A que soa o canto de um tanque de armazenamento de combustível? Os músicos António Rafael, Luís Fernandes e Miguel Pedro passaram três dias dentro da antiga refinaria da Galp em Leça da Palmeira, encerrada em 2021, a tentar responder a essa questão. Ricochete é o nome da instalação que inauguraram entretanto na antiga fábrica de conservas Vasco da Gama, em Matosinhos. Embora, como dizem, seja mais uma “interpretação artística” do que um projecto documental, procura, ainda assim, ser um trabalho de memória.
“Isto é uma tentativa de perceber a paisagem não só do ponto de vista visual, mas, essencialmente, do ponto de vista sonoro”, diz, à conversa com o PÚBLICO, Miguel Pedro, que, tal como António Rafael, é um dos membros da banda Mão Morta e, também, um dos organizadores do festival bracarense de música electrónica Semibreve (Luís Fernandes, por seu turno, é o director artístico do gnration e do Theatro Circo, dois dos principais equipamentos culturais da capital minhota).
“Os trabalhadores falavam-nos nisto: o que lhes ficou não foi tanto o que viam, mas o que ouviam. Ou melhor, o que não ouviam. Apitos, alarmes, avarias, aquilo lá dentro era um ecossistema sonoro muito próprio. Então, eles não ouviam o mar — que está mesmo ali à beira. Não ouviam os aviões — e o aeroporto também não fica longe. Não ouviam os pássaros. No dia em que as máquinas foram desligadas, ouviram tudo.”
Foi com António Pedro que Ricochete, obra que pode ser visitada até 3 de Maio, começou a ganhar forma. Após uma visita à refinaria — então ainda em funcionamento, mas já em vias de encerrar —, ficou com vontade de trabalhar sobre a memória do complexo industrial, ideia que viria a entusiasmar os trabalhadores, alguns dos quais acabaram por cooperar com os músicos, enviando-lhes gravações ilustrativas do mapa sonoro lá escutado quotidianamente.
Excerto da instalação Ricochete
“Passámos três dias dentro de um tanque de armazenamento de combustível, a aproveitarmo-nos, essencialmente, da sua acústica”, explica António Pedro. “É um espaço muito grande e todo em metal, que, portanto, tem um ressoar muito particular, uma reverberação de muitos, muitos segundos. Montámos um pequeno sistema de som, assim como vários microfones, e excitámos o espaço.” Isto é, produziram uma miríade de sons — ao baterem com ferros no metal, por exemplo, ou até mesmo ao tocarem lá dentro sintetizadores modulares, ou sons gerados no software de composição e produção musical Ableton Live — para forçar o reservatório a reagir. Daí o título Ricochete.
Aquilo que agora vemos dentro da antiga fábrica Vasco da Gama (além de um pequeno vídeo, montado por João Sá, que mostra o making of da captação sonora) é, essencialmente, uma emulação, creditada a Nuno Leal, desse tanque onde António Rafael, Luís Fernandes e Miguel Pedro imergiram: um pano branco alto que desenha um círculo com 12 metros de diâmetro. Lá dentro, no escuro, seis colunas — que, de forma assíncrona, reproduzem as composições, experimentais e abstractas, dos três músicos — e três telas, que exibem imagens da refinaria recolhidas pelo artista plástico Miguel C. Tavares (bem como, no caso das imagens de drone, pelo Canal 180).
“Quando me convidaram para participar neste projecto, eu já lá tinha estado no ano anterior: fazia parte de uma equipa que estava a fazer o levantamento arquitectónico de toda a refinaria, antes que a demolição começasse”, conta ao PÚBLICO. “Isto de saber que é uma coisa que vai desaparecer… Havia uma certa ansiedade em fazer algo, uma certa urgência.”
“Sem o entusiasmo especial de algumas pessoas, isto não teria acontecido”, garante Miguel Pedro. E conclui: “A refinaria é um espaço imenso, é uma cidade dentro de uma cidade. E a memória da refinaria é algo que não se pode separar da cidade. Um dia, quando aquilo estiver tudo desmantelado e for outra coisa qualquer, vai ficar a memória.”

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