Mau tempo: Forças Armadas dão conferência de imprensa após críticas de Marcelo | Tempestade Kristin


A porta-voz das Forças Armadas justificou esta terça-feira a necessidade de uma conferência de imprensa sobre o apoio militar às populações afectadas pelas tempestades com declarações do Presidente da República de que houve “falhas de comunicação” por parte dos militares. A actuação das Forças Armadas no apoio às populações afectadas pela tempestade Kristin tornou-se “mais robusta” a partir de dia 30 de Janeiro através do contacto directo com as autarquias, afirmaram os porta-vozes militares.

“Estamos a ir ao encontro das ordens do comandante Supremo das Forças Armadas e, portanto, estamos a aumentar os nossos momentos para esclarecer tudo o que for necessário esclarecer e transmitir as mensagens de confiança e tranquilidade”, defendeu a tenente-coronel Susana Pinto.

A militar falava durante a primeira conferência de imprensa organizada pelas Forças Armadas, na Academia Militar, concelho da Amadora, distrito de Lisboa, com a presença dos porta-vozes dos três ramos, com o objectivo de fazer um ponto de situação dos apoios prestados pelos militares após as tempestades que têm assolado o país.

No passado dia 6, o Presidente da República e comandante Supremo das Forças Armadas contestou que as Forças Armadas tenham chegado muito tarde ao terreno depois da tempestade Kristin, mas considerou que a falta de um porta-voz gerou a ideia de que estavam ausentes.

“Comunicados que ninguém lia”

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, o que parece ter ocorrido foi “um problema de comunicação“, em que “o facto de não haver um porta-voz oral, e haver comunicados que ninguém lia, ninguém sabia, não eram conhecidos, é que levou à interpretação de que as Forças Armadas não estavam no terreno”.

“Foi tornado público que a comunicação que estávamos a fazer através de comunicados de imprensa, que até eram bastante replicados nas notícias, não estava a ser suficiente. Mas eu devo dizer que os comunicados de imprensa estavam a funcionar, na medida em que houve muitas notícias que replicaram as informações que eram transmitidas”, defendeu hoje a tenente-coronel Susana Pinto.

A militar defendeu que a comunicação das Forças Armadas “nunca esteve tão descentralizada”, uma vez que o EMGFA deu orientações aos ramos para que os chefes de equipa no terreno falassem directamente com a comunicação social. “Mesmo assim, o nosso Comandante Supremo entendeu que não era suficiente”, salientou, justificando a conferência de imprensa.

Nesta conferência de imprensa, a porta-voz do Estado-Maior-General das Forças Armadas (EMGFA), tenente-coronel Susana Pinto, adiantou que os militares estão no terreno desde o dia 28 de Janeiro, primeiro dia da tempestade Kristin.

A militar salientou que as Forças Armadas “são agentes de protecção civil secundários no sistema de protecção civil”, e o primeiro pedido que receberam da Protecção Civil foi no dia 28 às 9h00, tendo respondido às 13h00 do próprio dia.

No dia 29 de Janeiro, às 10h30, foi implementado o estado de prontidão “azul”, que implica uma resposta de 24 horas.

O porta-voz da Marinha, comandante Sá Granja, adiantou que existiram dois momentos na actuação das Forças Armadas: um primeiro com pedidos que chegaram via Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) e um segundo “que foi muito mais robusto”.

Esta robustez na resposta explica-se pelo facto de ter sido dada autorização para um “contacto directo” entre os ramos das Forças Armadas e os municípios, colocado em prática a partir do dia 30.

“Essa autorização do apoio dos municípios e do contacto directo dos ramos das Forças Armadas com os próprios municípios decorre de uma alteração ou de uma nova linha de acção que foi determinada a nível governamental”, acrescentou, sem detalhar.

A partir desse momento, de acordo com o porta-voz da Marinha, o número de meios, de efectivos e de acções no terreno “aumentou substancialmente”.

Como o PÚBLICO escreveu, na quarta-feira, 21 de Janeiro — dia a seguir à tempestade Kristin, que provocou cinco vítimas mortais, varreu a região Centro do país com rajadas que chegaram a 200 km/hora e destruiu milhares de infra-estruturas — a Protecção Civil apenas solicitou ao Exército um destacamento de engenharia com “a missão de limpeza de itinerários e estradas, visando restabelecer a mobilidade local e apoiar as operações no terreno”. Esse destacamento era composto por quatro militares e três viaturas e foi enviado para a região de Ferreira do Zêzere. Nesse este foi o único empenhamento de militares do Exército.

Nos dias a seguir à tempestade, vários autarcas e populações queixavam-se de não terem a ajuda necessária para fazer face à destruição causada pela Kristin, que pode ter sido a tempestade mais forte registada em Portugal nos últimos anos.

Nos dias após a tempestade, e após visitar alguns dos concelhos mais atingidos, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que, “à primeira vista”, o Governo poderá não ter tido uma percepção exacta da dimensão dos impactos da tempestade, o que pode ter explicado que tenha tardado a activar todos os meios que tem ao seu dispor para fazer face a uma calamidade desta natureza.

O primeiro-ministro Luís Montenegro rejeitou essa leitura. “Foi feito tudo aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão, atempadamente, para enfrentar uma adversidade cuja evolução, essa, não era antecipável por ninguém”, afirmou, sem fechar a porta a uma futura avaliação da actuação do Governo, como foi sugerido pelo Presidente da República.

Texto actualizado às 20h56 com mais informação e novo título



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