Lídia Jorge elogia “votação tão expressiva” em Seguro – Observador


A escritora Lídia Jorge elogiou, esta terça-feira, “a votação tão expressiva” em António José Seguro nas eleições presidenciais de domingo passado, por ser a proposta da inclusão. A escritora recebeu esta terça-feira o Prémio Pessoa 2025, que lhe foi entregue pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que também lhe atribuiu a grã-cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada, numa cerimónia na sede da Caixa Geral de Depósitos (CGD), em Lisboa.

À margem da cerimónia de entrega do Prémio Pessoa, Lídia Jorge, em declarações aos jornalistas presentes na sessão, fez o elogio da Literatura afirmando que “não há outra disciplina tão intensa e forte”, que permita “entender o outro”, e associou a candidatura de António José Seguro à possibilidade de “construir um país com a ajuda de todos”.

“O que a narrativa faz, o que a narrativa está sempre a dizer, é que a minha história não é mais importante do que a dos outros. E isto torna-nos muito mais humanos”, disse Lídia Jorge, num elogio à Literatura, acrescentando que não distingue “as pessoas pelos sinais exteriores de riqueza, mas por esses sinais interiores de riqueza, que é [a capacidade de] entender o outro”.

Interrogada sobre o papel da Cultura no mundo de hoje, a escritora lembrou que “a Cultura move-se na subjetividade, no campo do mundo interior” e que, atualmente, “está por toda a parte a dizer: os homens bons estão acobardados e as pessoas perto da delinquência estão cheias de coragem”.

Segundo Lídia Jorge, a Cultura é assim “o reduto daqueles que estão a dizer que uns países não podem mandar noutros”. “A Cultura está a dizer que temos de lutar pela liberdade, que temos de lutar para que sejamos todos fraternos […], porque, se não o formos, não seremos”, afirmou a autora de “Misericórdia”, acrescentando que são precisas “novas utopias”.

Interrogada pela RTP sobre a atualidade do seu discurso do passado dia 10 de junho, Lídia Jorge reiterou as suas palavras. Na altura, a escritora, como presidente da comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesa, alertou para os riscos do populismo, condenou o racismo e a xenofobia, rejeitou a ideia de pureza de sangue, defendeu os valores humanos e recordou a mistura de povos e culturas que enriquecem a identidade portuguesa.

“No fundo, o que eu disse é que todos nós temos direito à cidadania“, afirmou esta terça-feira a autora de “O Dia dos Prodígios”, dando como exemplo “a votação tão expressiva na proposta que venceu” as eleições presidenciais do passado domingo.

“Esta proposta”, concluiu Lídia Jorge numa referência à candidatura de António José Seguro, “inclui exatemente isso mesmo: a inclusão de todos, a ideia de construir um país com a ajuda de todos”.

Já durante a sua intervenção, a escritora incitou à vigilância sobre a Inteligência Artificial (IA), numa defesa do “pensamento autónomo e singular”. Para Lídia Jorge, “no mundo de hoje, decomposto, à beira do estado de alucinação”, a linguagem, a Poética, o pensamento são determinantes, tal como a vigilância sobre o poder das máquinas e a falsidade difícil de desmontar.

“A IA generativa imita, e a imitação pode passar por uma invenção emotiva saída de uma entidade que não experimenta emoção”, afirmou. A IA “não tem nem aflição, nem espanto, nem dor, nem raiva, nem alegria, nem pranto”, apenas “fornece linguagem como se os tivesse”.

Assiste-se assim, defendeu a escritora numa intervenção em que evocou a importância de Fernando Pessoa, da sua obra e dos seus heterónimos, “a um corte epistemológico entre o criador e a criatura”. Por isso, para Lídia Jorge, “em nome do futuro, convém ficar vigilante”.

“Provavelmente, estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado de todo, no meio da inundação de benefícios. A nossa esperança é de que a linguagem, que na mitologia cristã nos funda como início, não tenha fim enquanto formos donos dela”, advertiu.

