noite para um país que passa sem te ver. E se te escorraçarem à força da paulada, dá o focinho às balas, resiste sempre, mesmo que doa, sobretudo se doer, sem seres um herói, claro, porque um cão nunca é um herói, é só um animal que faz a coisa certa sem querer, que escolhe os seus amigos por instinto e vive bem sem ter um dono.

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