“A mulher ainda tem de aprender a olhar para o seu corpo”

Nos últimos anos, os casos de cancro do endométrio têm vindo a crescer. É o que constata Cristina Frutuoso, médica ginecologista há 28 anos que, desde 2007, se dedica à ginecologia oncológica. Apesar de o diagnóstico ser geralmente mais precoce, “ultimamente, temos tido casos mais agressivos do ponto de vista biológico e um aparecimento de casos avançados”, afirma. Já a incidência dos cancros do ovário e da vulva está relativamente estável, enquanto há uma diminuição do número de casos do cancro do colo do útero.

O cancro do ovário continua a ser o mais letal, sendo que o cancro do endométrio é “aquele que melhor controlamos”. No caso do cancro do colo do útero, Cristina Frutuoso refere que “as mulheres que cumprem o rastreio têm o diagnóstico das lesões numa fase pré-maligna ou numa fase de cancro inicial. Por outro lado, as mulheres que não seguem este programa de rastreio, chegam numa fase de cancro muito avançada.”

3 perguntas a Cristina Frutuoso

Qual é a incidência do cancro ginecológico e, mais especificamente, do cancro do endométrio?

A incidência do cancro do endométrio é crescente. É um tipo de cancro no qual o diagnóstico é mais precoce, habitualmente porque as mulheres perdem sangue e, como tal, recorrem ao médico. O cancro do ovário tem uma incidência mais ou menos estável e o cancro do colo do útero tem vindo a diminuir pelos programas de rastreio e, mais recentemente, pela vacinação. É ainda preocupante a acessibilidade e falta de adesão ao rastreio. O cancro da vulva está mais ou menos estável e aparece tipicamente em idades mais avançadas – a doença em idades mais precoces está associada à infeção por HPV. É muito frequente o diagnóstico em fases avançadas. A vulva é um órgão externo e a mulher ainda tem de aprender a olhar para o seu corpo.

Em que idades é mais frequente o aparecimento de cancro do endométrio e quais são os sintomas aos quais as mulheres devem estar atentas?

O carcinoma do endométrio é tipicamente um cancro que aparece depois da menopausa e o sinal mais frequente é a hemorragia. A hemorragia depois da menopausa é sempre anormal. Ainda que em 90% dos casos não esteja associada a cancro, qualquer mulher na menopausa que tenha hemorragia deve procurar o seu médico e perceber porque é que isso aconteceu. Pode também acontecer antes da menopausa, sobretudo em mulheres com fatores de risco: o excesso de peso e aquilo que habitualmente lhe está associado, como a diabetes e hipertensão. O excesso de peso e o excesso de exposição aos estrogénios constituem fatores de risco para o carcinoma do endométrio. Na mulher antes da menopausa, manifesta-se habitualmente com um padrão de hemorragia anormal, que, na maior parte dos casos não corresponde a doença maligna, mas deve ser esclarecida.

Quais são as maiores preocupações em relação a este tipo de cancro?

O cancro do endométrio não é aquele que mais nos preocupa precisamente por ter este sinal de hemorragia que leva, habitualmente, as mulheres a ir ao médico. Porém, até há pouco tempo, antes da imunoterapia, não havia solução para o cancro avançado do endométrio. Já o cancro do ovário tem uma manifestação muito inespecífica, porque as mulheres têm queixas abdominais, ou têm queixas urinárias, alteração do trânsito intestinal, ou enfartamento. É importante que quer a doente, quer o próprio médico assistente estejam alertas para esta possibilidade. Temos à volta de 600 casos de cancro do ovário por ano em Portugal, ou seja, é um tumor pouco prevalente. A maioria das mulheres que têm estas queixas que eu citei não vai ter um cancro do ovário, mas tem de se colocar esta hipótese se as queixas surgem de novo e se mantém. Isto é literacia para a saúde.

Há também estudos que mostram que as mulheres se atrasam na ida ao médico, sobretudo pela falta de acessibilidade. Uma mulher que tem um contacto regular com o seu médico de família ou com o ginecologista, procura mais facilmente ajuda.

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