No início do seu discurso, Lídia Jorge, que desde 2021 é conselheira de Estado, agradeceu a presença do Presidente da República na cerimónia, que considerou um presente a si mesma.

O Presidente da República, que falou antes da autora, salientou o “envolvimento mais direto” de Lídia Jorge “com a realidade política e social portuguesa”, a seu convite. “O que quero assinalar não é que Lídia Jorge tenha assumido nestes anos essa posição atenta e interventiva, mas que a sua atenção e intervenção foram reconhecidas pelo Presidente”, declarou.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, “é justo dizer que o seu discurso público do 10 de junho, em Lagos, e as intervenções mais restritas no Conselho de Estado”, nos últimos anos, alargaram a “perceção quanto à sua figura e ao seu empenhamento, extravasando muito o público que acompanha a ficção portuguesa”.

“Boa parte do que se diz hoje acerca de Lídia Jorge tem a ver com o prolongamento e diversificação do seu projeto literário. Mas com Lídia Jorge assistimos, sobretudo, a uma reiteração e densificação — infelizmente sem continuidade evidente nas gerações posteriores — do lugar do escritor enquanto enquanto cidadão, enquanto alguém que se preocupa e nos diz: preocupem-se”, acrescentou.

O Presidente da República considerou que “o seu desassossego, que é antes de tudo com a palavra, a frase, o parágrafo, a estrutura, se inscreve também na linhagem do escritor como consciência nacional” ou “consciência social” do tempo presente.

“Inquietação, boa vontade, humanismo, consciência são inseparáveis dos seus livros. Como é inseparável a ideia, que como Presidente procurei não esquecer, de que a História de Portugal é complexa, é discutível, tem glórias e tem traumas e não pode ser convocada a benefício de inventário, mas como um todo”, prosseguiu.

O Chefe de Estado descreveu Portugal como “um país feito de diversas comunidades residentes expatriadas, de emigrantes e de imigrantes”, com “muitas histórias por contar e por resgatar”, entre as quais “a da diversidade e igualdade de todos os portugueses e de todas as pessoas, contra os revivalismos de má memória e o divisionismo que os portugueses têm sabido tão sensata e tranquilamente rejeitar”.

“Agradeço a Lídia Jorge, como leitor, os seus livros. Agradeço a Lídia Jorge, como Presidente da República, o seu serviço a Portugal e aos portugueses. E, na linha de uma tradição aberta aqui na entrega deste prémio, uma vez completada essa entrega, entregarei, em nome dos portugueses, a Lídia Jorge, a grã-cruz da Ordem de Sant’Iago da Espada, que significa o máximo reconhecimento daquilo que lhe devemos em prol da cultura portuguesa”, anunciou.

A Ordem de Sant’Iago da Espada destina-se a distinguir o mérito literário, científico e artístico. O Prémio Pessoa é uma iniciativa do jornal Expresso, com o patrocínio da Caixa Geral de Depósitos, atribuído anualmente a uma personalidade nacional que se tenha destacado nas áreas cultural, literária, científica, artística ou jurídica.

Nascida há 79 anos em Boliqueime, no Algarve, Lídia Jorge estreou-se no romance em 1980 com “O Dia dos Prodígios”. Ao longo da carreira, recebeu os mais importantes prémios literários portugueses e internacionais, como o Prémio Médicis de Melhor Romance Estrangeiro publicado em França, por “Misericórdia”, em 2023, e o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas em 2020, de Guadalajara, um dos mais importantes da América Latina.

Ao Prémio Pessoa, que tem um valor monetário associado de 70 mil euros, juntam-se outras distinções que a autora de “O Vale da Paixão” (1998) e “Os Memoráveis” (2014) tem recebido, designadamente, os prémios da Latinidade, da União Latina e Luso-Espanhol de Arte e Cultura.

O Estado português condecorou-a com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, e França com a comenda da Ordem das Artes e Letras.

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