Gaia: desde 2019, sinistros provocaram 125 feridos na Avenida da República | Mobilidade Urbana


Em cinco anos, os sinistros rodoviários provocaram 125 feridos ligeiros na Avenida da República, em Vila Nova de Gaia. Entre 2019 e 2024, as colisões, atropelamentos ou despistes envolveram 176 veículos, sendo a esmagadora maioria dos quais (116) são carros.

Os dados de sinistralidade foram enviados pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia (CMVNG) à Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (MUBi), num contexto em que as duas entidades têm estado em desacordo sobre a remoção da ciclovia da principal artéria da cidade.

Mal tomou posse, após a vitória nas eleições autárquicas de Outubro de 2025, Luís Filipe Menezes (PSD) avançou para o desmantelamento da faixa ciclável que tinha sido instalada pouco antes, no mandato do seu antecessor, Eduardo Vítor Rodrigues (PS), no Verão de 2024.

Os trabalhos de remoção começaram no início de Novembro de 2025, mas a MUBi avançou com uma providência cautelar no Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto. O processo ainda não teve um desfecho, mas congelou temporariamente o desmantelamento. Daí que se mantenha um troço entre o Jardim do Morro e a Estação de General Torres.

Na providência cautelar, um dos argumentos utilizados pela MUBi é formal, explicava a Ana Guerra, dirigente da associação e advogada: a instalação da ciclovia foi aprovada pela Assembleia Municipal como uma alteração da postura municipal de trânsito, pelo que só o mesmo órgão poderia revogar essa medida.

Foi o que fez Menezes, na Assembleia Municipal, ainda em Novembro, com 32 votos favoráveis de PSD, CDS, IL (menos um deputado, que saiu da sala na hora da votação) e Chega. Nessa reunião, na qual participaram vários munícipes a contestar a remoção da ciclovia, o presidente da câmara de Gaia disse ter “cartas de quatro senhoras, pelo menos, que partiram uma perna a sair” do autocarro e de TVDE, “a saltar num dia de chuva para o passeio”.

Um terço de atropelamentos

Nessa semana, o PÚBLICO tinha já pedido os dados de sinistralidade na Avenida da República à Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, para perceber as maiores causas de feridos naquela via. A ANSR não forneceu a informação requerida (ver caixa).

Mas a informação enviada pela CMVNG à MUBi, e a que o PÚBLICO teve acesso, permite contar a história da segurança rodoviária na Avenida da República. E o maior problema não está nas bicicletas, embora os dados disponíveis não permitam medir o impacto da ciclovia, uma vez que o intervalo de dados (Janeiro de 2019 e Novembro de 2024) apanha apenas uns meses de via dedicada.

As 113 ocorrências das quais resultaram 125 feridos (todos ligeiros, não há feridos graves ou mortes registadas) tiveram os automóveis como principais actores. Em 176 veículos envolvidos, 116 foram carros, 31 motos e oito pesados. Há ainda registo de 21 “outros veículos”, uma categoria na qual poderão estar incluídas bicicletas e trotinetas.

Na prática, um terço dos feridos é provocado por atropelamentos. Há registo de 43 atropelamentos (cinco dos quais seguidos de fuga do condutor) que causaram 44 feridos. Nestes episódios, entre 2019 e 2024, estiveram envolvidos 33 carros, um pesado e quatro motos. Há ainda registo do envolvimento de cinco “outros veículos”.

Na contestação à acção avançada pela MUBi, o município sinaliza “situações de atropelamento de peões pelos utentes da ciclovia”, já que os autocarros “passaram a param longe do passeio”. Entre outras justificações, menciona ainda o caso de uma munícipe, trabalhadora da autarquia, que refere que, “ao entrar no autocarro, foi empurrada por um ciclista que passava entre a guia do passeio e o autocarro”. No entanto, na mesma resposta, não há qualquer menção às pernas partidas mencionadas por Menezes, na Assembleia Municipal.

O PÚBLICO perguntou à câmara de Gaia se, tendo em conta o conflito identificado nos pontos em que a ciclovia se cruza com transportes públicos, tinha equacionado mudar o desenho e corrigir problemas em vez de optar pela remoção.

Perguntou também se, perante o registo de 44 feridos por atropelamento, a autarquia tinha prevista alguma medida de mitigação da velocidade ou outra melhoria de segurança rodoviária naquela avenida. “Sem comentários”, respondeu fonte oficial da câmara de Gaia.

“Ainda temos esperança de que o processo cautelar seja decidido a nosso favor”, diz Ana Guerra, da MUBi. Refere que falta ainda esclarecer “todos os elementos do financiamento daquela ciclovia”, que tinha apoio comunitário aprovado.



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