Quando a água entra pelas casas adentro, não leva apenas móveis, paredes, alimentos ou outros mantimentos. Leva pedaços de vida.
Entre a lama, o choro ou o silêncio, ouvi repetidamente a mesma frase: “Perdi tudo”. Mas quando me explicavam esse “tudo”, raramente falavam de eletrodomésticos ou sofás. Falavam de fotografias. Das únicas que tinham dos conjugues ou dos pais já mortos. Dos álbuns dos filhos pequenos. Dos livros de receitas que atravessaram gerações, escritos à mão, marcados de tempo e de memórias. Esses objetos não são coisas. São identidades. São continuidade. São histórias de vida. E quando desaparecem, o que fica é um vazio difícil de nomear.
Estive com comerciantes que não conseguiam regressar aos seus estabelecimentos para não se confrontarem com a destruição. Com famílias de habitações evacuadas que pediam, com urgência quase desesperada, para voltar rapidamente a casa, apesar do perigo ainda presente. Com outras que não pediam nada de concreto: apenas um espaço para abraçar e chorar, para falar, para contar as suas histórias de vida, como quem tenta garantir que elas não se perdem também.
Nuno Ferreira Santos
É neste ponto que importa dizê-lo com clareza: as tempestades e inundações são eventos potencialmente traumáticos, não apenas acontecimentos meteorológicos extremos. São experiências que interrompem a previsibilidade do mundo, abalam a sensação de segurança e colocam as pessoas numa luta simultaneamente física, emocional e social.
Está no terreno uma bolsa de intervenção psicológica em situação de catástrofe, da Ordem dos Psicólogos, articulada com a cadeia de comando e com as equipas do Centro de Apoio Psicológico de Intervenção em Crise (INEM), e dos serviços de Emergência e Proteção Civil (ANEPC). Em contextos de emergência, a coordenação não é burocracia, é cuidado. E improvisações bem-intencionadas, mas desarticuladas, podem fazer mais mal do que bem. A integração da resposta operacional é decisiva.
No princípio, aquando da inundação, da evacuação e do resgate, o objetivo não é tratar, é proteger. Não é elaborar, é estabilizar. Falamos de primeiros socorros psicológicos: ajudar a pessoa a recuperar a respiração, a orientação, a ligação ao presente. Reduzir o pânico, a confusão, a sensação de ameaça permanente. Criar condições mínimas para que a experiência não se transforme, desde logo, num trauma consolidado.
Quando a água recua, começa o tempo mais longo, mais silencioso e frequentemente mais negligenciado: falamos da intervenção psicológica e psicossocial em proximidade com a comunidade. É aqui que emergem os lutos. Não apenas pelas pessoas, mas pelas casas, pelas aldeias, bairros e ruas, pelos modos e histórias de vida. É aqui que o corpo abranda e a mente começa a sentir. É aqui que surgem a insónia, a irritabilidade, a tristeza persistente, o medo constante de que tudo volte a acontecer.
As trajetórias de recuperação não são lineares nem iguais para todos. Algumas pessoas recuperam rapidamente. Outras precisam de meses ou anos. O que sabemos, com base na evidência científica, é que a ausência de respostas estruturadas nesta fase aumenta o risco de sofrimento psicológico prolongado, de agravamento das desigualdades sociais e de fragmentação comunitária.
Por isso, esta fase não se resolve com respostas pontuais nem exclusivamente com indivíduos isolados. Exige intervenção comunitária, proximidade, continuidade e trabalho em rede. Exige o envolvimento ativo das câmaras municipais, das estruturas e serviços de saúde, da segurança social, das escolas e das organizações locais. Exige psicólogos a trabalhar com as comunidades afetadas.
Há, contudo, uma dimensão ainda mais estrutural e persistentemente ignorada: o “antes”. As alterações climáticas deixaram de ser um cenário futuro. São uma realidade presente e cumulativa. Tempestades mais intensas, cheias mais frequentes e eventos extremos sucessivos farão parte do nosso horizonte coletivo.
Perante isto, a pergunta política central já não é apenas “como reagimos?”, mas “como preparamos as pessoas e as comunidades?”
Preparar é investir na promoção da resiliência psicológica e psicossocial fora dos eventos críticos. É promover literacia em saúde mental. É fortalecer redes comunitárias. É integrar a dimensão psicológica e social nos planos municipais de proteção civil. É reconhecer que as trajetórias de recuperação começam muito antes do desastre e prolongam-se muito depois dele.
Neste contexto, é fundamental dizê-lo sem rodeios: o Governo tem de assumir a saúde psicológica das populações como uma prioridade estrutural da resposta às crises climáticas. Isso exige integração efetiva, e não meramente declarativa, entre os Ministérios da Saúde, da Administração Interna e da Solidariedade Social. Exige financiamento adequado, planeamento antecipado, modelos claros de intervenção psicológica em emergência e de intervenção comunitária no pós-crise. Exige que a resposta de saúde, emergência e proteção civil inclua, de forma sistemática, a proteção da saúde psicológica e do bem-estar como parte da segurança nacional.
Não preparar o país para os impactos psicológicos e psicossociais dos eventos potencialmente traumáticos que aí vêm não é apenas uma falha técnica. É uma falha ética e política.
Alguém disse, no meio da água e da lama, que pendurou num estendal a aguardar o sol as poucas fotografias que agarrou. A imagem ficou comigo. Porque é disso que falamos quando falamos de recuperação: voltar a estender a vida, com tudo o que ela tem de frágil, imperfeito e precioso. Um estendal coletivo.
Proteger a saúde psicológica das populações nestes contextos de crise e catástrofe não é um acessório. É uma condição de dignidade humana.
Se queremos um país capaz de enfrentar as crises que se avizinham, temos de cuidar das pessoas com a mesma seriedade com que cuidamos das infraestruturas. Porque sem pessoas inteiras, e sem trajetórias de recuperação apoiadas, não há certamente reconstrução que baste!
A autora escreve segundo o acordo ortográfico de 1990

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